Tratamento do Sarampo
O tratamento do sarampo é principalmente de suporte, com suplementação de vitamina A sendo a única intervenção específica comprovadamente eficaz para reduzir mortalidade e complicações, especialmente em crianças.
Manejo Clínico da Doença Ativa
Suplementação de Vitamina A (Tratamento Essencial)
A vitamina A é a única terapia específica com evidência robusta de benefício em morbimortalidade:
- Crianças ≥12 meses: 200.000 UI via oral no dia 1, repetir no dia 2 1, 2
- Crianças <12 meses: 100.000 UI via oral no dia 1, repetir no dia 2 1
- Sarampo complicado (pneumonia, otite, crupe, desidratação moderada/grave, problemas neurológicos): administrar dose adicional no dia 2 1
- Sinais oculares de deficiência de vitamina A (xerose, manchas de Bitot, ceratomalácia, ulceração corneana): 200.000 UI nos dias 1,2, e 1-4 semanas depois 1
Evidência: Duas doses de 200.000 UI reduzem mortalidade em 64% (RR=0.36; IC 95% 0.14-0.82), com redução de 82% em crianças <2 anos (RR=0.18; IC 95% 0.03-0.61) e redução de 67% na mortalidade específica por pneumonia (RR=0.33; IC 95% 0.08-0.92) 2. A formulação aquosa mostrou maior eficácia (redução de 81% na mortalidade) comparada à oleosa 2.
Armadilha comum: Uma dose única de 200.000 UI NÃO demonstrou redução significativa de mortalidade (RR=0.77; IC 95% 0.34-1.78) 2. Sempre administrar duas doses.
Tratamento de Suporte
- Hidratação: Terapia de reidratação oral para diarreia 1
- Antibióticos: Apenas para infecções bacterianas secundárias comprovadas (pneumonia bacteriana, otite média) 1, 3
- Monitoramento nutricional: Avaliar estado nutricional e inscrever em programas alimentares se indicado 1
- Antivirais: Não há terapia antiviral específica aprovada pela FDA para sarampo 3, 4. Ribavirina pode ser considerada apenas em casos graves/imunocomprometidos, mas sem evidência robusta 5, 6
Nota importante: Desnutrição, febre, infecção respiratória e diarreia NÃO são contraindicações para vacinação ou tratamento 1.
Profilaxia Pós-Exposição (Prevenção Secundária)
Vacina MMR (Primeira Linha)
Para pessoas ≥12 meses expostas ao sarampo:
- Administrar vacina MMR dentro de 72 horas da exposição inicial 7
- Pode proporcionar alguma proteção ou modificar gravidade da doença 7
- Preferível à imunoglobulina na maioria dos contextos (creches, escolas, faculdades, serviços de saúde) 7
Contraindicações para vacina pós-exposição:
Imunoglobulina (IG)
Indicações específicas:
- Contatos domiciliares suscetíveis não vacinados >72 horas após exposição 7
- Grupos de alto risco: lactentes ≤12 meses, gestantes, imunocomprometidos 7
- Deve ser administrada dentro de 6 dias da exposição 7
Dosagem:
- Dose padrão: 0.25 mL/kg (máximo 15 mL) 7
- Imunocomprometidos: 0.5 mL/kg (máximo 15 mL) 7
- IGIV: 100-400 mg/kg (se administrada nas últimas 3 semanas) 7
Armadilha crítica: Após administração de IG, a vacina MMR deve ser adiada por 5-6 meses devido à interferência de anticorpos passivos 7. IG NÃO previne rubéola ou caxumba 7.
Populações Especiais
Pacientes HIV-Positivos
- HIV sintomáticos/gravemente imunocomprometidos expostos: IG profilática independente do status vacinal 7
- Dose IGIV: 100-400 mg/kg se exposição ocorreu <3 semanas após dose regular 7
- Vacina MMR contraindicada em imunocomprometidos graves 7
Lactentes
- 6-11 meses: Vacina aceitável dentro de 72 horas se contato domiciliar 7
- <6 meses: Geralmente imunes por anticorpos maternos; usar IG se mãe diagnosticada com sarampo 7
- Importante: Lactentes vacinados <12 meses devem ser revacinados após 12 meses com 2 doses de MMR separadas por ≥28 dias 7
Complicações Comuns Requerem Vigilância
- Otite média (redução de 74% com vitamina A) 2
- Crupe (redução de 47% com vitamina A) 2
- Pneumonia (monitorar e tratar infecções bacterianas secundárias) 1, 3
- Diarreia (duração reduzida em ~2 dias com vitamina A) 2
- Complicações neurológicas (raras mas graves: encefalite, PEES) 3
Pontos-Chave para Prática Clínica
- Vitamina A em duas doses é obrigatória para todas as crianças com sarampo clínico, especialmente <2 anos 1, 2
- Janela de 72 horas para vacina pós-exposição é crítica; após isso, usar IG 7
- Isolamento respiratório (máscara N-95, quarto de isolamento aéreo) é essencial em ambiente hospitalar 5
- Não existe antiviral aprovado - tratamento é sintomático e preventivo de complicações 3, 4
- Vacinação prévia não garante proteção completa - casos em vacinados podem ocorrer mas são mais leves 8