Fisioterapia no Tratamento da Pneumonia
Em pacientes hemodinamicamente estáveis com pneumonia, a mobilização precoce e exercícios respiratórios ativos devem ser implementados, mas técnicas convencionais de fisioterapia torácica (percussão, vibração, drenagem postural) não são recomendadas como tratamento de rotina.
Recomendações Baseadas em Evidências
O Que NÃO Fazer
A fisioterapia torácica convencional (percussão, vibração, drenagem postural) não deve ser utilizada rotineiramente em pneumonia não complicada 1, 2. Uma revisão Cochrane de 2013 demonstrou que essas técnicas não melhoram mortalidade, taxa de cura ou melhora radiológica em adultos com pneumonia 1. As diretrizes da AARC são explícitas: fisioterapia torácica convencional não é recomendada para tratamento de rotina de pneumonia não complicada 2.
O Que FAZER: Abordagem Estruturada
1. Mobilização Precoce (Prioridade Máxima)
- Iniciar dentro de 72 horas da admissão hospitalar 3
- Progressão gradual e escalonada até o nível mais alto possível 3
- Duração ideal: ≥30 minutos/dia quando tolerado 3
- Critérios de segurança para iniciar:
- Reserva cardiorrespiratória adequada
- SpO₂ ≥86%
- Pressão arterial média ≥60 mmHg
- Ausência de arritmias com repercussão hemodinâmica 3
2. Exercícios Respiratórios Ativos
- Exercícios de expansão torácica
- Técnicas de controle respiratório ativo
- Exercícios diafragmáticos 4, 5, 6
- Importante: Estes são eficazes apenas quando o paciente está alerta e cooperativo 7
3. Técnicas de Depuração das Vias Aéreas (Uso Seletivo)
Utilizar somente se houver retenção sintomática de secreções e o paciente não consegue mobilizá-las com tosse efetiva 2. Nestes casos:
- Ensinar técnica de tosse eficaz (primeira linha) 2
- Considerar técnicas de ciclo ativo de respiração
- Pressão expiratória positiva pode reduzir tempo de internação em 1,4 dias 1
Protocolo de Progressão
Fase 1 (Dias 1-3):
- Posicionamento: elevação de cabeceira ≥40° 3
- Mudanças regulares de decúbito para evitar posição supina plana 3
- Respiração diafragmática
- Posturas assistidas pela gravidade 6
Fase 2 (Dias 4-14):
- Exercícios de membros superiores com bandas elásticas 8
- Técnicas de facilitação neuromuscular proprioceptiva 6
- Mobilização progressiva: sentar → ficar em pé → deambular
Fase 3 (Semanas 3-8):
- Mobilidade de tronco
- Deambulação progressiva sem suporte 6
- Exercícios funcionais
Critérios para Interromper a Sessão
Suspender imediatamente se 3:
- Dessaturação <86%
- Aumento da frequência cardíaca >30% do basal
- Aumento da pressão arterial sistólica ≥40 mmHg
- Aumento da pressão arterial diastólica ≥20 mmHg
- Nova arritmia ou piora de arritmia existente
- Deterioração do nível de consciência
- Dor não controlável
Evidências de Benefício
Um estudo randomizado demonstrou que intervenção fisioterapêutica (exercícios respiratórios, eletroestimulação, exercícios com bandas elásticas) durante hospitalização por pneumonia adquirida na comunidade resultou em ganhos significativos em força muscular de quadríceps e redução de dispneia, superando a deterioração causada pela imobilização 8.
Casos clínicos recentes mostram que protocolos estruturados de 8 semanas podem resultar em desmame de oxigênio, melhora da SpO₂ para 94% em ar ambiente, e deambulação de 50m sem suporte 6.
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não usar espirometria de incentivo rotineiramente - não há evidência de benefício 2
- Não aplicar fisioterapia torácica convencional "por protocolo" - é ineficaz e desperdiça recursos 1, 2
- Não imobilizar desnecessariamente - a imobilização deve ser exceção explicitamente prescrita 3
- Não iniciar técnicas de depuração sem avaliar se o paciente consegue tossir efetivamente 2
Integração com Outros Cuidados
A mobilização precoce deve ser integrada em um bundle de tratamento que inclui manejo de dor, ansiedade, agitação, delirium e testes de respiração espontânea em pacientes ventilados (bundle ABCDEF) 3.