Tratamento da Criptococose
Para pacientes adultos com criptococose, o tratamento deve seguir um esquema trifásico: indução com anfotericina B (0,7-1,0 mg/kg/dia IV) mais flucitosina (100 mg/kg/dia oral dividida em 4 doses) por no mínimo 2 semanas, seguido de consolidação com fluconazol (400 mg/dia) por 8 semanas, e manutenção com fluconazol (200 mg/dia) por 6-12 meses. 1, 2
Fase de Indução (≥ 2 semanas)
Regime Preferencial
- Anfotericina B desoxicolato 0,7-1,0 mg/kg/dia IV combinada com flucitosina 100 mg/kg/dia oral (dividida em 4 doses) por no mínimo 2 semanas 1, 2
- Esta combinação proporciona esterilização mais rápida do líquor e melhora a sobrevida comparada à monoterapia 1, 2
- A flucitosina é essencial porque previne o desenvolvimento rápido de resistência quando anfotericina B é usada sozinha 2
Formulações Lipídicas (para pacientes com disfunção renal)
- Anfotericina B lipossomal 3-4 mg/kg/dia IV ou anfotericina B complexo lipídico 5 mg/kg/dia IV mais flucitosina 100 mg/kg/dia 1, 2
- Estas formulações reduzem significativamente a nefrotoxicidade, crítico para transplantados que já recebem imunossupressores nefrotóxicos 2
- Doses de até 6 mg/kg/dia de anfotericina B lipossomal demonstraram melhor desfecho em estudos 1
Duração da Indução
- Estender para 4-6 semanas se: 1, 2
- Cultura de líquor permanece positiva após 2 semanas
- Complicações neurológicas se desenvolvem
- Flucitosina não pode ser tolerada (usar anfotericina B em monoterapia pelo período prolongado)
Regimes Alternativos (em ordem decrescente de preferência)
- Anfotericina B (qualquer formulação) por 4-6 semanas em monoterapia 1
- Anfotericina B desoxicolato (0,7 mg/kg/dia) mais fluconazol (800 mg/dia) por 2 semanas, seguido de fluconazol (800 mg/dia) por 8 semanas 1
- Fluconazol (≥800 mg/dia, preferencialmente 1200 mg/dia) mais flucitosina (100 mg/kg/dia) por 6 semanas 1
- Fluconazol (800-2000 mg/dia, encorajado ≥1200 mg/dia) em monoterapia por 10-12 semanas - apenas quando anfotericina B não pode ser usada 1
Fase de Consolidação (8 semanas)
- Fluconazol 400 mg/dia oral por 8 semanas após completar a indução com sucesso 1, 2
- Iniciar somente após melhora clínica substancial e cultura de líquor negativa na punção lombar de controle 1, 2
- Para criptococomas cerebrais, considerar fluconazol 400-800 mg/dia por período mais prolongado 1
Fase de Manutenção (≥ 6-12 meses)
Pacientes HIV-Positivos
- Fluconazol 200 mg/dia oral por no mínimo 1 ano 1, 2
- Continuar até que: 2
- CD4+ ≥100 células/µL por ≥3 meses E
- Carga viral indetectável em TARV E
- Duração mínima total de antifúngico de 1 ano
- Timing da TARV: iniciar 2-10 semanas após início do antifúngico para reduzir risco de síndrome inflamatória de reconstituição imune (IRIS) 3, 2
Pacientes HIV-Negativos Imunocomprometidos
- Fluconazol 200-400 mg/dia oral por 6-12 meses 1, 2
- Transplantados e outros imunossuprimidos podem necessitar terapia supressiva prolongada dependendo do status imunológico 1, 2
Manejo da Pressão Intracraniana Elevada
A pressão intracraniana elevada é determinante crítico do desfecho e requer manejo agressivo. 2
Protocolo Obrigatório
- Medir pressão de abertura em toda punção lombar inicial 3, 2
- Pressão >25 cm H₂O é considerada elevada 2
- Se pressão >25 cm H₂O com sintomas: 2
- Realizar punção lombar terapêutica para reduzir pressão em ≥50% ou até ≤20 cm H₂O
- Repetir diariamente até pressões e sintomas estabilizarem por 1-2 dias
- Se elevação persistir apesar de punções diárias, considerar drenagem lombar percutânea temporária ou ventriculostomia
Armadilhas Comuns
- Nunca usar acetazolamida ou manitol como substitutos para punções lombares terapêuticas - estes não são eficazes 2
- Evitar corticosteroides na criptococose meníngea, exceto para: 1, 2
- Criptococomas com efeito de massa e edema perilesional (prednisona 0,5-1,0 mg/kg/dia por 2-6 semanas com desmame gradual)
- SDRA no contexto de IRIS
Monitoramento Durante o Tratamento
Toxicidade de Anfotericina B
- Monitorar função renal, eletrólitos e hemograma completo 3
- Efeitos adversos incluem náusea, vômitos, calafrios, febre e nefrotoxicidade 1
Toxicidade de Flucitosina
- Verificar níveis séricos de pico (alvo <75 µg/mL) para prevenir toxicidade medular 3
- Ajustar dose em insuficiência renal 1, 2
Avaliação de Resposta
- Punção lombar de controle após 2 semanas de indução é obrigatória 1, 3
- Cultura de líquor negativa após 2 semanas correlaciona-se com desfecho favorável 1
Situações Especiais
Criptococomas Cerebrais
- Indução com anfotericina B (qualquer formulação) mais flucitosina por no mínimo 6 semanas 1
- Consolidação e manutenção com fluconazol 400-800 mg/dia por 6-18 meses 1
- Cirurgia (ressecção aberta ou estereotáxica) para lesões ≥3 cm acessíveis com efeito de massa 1
Doença Pulmonar Isolada em HIV-Positivos
- Fluconazol 200-400 mg/dia, mas sempre realizar punção lombar para excluir envolvimento do SNC 1
- Mesmo doença aparentemente localizada requer terapia vitalícia em HIV até reconstituição imune 1
Transplantados de Órgãos Sólidos
- Preferir formulações lipídicas de anfotericina B devido a imunossupressores nefrotóxicos concomitantes 3, 2
- Reduzir prednisona (ou equivalente) para ≤10 mg/dia se possível 1
Falha Terapêutica
- Definida como falta de melhora clínica após 2 semanas ou recidiva após resposta inicial 3
- Reiniciar ou trocar para terapia baseada em anfotericina B 3
- Considerar doses mais altas de anfotericina B lipossomal (4-6 mg/kg/dia) e testar CIM para resistência a azólicos 3
Avaliação Inicial Mandatória
Antes de iniciar tratamento, todo paciente com criptococose disseminada deve ter: 3
- Punção lombar para excluir envolvimento do SNC, mesmo se neurologicamente assintomático (Cryptococcus tem forte tropismo pelo SNC)
- Hemoculturas e antígeno criptocócico sérico
- Imagem de tórax para avaliar envolvimento pulmonar
- Triagem para HIV 2
Medidas de Desempenho
- Todo paciente deve receber um polieno (qualquer formulação de anfotericina B) durante indução quando disponível 2
- Identificação, tratamento e monitoramento contínuo de pressão intracraniana elevada sintomática são obrigatórios 2
- Todos com criptococose disseminada ou meningoencefalite devem ser testados para HIV 2