Tratamento da Criptococose
Meningoencefalite Criptocócica em Pacientes HIV-Positivos
O tratamento padrão-ouro para meningoencefalite criptocócica em pacientes HIV-positivos consiste em anfotericina B desoxicolato (0,7-1,0 mg/kg/dia IV) mais flucitosina (100 mg/kg/dia VO dividida em 4 doses) por no mínimo 2 semanas, seguido de fluconazol (400 mg/dia) por 8 semanas e terapia de manutenção com fluconazol (200 mg/dia) por pelo menos 1 ano. 1
Terapia de Indução (Primeiras 2 Semanas)
Regime preferencial: Anfotericina B desoxicolato (0,7-1,0 mg/kg/dia IV) + flucitosina (100 mg/kg/dia VO em 4 doses) por pelo menos 2 semanas 1
Formulações lipídicas de anfotericina B podem ser substituídas em pacientes com disfunção renal ou predispostos a ela: anfotericina B lipossomal (3-4 mg/kg/dia IV) ou complexo lipídico de anfotericina B (5 mg/kg/dia IV) 1
Em casos de alta carga fúngica ou falha terapêutica, considerar anfotericina B lipossomal em dose de 6 mg/kg/dia 1
Regimes Alternativos de Indução (quando regime preferencial não disponível)
Listados em ordem decrescente de recomendação:
Anfotericina B isolada (desoxicolato 0,7-1,0 mg/kg/dia ou formulações lipídicas) por 4-6 semanas 1
Anfotericina B desoxicolato (0,7 mg/kg/dia) + fluconazol (800 mg/dia) por 2 semanas, seguido de fluconazol (800 mg/dia) por mínimo de 8 semanas 1
Fluconazol (≥800 mg/dia, preferencialmente 1200 mg/dia) + flucitosina (100 mg/kg/dia) por 6 semanas 1
Fluconazol isolado (800-2000 mg/dia) por 10-12 semanas, com dose ≥1200 mg/dia encorajada 1
Armadilha importante: Um estudo recente demonstrou que flucitosina em dose reduzida (60 mg/kg/dia) apresentou atividade fungicida inferior comparada à dose padrão de 100 mg/kg/dia, não devendo ser utilizada 2
Terapia de Consolidação (8 Semanas)
- Fluconazol 400 mg/dia VO por no mínimo 8 semanas após completar indução 1
Terapia de Manutenção (Supressão)
Fluconazol 200 mg/dia VO por pelo menos 1 ano 1
Descontinuar terapia supressiva quando: CD4 >100 células/μL + carga viral indetectável ou muito baixa por ≥3 meses + mínimo de 12 meses de terapia antifúngica 1
Reintroduzir terapia de manutenção se CD4 cair para <100 células/μL 1
Início da Terapia Antirretroviral (TARV)
- Iniciar TARV 2-10 semanas após início do tratamento antifúngico para reduzir risco de síndrome inflamatória de reconstituição imune (IRIS) 1
Receptores de Transplante de Órgãos
Para doença do sistema nervoso central em transplantados, utilizar anfotericina B lipossomal (3-4 mg/kg/dia) ou complexo lipídico (5 mg/kg/dia) mais flucitosina (100 mg/kg/dia) por pelo menos 2 semanas, seguido de fluconazol (400-800 mg/dia) por 8 semanas e manutenção com fluconazol (200-400 mg/dia) por 6-12 meses. 1
Considerações Específicas
Anfotericina B desoxicolato deve ser usada com cautela devido ao risco de nefrotoxicidade nesta população, não sendo recomendada como primeira linha 1
Se indução não incluir flucitosina, considerar anfotericina B lipossomal por pelo menos 4-6 semanas 1
Redução sequencial de imunossupressores deve ser considerada, priorizando redução de corticosteroides primeiro 1
Terapia de manutenção deve continuar por pelo menos 6-12 meses 1
Manejo da Pressão Intracraniana Elevada
A hipertensão intracraniana é uma complicação crítica que requer manejo agressivo através de punções lombares terapêuticas repetidas.
