Manejo Perioperatório para Artroplastia Total de Quadril em Paciente em Uso de Metadona
Continue a metadona 10 mg a cada 12 horas durante todo o período perioperatório e adicione analgésicos opioides de curta ação em doses mais altas que o habitual para controle da dor aguda pós-operatória, pois este paciente apresentará tolerância cruzada significativa e necessitará de doses substancialmente maiores de opioides para analgesia adequada. 1
Manejo Pré-operatório
Metadona (Prioridade Máxima)
- Mantenha a dose atual de 10 mg a cada 12 horas sem interrupção 1, 2
- Confirme a última dose administrada antes da cirurgia com o paciente
- A metadona tem meia-vida de 8-59 horas e acumula-se nos tecidos; a interrupção precipitaria síndrome de abstinência grave 2
- Aviso crítico: Pacientes em terapia de manutenção com metadona apresentam tolerância cruzada a outros opioides e sensibilidade aumentada à dor, necessitando doses 50-100% maiores de analgésicos opioides no pós-operatório 1, 3
Depakene (Ácido Valproico)
- Continue 500 mg duas vezes ao dia 4
- Nunca interrompa abruptamente - risco de precipitar status epilepticus com hipóxia e risco de morte 4
- Administre a dose da manhã no dia da cirurgia com pequeno gole de água
- Monitore níveis séricos se possível (faixa terapêutica: 50-100 mcg/mL)
Losartana
- Continue 50 mg até a manhã da cirurgia
- Pode ser mantida no perioperatório para controle pressórico
Alprazolam
- Cuidado especial: Risco de depressão respiratória quando combinado com metadona e anestésicos 1
- Considere reduzir para 1 mg nas 24 horas pré-operatórias
- Informe o anestesiologista sobre o uso crônico
Tirzepatida
- Suspenda 2.5 mg na semana da cirurgia (última dose 7 dias antes)
- Retome após retorno da dieta oral completa
Comunicação Essencial
- Tranquilize o paciente explicitamente: seu histórico de uso de metadona NÃO impedirá controle adequado da dor 1
- Discuta o plano de manejo da dor de forma não-julgamental
- Explique que doses maiores de analgésicos serão necessárias devido à tolerância
Manejo Intraoperatório
Anestesia
- Anestesia regional preferencial: Bloqueio supra-inguinal do compartimento da fáscia ilíaca OU bloqueio do grupo nervoso pericapsular pré-operatório 5
- Alternativa: Infiltração local analgésica em dose única se bloqueios regionais não forem viáveis 5
- Evite: Bloqueios do quadrado lombar ou plano do eretor da espinha (risco de fraqueza motora) 5
Medicações Intraoperatórias
- Dexametasona 10 mg IV em dose única no início da cirurgia 5, 6
- Considere dose repetida de dexametasona 10 mg na manhã do POD 1 (melhora mobilização no POD 2 sem aumentar glicemia ou infecção) 6
- Evite agonistas-antagonistas mistos (butorfanol, nalbufina) - podem precipitar abstinência aguda 1
Consideração Especial sobre Metadona Intraoperatória
- NÃO adicione metadona intraoperatória adicional neste paciente já em uso crônico 7, 8
- Metadona intraoperatória é para pacientes opioid-naive; este paciente já tem níveis teciduais significativos 8
- Risco de depressão respiratória aumentado com alprazolam concomitante 8
Manejo Pós-operatório
Analgesia Multimodal (Primeira Linha)
- Paracetamol 1g a cada 6 horas (programado, não SOS) 5
- Anti-inflamatório não-esteroidal (se não contraindicado): Cetoprofeno 100 mg a cada 12 horas OU Celecoxibe 200 mg a cada 12 horas 5
- Continue metadona 10 mg a cada 12 horas rigorosamente 1
Opioides de Resgate (Segunda Linha)
- Use opioides de curta ação em doses AUMENTADAS 1, 3:
- Morfina 10-15 mg IV a cada 3-4 horas (vs. 5-10 mg em pacientes opioid-naive)
- OU Oxicodona 10-15 mg VO a cada 4 horas
- Prescreva em horários fixos, não SOS, nas primeiras 48-72 horas 1
- Espere consumo de opioides 50-100% maior que pacientes não tolerantes 3
- Titule agressivamente até controle adequado da dor 1
Monitorização Intensiva
- Avaliação da dor a cada 2-4 horas nas primeiras 24 horas
- Monitore sedação e frequência respiratória (risco aumentado com alprazolam + metadona + opioides adicionais) 8
- Tenha naloxona disponível à beira do leito 1
Manejo da Ansiedade
- Retome alprazolam 2 mg SOS para crises de ansiedade após 24 horas de pós-operatório
- Considere técnicas não-farmacológicas: respiração guiada, ambiente tranquilo
- Cuidado: Uso concomitante de alprazolam + metadona + opioides de resgate = risco triplo de depressão respiratória
Mobilização
- Inicie fisioterapia no POD 1 (espere mobilização mais lenta devido ao uso de opioides) 3
- Pacientes em metadona têm internação hospitalar 1-2 dias mais longa em média 3, 7
- Não force alta precoce; priorize controle adequado da dor e mobilização segura
Consulta Especializada
- Solicite avaliação da equipe de dor aguda/medicina da dor precocemente 3
- Pacientes em metadona requerem consulta especializada em 70% dos casos vs. 20% em pacientes não tolerantes 3
Armadilhas Comuns a Evitar
Subtratamento da dor: A maior armadilha é prescrever doses "normais" de opioides - este paciente precisa de 50-100% a mais 1, 3
Interrupção da metadona: Nunca suspenda a metadona de manutenção; ela NÃO fornece analgesia para dor aguda, apenas previne abstinência 1
Prescrições SOS: Sempre prescreva analgésicos em horários fixos nas primeiras 72 horas 1
Julgamento do paciente: Comportamentos de busca de medicação podem ser resposta apropriada à dor inadequadamente tratada ("pseudoadição") 1
Depressão respiratória: Vigilância redobrada devido à combinação metadona + alprazolam + opioides de resgate 8
Interrupção abrupta do Depakene: Risco de status epilepticus fatal 4
Transição para Alta
- Planeje alta com prescrição de opioides de curta ação por 7-14 dias
- Retorne metadona à dose de manutenção habitual (10 mg a cada 12 horas)
- Reduza gradualmente opioides de resgate conforme melhora da dor cirúrgica
- Agende seguimento com equipe de dor crônica/psiquiatria para manejo contínuo da metadona
- Retome tirzepatida após tolerância oral completa