A vertigem periférica verdadeira NÃO é causada por patologia cervical
A sua intuição está correta: a vertigem periférica genuína não é relacionável com a coluna cervical, apesar da insistência frequente dos doentes. As guidelines da American Academy of Otolaryngology são claras ao distinguir a "vertigem cervical" da vertigem periférica verdadeira 1.
Por que os doentes insistem nesta relação?
Esta confusão é extremamente comum na prática clínica porque:
- Dor cervical e tonturas coexistem frequentemente, mas isto não implica causalidade
- A enxaqueca vestibular (causa central muito comum) frequentemente apresenta-se com dor cervical e vertigem simultaneamente 2
- Qualquer condição vestibular leva a tensão muscular cervical reflexa (causa E efeito) 2
- Movimentos da cabeça agravam sintomas em QUALQUER condição vestibular, não apenas nas cervicais 2
O que dizem as evidências de maior qualidade
A Bárány Society (2022) - a autoridade máxima em medicina vestibular - é categórica: a evidência que suporta uma ligação mecanística entre vertigem verdadeira (sensação ilusória de movimento rotatório) e patologia cervical é inexistente 2.
Características distintivas críticas:
Vertigem cervical (se existir):
- Desencadeada por rotação da cabeça em relação ao corpo enquanto em posição vertical
- NÃO desencadeada por mudanças de posição da cabeça em relação à gravidade 1
Vertigem periférica verdadeira (VPPB, neurite vestibular):
- Desencadeada por mudanças de posição da cabeça em relação à gravidade
- Nistagmo característico com fadiga e componente torsional
- Responde a manobras de reposicionamento 3
Armadilhas comuns a evitar
1. Enxaqueca vestibular é o grande imitador
- Prevalência de 3,2% na população
- Responsável por 14% dos casos de vertigem
- Quase sempre apresenta dor cervical associada
- É a causa mais comum da combinação "dor cervical + vertigem" 2
- Critérios: ≥5 episódios de 5min-72h + história de enxaqueca + sintomas migranosos em ≥50% dos episódios 3
2. Causas perigosas que podem simular origem cervical
Quando há vertigem aguda com dor cervical, considere:
- Dissecção da artéria vertebral com AVC de circulação posterior (emergência!)
- AVC cerebelar (10% apresentam-se como vertigem "periférica") 3
- Síndrome de compressão da artéria vertebral (extremamente raro) 2
3. Síndrome de rotação da artéria vertebral
- Entidade extremamente rara
- Requer confirmação por angio-RM, angio-TC ou angiografia digital 4
- Não é "vertigem cervical" comum - é compressão vascular mecânica
Abordagem prática quando o doente insiste
Quando um doente apresenta vertigem + dor cervical:
Primeiro, exclua causas vestibulares periféricas verdadeiras:
- Teste Dix-Hallpike para VPPB
- Avalie nistagmo característico (torsional, com fadiga)
- Se positivo: trate a VPPB com manobras de reposicionamento 3
Segundo, exclua causas centrais perigosas:
- Sinais neurológicos focais (disartria, dismetria, disfagia, défices sensitivo-motores)
- Nistagmo de causa central (vertical puro, sem fadiga, muda com o olhar)
- Exame HINTS se disponível expertise 5
Terceiro, considere enxaqueca vestibular:
- História de enxaqueca
- Fotofobia, fonofobia, aura visual
- Episódios de 5min-72h
- Esta é provavelmente a resposta na maioria dos casos 2
Apenas depois de excluir tudo acima, considere "vertigem cervical":
Mensagem para o doente
Pode explicar ao doente: "A sua dor cervical e tonturas podem coexistir, mas a cervical não está a causar a vertigem verdadeira. É mais provável que ambos sejam sintomas de outra condição (como enxaqueca), ou que a tensão cervical seja uma consequência de evitar movimentos da cabeça devido à vertigem."
A falha em responder a tratamento conservador (manobras de reposicionamento, reabilitação vestibular) deve levantar suspeita de que o diagnóstico não é vertigem periférica simples 3.