Realizar punção lombar de alívio quando pressão de abertura >25 cm H₂O, removendo líquor suficiente para reduzir pressão em 50% ou até 20 cm H₂O 1
Punções lombares diárias podem ser necessárias até controle da pressão 1
Derivação ventriculoperitoneal (DVP) deve ser considerada se pressão permanecer elevada apesar de drenagens frequentes 1
Evitar acetazolamida e corticosteroides para controle de pressão intracraniana (exceto no contexto de IRIS) 1
Manitol não tem benefício comprovado e não é recomendado rotineiramente 1
Armadilha crítica: A pressão intracraniana elevada é fator de risco independente para morte, e seu manejo inadequado está associado a alta mortalidade 3
Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imune (IRIS)
Não alterar terapia antifúngica direta 1
Manifestações menores resolvem espontaneamente em dias a semanas, sem necessidade de tratamento específico 1
Complicações maiores (inflamação do SNC com hipertensão intracraniana): considerar corticosteroides (prednisona 0,5-1,0 mg/kg/dia equivalente) por 2-6 semanas 1
Criptococomas Cerebrais
Indução com anfotericina B (desoxicolato 0,7-1 mg/kg/dia, lipossomal 3-4 mg/kg/dia, ou complexo lipídico 5 mg/kg/dia) mais flucitosina (100 mg/kg/dia) por pelo menos 6 semanas 1
Consolidação e manutenção com fluconazol (400-800 mg/dia) por 6-18 meses 1
Corticosteroides para efeito de massa e edema perilesional 1
Cirurgia deve ser considerada para lesões grandes (≥3 cm), acessíveis, com efeito de massa 1
Doença Pulmonar
Pacientes Imunocomprometidos
Sempre realizar punção lombar para excluir meningite, pois presença de doença do SNC altera dose e duração da terapia 1
Pneumonia com envolvimento do SNC ou disseminação documentada: tratar como doença do SNC 1
Doença leve a moderada sem infiltrados pulmonares difusos, sem imunossupressão grave, e avaliação negativa para disseminação: fluconazol 400 mg/dia por 6-12 meses 1
Pacientes Imunocompetentes
Doença leve a moderada: fluconazol 400 mg/dia por 6-12 meses 1
Doença grave: tratar similarmente à doença do SNC 1
Nota importante: Títulos de antígeno criptocócico sérico persistentemente positivos não são critério para continuação da terapia 1
Contexto Brasileiro
No Brasil, a criptococose permanece uma das infecções fúngicas mais letais entre pacientes HIV-positivos, com mortalidade de 58,5% em alguns centros, apesar do tratamento adequado. 4, 3
Epidemiologia Nacional
C. neoformans VNI (sorotipo A, var. grubii) é o genótipo mais prevalente (97,5% dos isolados), com C. gattii VGII também presente 5, 4
82% dos casos ocorrem em pacientes HIV-positivos, seguidos por transplantados de órgãos sólidos (10%) 3
Meningoencefalite é a manifestação mais frequente (75% dos casos) 4, 3
Mortalidade em 30 dias: 19%; em 60 dias: 24% em hospitais terciários de referência 3
Fatores de Risco para Morte
Análise multivariada identificou fatores independentes de risco para óbito 3:
- Cefaleia à apresentação
- Ventilação mecânica
- Glicose no LCR <20 mg/dL
- Antígeno criptocócico no LCR ≥1:1000
Desafios Específicos
Apesar da distribuição universal de TARV no Brasil, a criptococose continua ocorrendo predominantemente em adultos HIV-positivos 3
Acesso limitado à flucitosina em muitas regiões pode comprometer o tratamento ideal 5
A criptococose não é doença de notificação compulsória no Brasil, dificultando dados precisos de incidência 5
Antigenemia Assintomática
Realizar punção lombar e hemocultura 1
Se positivos: tratar como meningoencefalite sintomática e/ou doença disseminada 1
Sem evidência de meningoencefalite: tratar com fluconazol 400 mg/dia até reconstituição imune 1