Por que realizar exame com fluoresceína nos olhos em pacientes queimados
Em pacientes queimados, a fluoresceína deve ser aplicada nos olhos para detectar lesões epiteliais da córnea e conjuntiva que podem não ser visíveis ao exame clínico simples, permitindo identificar precocemente danos oculares que comprometem a visão e requerem tratamento urgente.
Mecanismo e Importância Diagnóstica
A fluoresceína cora áreas do epitélio corneano e conjuntival onde há ruptura suficiente das junções intercelulares, permitindo que o corante penetre no tecido 1, 2, 1. Este exame é fundamental em queimados porque:
- Detecta lesões invisíveis: Defeitos epiteliais podem estar presentes mesmo quando a superfície ocular parece relativamente preservada ao exame direto
- Guia decisões terapêuticas: A presença de coloração com fluoresceína indica necessidade de antibiótico tópico profilático e acompanhamento mais intensivo 3
- Avalia extensão do dano: Permite mapear precisamente áreas de isquemia limbal e escleral, informação crítica para procedimentos reconstrutivos 4
Protocolo de Aplicação em Queimados
Quando Realizar
- Avaliação inicial: Todo paciente com queimadura facial, periorbital ou suspeita de exposição ocular deve ter exame com fluoresceína na avaliação oftalmológica inicial 5, 3
- Seguimento diário: Durante a fase aguda, o exame deve ser repetido diariamente pelo oftalmologista 5, 3
Técnica Específica
- Umedecer tira de fluoresceína com solução salina estéril não preservada
- Aplicar na conjuntiva tarsal inferior
- Examinar com biomicroscópio usando filtro azul cobalto após algumas piscadas
- A coloração torna-se mais aparente após 1-2 minutos 1, 6, 7
- Usar filtro amarelo para intensificar a visualização 1
Armadilha comum: Evitar combinações de fluoresceína com anestésico, pois o anestésico pode afetar o resultado do teste 1, 2, 1
Interpretação em Contexto de Queimaduras
Padrões de Coloração Significativos
- Coloração difusa: Indica lesão epitelial extensa, comum em queimaduras químicas ou térmicas graves
- Áreas não perfundidas: Permanecem escuras durante todo o angiograma, indicando necrose tecidual 4
- Coloração da zona de exposição: Padrão interpalpebral sugere ressecamento e exposição 1, 6
Implicações Clínicas Diretas
Quando há coloração positiva com fluoresceína em queimados 3:
- Iniciar antibiótico tópico profilático de amplo espectro (quinolona como moxifloxacino ou levofloxacino 4x/dia) após excluir ceratite microbiana
- Intensificar lubrificação: Aplicar lubrificante não preservado (hialuronato ou carmelose) a cada 2 horas
- Aumentar vigilância: Risco elevado de ulceração e infecção corneal
- Considerar corticoide tópico: Sob supervisão oftalmológica, pode reduzir dano à superfície ocular na fase aguda (dexametasona 0,1% não preservada) 3
Contexto Específico em Queimados
Por que é Crítico Nesta População
Pacientes queimados apresentam riscos oculares únicos:
- Exposição corneal: Edema palpebral e retração da pálpebra por envolvimento cutâneo aumentam exposição 3
- Lagoftalmo: Incapacidade de fechar completamente as pálpebras, especialmente em pacientes inconscientes
- Formação de pseudomembranas: Comum em queimaduras graves, requer remoção diária 5
- Isquemia limbal: Pode comprometer regeneração epitelial a longo prazo 4
Integração com Manejo Geral
O exame com fluoresceína faz parte de protocolo mais amplo 5, 3:
- Avaliação oftalmológica urgente na admissão
- Irrigação salina para higiene ocular
- Exame com fluoresceína para avaliar integridade da superfície
- Remoção de pseudomembranas
- Quebra de aderências conjuntivais
- Proteção contra exposição corneal em pacientes inconscientes (câmara de umidade com filme de polietileno)
Nota importante: Em pacientes com queimaduras faciais extensas (>40% de superfície corporal queimada), queimaduras circulares profundas no pescoço, ou sintomas de obstrução de vias aéreas, a avaliação ocular não deve atrasar o manejo de via aérea 8, mas deve ser realizada assim que o paciente esteja estabilizado.
Evidência de Qualidade
As diretrizes mais recentes e de maior qualidade 5, 3 estabelecem consenso forte (nível de evidência 4, boa prática clínica) para uso sistemático de fluoresceína em queimados com envolvimento facial/ocular, baseado em:
- Capacidade de detectar lesões que alteram manejo clínico
- Baixo custo e ausência de complicações com doses pequenas 9
- Correlação com desfechos visuais quando usado para guiar tratamento precoce