Avaliação e Tratamento das Cólicas Intestinais
As cólicas intestinais devem ser avaliadas primeiro para excluir causas orgânicas graves através de história clínica direcionada e exame físico, seguido de investigação laboratorial e de imagem seletiva baseada em sinais de alarme; o tratamento subsequente depende da etiologia identificada ou do diagnóstico funcional estabelecido.
Abordagem Diagnóstica Inicial
História Clínica Direcionada
A avaliação deve focar em:
- Características da dor: localização (epigástrica, periumbilical, difusa), relação com evacuações, mudanças na frequência ou forma das fezes 1
- Padrão temporal: início agudo vs. crônico, duração dos episódios, horário de ocorrência
- Sintomas associados: distensão abdominal, náuseas, vômitos, diarreia, constipação, sangue nas fezes, perda de peso
- Sinais de alarme: idade >50 anos (ou >40 anos com história familiar de câncer gastrointestinal), perda de peso não intencional, sangramento gastrointestinal, anemia, febre persistente 1, 2
- História alimentar: intolerância a lactose, alergia a proteínas do leite, gatilhos dietéticos
- Infecção prévia: história de gastroenterite aguda nos últimos meses 2
Exame Físico Essencial
Procurar especificamente:
- Sinais vitais (taquicardia, febre sugerindo complicações)
- Distensão abdominal, sensibilidade à palpação, sinais de peritonismo
- Massas abdominais palpáveis
- Sons intestinais (ausentes, hiperativos, metálicos)
Investigação Laboratorial e de Imagem
Testes Iniciais Obrigatórios
Para pacientes ≥25 anos com sintomas persistentes 1:
- Hemograma completo: detectar anemia, leucocitose
- Velocidade de sedimentação/PCR: avaliar processo inflamatório
- Eletrólitos séricos e albumina: especialmente se diarreia ou vômitos
- Pesquisa de sangue oculto nas fezes
- Parasitológico de fezes: em áreas endêmicas ou com diarreia predominante 1
Testes Adicionais Baseados no Quadro Clínico
Para sintomas com diarreia predominante 1:
- Teste respiratório de hidrogênio para lactose
- Sorologia para doença celíaca (se sintomas tipo SII sobrepostos) 2
- Considerar biópsia intestinal para colite microscópica
Para dor como sintoma predominante 1:
- Radiografia simples de abdome durante episódio agudo para excluir obstrução intestinal
- Se negativa, considerar teste terapêutico com antiespasmódico
Para suspeita de obstrução intestinal 3:
- TC de abdome e pelve com contraste IV é o exame de escolha (acurácia >90%)
- Não usar contraste oral em obstrução de alto grau (risco de aspiração e atraso diagnóstico)
- Procurar sinais de isquemia: realce anormal da parede intestinal, espessamento, edema mesentérico, pneumatose
Endoscopia Digestiva
Colonoscopia indicada 1:
- Todos os pacientes >50 anos (rastreamento de câncer colorretal)
- Pacientes <50 anos com: diarreia persistente, perda de peso, sangramento, anemia
Sigmoidoscopia flexível: alternativa em pacientes jovens sem sinais de alarme 1
Algoritmo de Tratamento por Etiologia
1. Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Diagnóstico positivo quando presente dor abdominal recorrente ≥1 dia/semana nos últimos 3 meses, associada a ≥2 dos seguintes 1:
- Relacionada à defecação
- Mudança na frequência das evacuações
- Mudança na forma das fezes
Tratamento estratificado por gravidade 1:
Sintomas leves:
- Educação e reasseguramento sobre natureza benigna
- Modificações dietéticas (evitar gatilhos identificados)
- Fibras para constipação predominante
- Loperamida para diarreia predominante
Sintomas moderados (com incapacidade funcional):
- Dor predominante: antiespasmódicos (primeira linha)
- Diarreia predominante: loperamida; se refratário, considerar teste para má absorção
- Constipação predominante: fibras; se persistente, avaliar trânsito colônico
Sintomas graves (dor constante, incapacidade psicossocial):
- Antidepressivos
- Tratamento psicológico estruturado
- Reavaliação em 3-6 semanas; se sem resposta, investigação adicional 1
2. Doença Inflamatória Intestinal
Doença de Crohn ileocolônica leve a moderada 4:
- Primeira linha: mesalazina 4g/dia
- Se falha ou doença moderada-grave: prednisolona 40mg/dia, redução gradual em 8 semanas
- Doença ileocecal isolada: budesonida 9mg/dia (menos eficaz que prednisolona, mas menos efeitos colaterais)
Doença grave 4:
- Internação hospitalar obrigatória
- Hidrocortisona IV 400mg/dia ou metilprednisolona 60mg/dia
- Metronidazol IV concomitante (difícil distinguir atividade de complicação séptica)
- Monitorização: sinais vitais 4x/dia, hemograma e eletrólitos a cada 24-48h
- Heparina subcutânea profilática
- Manejo conjunto gastroenterologista-cirurgião
Colite ulcerativa distal ativa 4:
- Terapia combinada (mais eficaz): mesalazina tópica + mesalazina oral
- Se falha: adicionar prednisolona 40mg/dia oral
- Redução gradual de corticoides em 8 semanas
3. Obstrução Intestinal
Apresentação aguda com dor cólica intermitente, distensão, vômitos 3:
- TC abdome/pelve com contraste IV imediatamente (sem contraste oral)
- Procurar sinais de isquemia (emergência cirúrgica): realce anormal, espessamento de parede, edema mesentérico, pneumatose
Obstrução de baixo grau/parcial 3:
- Descompressão com sonda nasogástrica
- Hidratação IV, correção eletrolítica
- "Desafio com contraste hidrossolúvel": 100mL de contraste iodado diluído; radiografia em 8h e 24h
- Se contraste atinge cólon em 24h: raramente necessita cirurgia
- Se não atinge: considerar cirurgia
Obstrução de alto grau ou com isquemia: cirurgia urgente
4. Dispepsia Funcional
Quando sintomas epigástricos predominam 2:
- Teste para H. pylori (respiratório ou fecal); erradicar se positivo
- Endoscopia se idade >40 anos ou sinais de alarme
- Se negativo: inibidor de bomba de prótons por 4-8 semanas
- Explicar eixo cérebro-intestino, gatilhos dietéticos e de estresse
Armadilhas Comuns a Evitar
Não atrasar TC em suspeita de obstrução de alto grau: contraste oral aumenta risco de aspiração e não melhora acurácia diagnóstica 3
Não usar simethicone para cólicas funcionais: sem evidência de eficácia consistente 5, 6
Não prescrever dicyclomine em lactentes: contraindicado por efeitos adversos graves 5
Não ignorar sinais de alarme: perda de peso + idade >60 anos requer TC urgente; disfagia + idade >55 anos requer endoscopia em 2 semanas 2
Não usar corticoides sem distinguir SII de DII: história detalhada e marcadores inflamatórios são essenciais
Não esquecer heparina profilática em DII grave: risco significativo de tromboembolismo 4
Reavaliação e Seguimento
- SII: reavaliar em 3-6 semanas após início do tratamento; se sem melhora, investigação adicional baseada no subtipo 1
- DII em remissão: terapia de manutenção vitalícia com aminossalicilatos, azatioprina ou mercaptopurina 4
- Sintomas refratários: considerar causas alternativas (má absorção de sais biliares, supercrescimento bacteriano, estenoses fibróticas, dismotilidade) 4