Classificação Clínica da Doença Arterial Periférica
A doença arterial periférica é classificada por dois sistemas principais: a classificação de Fontaine (4 estágios) e a classificação de Rutherford (7 categorias, 0-6), sendo ambas reconhecidas pelas diretrizes ACC/AHA 2024 para estratificar a gravidade da doença e orientar o tratamento.
Sistema de Classificação de Fontaine
A classificação de Fontaine divide a DAP em quatro estágios progressivos 1:
Estágio I - Assintomático
- Paciente tem doença arterial objetivamente comprovada, mas sem sintomas 1
- Representa 20-59% dos pacientes com DAP comprovada, dependendo da população estudada 1
- Importante: Estes pacientes ainda apresentam comprometimento funcional comparável aos com claudicação e risco aumentado de eventos cardiovasculares maiores e mortalidade 2, 1
Estágio IIa - Claudicação Leve
- Claudicação que ocorre com distância de caminhada >200 metros 1, 3
- Sintomas incluem dor, cãibra, fadiga ou desconforto nos músculos das pernas durante exercício 2
- Os sintomas são consistentemente induzidos pela caminhada e consistentemente aliviados pelo repouso (geralmente dentro de aproximadamente 10 minutos) 2, 1
Estágio IIb - Claudicação Moderada a Grave
- Claudicação que ocorre com distância de caminhada <200 metros 1, 3
- O limiar de 200 metros é a linha divisória crítica entre claudicação leve e moderada a grave 3
- A dor tipicamente ocorre um nível distal ao local da obstrução arterial 3
Estágio III - Dor de Repouso
- Dor isquêmica em repouso, tipicamente localizada no pé ou dedos 1, 4
- A dor piora ao deitar e pode interromper gravemente o sono 4
- Pressão no tornozelo tipicamente <50 mmHg ou pressão no hálux <30 mmHg 1
Estágio IV - Ulceração ou Gangrena
- Presença de feridas não cicatrizantes, úlceras ou gangrena 1, 4
- Corresponde à isquemia crônica ameaçadora do membro (CLTI) 2, 1
- Sintomas devem estar presentes por >2 semanas para distinguir de isquemia aguda 2, 4
Sistema de Classificação de Rutherford
A classificação de Rutherford fornece graduação mais granular da gravidade em 7 categorias 1:
Categoria 0 - Assintomático
- Doença comprovada sem sintomas 1
Categoria 1 - Claudicação Leve
- Sintomas leves que não limitam significativamente a atividade 1
Categoria 2 - Claudicação Moderada
- Sintomas que limitam moderadamente a atividade 1
Categoria 3 - Claudicação Grave
- Sintomas que limitam gravemente a capacidade de caminhar 1
Categoria 4 - Dor Isquêmica de Repouso
- Dor em repouso sem perda tecidual 1
Categoria 5 - Perda Tecidual Menor
Categoria 6 - Perda Tecidual Maior
- Feridas extensas não cicatrizantes, ulceração ou gangrena afetando porções maiores do pé ou perna 4
- Representa o limiar além do qual o salvamento do membro torna-se significativamente mais desafiador 4
- Taxas históricas de mortalidade em 1 ano de 25-35% e taxas de amputação em 1 ano de até 30% 2, 4
Classificação Anatômica
A DAP também é classificada por nível anatômico da doença 2, 1:
- Aortoilíaca: Inclui aorta abdominal infrarrenal, ilíacas comum, externa e interna 2
- Femoropoplítea: Inclui femoral comum, femoral profunda, femoral superficial e poplítea 2
- Infrapoplítea: Inclui tronco tibioperoneal, artérias tibiais anterior e posterior, artéria peroneal e vasos pedais 2
- Pacientes comumente têm doença multinível através de múltiplos segmentos 1
Manejo Recomendado por Estágio
Estágios I-IIa (Fontaine) / Categorias 0-1 (Rutherford)
- Modificação agressiva de fatores de risco ateroscleróticos (tabagismo, dislipidemia, hipertensão, diabetes) 2
- Terapia antiplaquetária (aspirina ou clopidogrel) 2, 5
- Estatinas para todos os pacientes 5
- Programa de exercício supervisionado 2
Estágio IIb (Fontaine) / Categorias 2-3 (Rutherford)
- Após 3 meses de terapia médica otimizada e terapia de exercício, a avaliação da qualidade de vida deve orientar decisões sobre potencial revascularização 3
- Antes de oferecer revascularização, deve haver: 2
- Falta de resposta adequada à terapia de exercício e farmacoterapia para claudicação
- Presença de incapacidade grave (incapaz de realizar trabalho normal ou comprometimento sério de outras atividades importantes)
- Ausência de outra doença que limitaria o exercício mesmo se a claudicação melhorasse
- Morfologia da lesão com baixo risco e alta probabilidade de sucesso inicial e a longo prazo
Estágios III-IV (Fontaine) / Categorias 4-6 (Rutherford) - CLTI
- Encaminhamento urgente a especialista vascular e equipe multidisciplinar é obrigatório, pois o reconhecimento precoce e intervenção melhoram significativamente as taxas de salvamento do membro 4
- Avaliação e tratamento expeditos de fatores que aumentam o risco de amputação 2
- Revascularização infrapoplítea está indicada para salvamento do membro 4
- Bypass usando veia safena magna é o método preferido de revascularização para artérias infrapoplíteas (Recomendação Classe I, Nível A) 4
- Angiografia incluindo runoff do pé deve ser considerada antes da revascularização em lesões abaixo do joelho 4
- Antibióticos sistêmicos devem ser iniciados prontamente em pacientes com ulcerações cutâneas e evidência de infecção do membro 2
- Controle glicêmico ótimo é essencial em pacientes diabéticos 4
Armadilhas Clínicas Críticas
A designação "assintomático" pode ser enganosa: Pacientes idosos com múltiplas comorbidades, insuficiência cardíaca limitando capacidade de caminhar, ou neuropatia diabética podem ter doença grave sem sintomas típicos e podem apresentar-se subitamente com necrose de dedos após trauma menor 1
A intensidade da dor varia significativamente entre pacientes com gravidade de doença similar, influenciada por fatores como neuropatia, sensibilidade à dor e fatores psicológicos 1
Pacientes transitam entre subconjuntos clínicos ao longo do tempo: DAP sintomática crônica pode deteriorar para CLTI ou isquemia aguda, ou melhorar após tratamento, exigindo vigilância contínua ao invés de classificação única 1
O erro mais comum é o encaminhamento tardio a especialistas vasculares: Pacientes Rutherford 6 requerem avaliação urgente dentro de dias, não semanas, para maximizar o potencial de salvamento do membro 4
Pacientes com necrose extensa, gangrena infecciosa ou comorbidades graves podem requerer amputação maior primária ao invés de tentativas de revascularização 4