Colecistolitíase: Diagnóstico e Manejo
1. Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico diferencial da colecistolitíase deve incluir outras condições que causam dor abdominal superior direita ou epigástrica, sendo as principais:
- Colecistite aguda
- Coledocolitíase (cálculos no ducto biliar comum)
- Colangite
- Pancreatite aguda biliar
- Síndrome de Mirizzi
- Fístula colecistocoledociana
- Úlcera péptica
- Dispepsia funcional
- Doença do refluxo gastroesofágico
- Hepatite
- Pneumonia de base direita
- Infarto agudo do miocárdio (apresentação atípica)
- Síndrome do intestino irritável
- Câncer de vesícula biliar 1
2. Quadro Clínico
O quadro clínico da colecistolitíase pode variar desde assintomático até sintomas típicos de cólica biliar:
- Cólica biliar: dor epigástrica ou no quadrante superior direito, de início súbito, intensidade constante, duração de horas (2-4 horas), frequentemente irradiada para o dorso superior ou escápula direita
- Náuseas e vômitos associados à dor
- Intolerância a alimentos gordurosos
- Sintomas dispépticos (indigestão, eructação, distensão abdominal, flatulência) - embora estes sintomas possam persistir mesmo após colecistectomia 2
Importante: Aproximadamente 80% dos pacientes com cálculos biliares permanecem assintomáticos durante toda a vida. Nos pacientes assintomáticos, a incidência anual de desenvolvimento de dor biliar é de 2-5% nos primeiros anos após o diagnóstico 2.
2.1 Sintoma ou Sinal Clássico para Fechar o Diagnóstico
A dor de cólica biliar é o sintoma clássico para suspeita diagnóstica de colecistolitíase. Esta dor tem características específicas:
- Localização epigástrica ou no quadrante superior direito
- Início abrupto, frequentemente despertando o paciente durante o sono
- Intensidade constante (não é realmente "cólica" no sentido de ondas de dor)
- Duração de 2-4 horas
- Pode irradiar para o dorso superior ou região escapular direita
- Frequentemente associada a náuseas
- Geralmente ocorre após refeições gordurosas 2, 3
3. Definição e Fisiopatologia
A colecistolitíase é definida como a presença de cálculos na vesícula biliar. É uma condição comum que afeta aproximadamente 10-20% da população adulta em países ocidentais, com maior prevalência em mulheres e pessoas acima de 40 anos 4.
Fisiopatologia:
Os cálculos biliares formam-se devido a um desequilíbrio na composição da bile, levando à precipitação de seus componentes
Existem três tipos principais de cálculos:
- Cálculos de colesterol (70-80%): formados quando a bile contém colesterol em excesso que não pode ser mantido em solução
- Cálculos mistos (15-20%): contêm colesterol e pigmentos biliares
- Cálculos pigmentares (5-10%): compostos principalmente de bilirrubinato de cálcio, formados em condições de hemólise crônica ou cirrose
Os fatores de risco incluem: obesidade, diabetes mellitus, uso de estrogênios, gravidez, doenças hemolíticas, cirrose hepática e idade avançada 4
4. Diagnóstico
O diagnóstico de colecistolitíase baseia-se na combinação de sintomas clínicos e exames de imagem:
Ultrassonografia abdominal: é o exame de escolha, com sensibilidade de 88% e especificidade de 80% para detecção de cálculos biliares. Achados incluem:
- Imagens ecogênicas com sombra acústica posterior na vesícula biliar
- Possível espessamento da parede da vesícula (>3mm)
- Possível dilatação do ducto biliar comum (>6mm) 5
Cintilografia hepatobiliar (HIDA): útil quando há suspeita de disfunção da vesícula biliar ou colecistite aguda. Uma fração de ejeção da vesícula biliar (GBEF) <38% após infusão de colecistoquinina é considerada anormal 6
Tomografia computadorizada (TC): menos sensível que a ultrassonografia para cálculos biliares, mas pode ser útil para avaliar complicações
Colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM): alta sensibilidade (93%) e especificidade (96%) para detecção de cálculos no ducto biliar comum 5
Exames laboratoriais: geralmente normais em colecistolitíase não complicada. Alterações podem indicar complicações:
5. Opções de Tratamento
O tratamento definitivo para colecistolitíase sintomática é a colecistectomia laparoscópica. 6, 5
Abordagem Cirúrgica:
Colecistectomia laparoscópica: procedimento padrão-ouro para colecistolitíase sintomática
- Menor tempo de recuperação e hospitalização comparado à abordagem aberta
- Baixas taxas de complicações em mãos experientes
Colecistectomia aberta: reservada para casos com contraindicações à laparoscopia ou quando há dificuldades técnicas durante o procedimento laparoscópico
Timing da cirurgia:
- Colecistectomia precoce (dentro de 7 dias do início dos sintomas): recomendada para colecistite aguda, resultando em menor tempo de recuperação e hospitalização 6
- Colecistectomia eletiva: para pacientes com cólica biliar recorrente sem colecistite aguda
Abordagem Conservadora:
Observação clínica: recomendada para pacientes com cálculos assintomáticos, exceto em subgrupos específicos (cálculos grandes >2,5cm, anemia hemolítica congênita, vesícula não funcionante) 7
Tratamento medicamentoso:
- Analgésicos para controle da dor durante crises agudas
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): tratamento de escolha para crises de dor aguda 2
- Antiespasmódicos: podem auxiliar no alívio dos sintomas
6. Prescrição Pós-Operatória
A prescrição pós-operatória após colecistectomia geralmente inclui:
Analgesia:
- Dipirona 1g IV/VO a cada 6 horas se dor moderada a intensa
- Paracetamol 750mg VO a cada 6 horas se dor leve
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como cetoprofeno 100mg IV/VO a cada 12 horas
Antieméticos:
- Ondansetrona 4-8mg IV/VO a cada 8 horas se náuseas ou vômitos
- Metoclopramida 10mg IV/VO a cada 8 horas como alternativa
Profilaxia de tromboembolismo venoso:
- Heparina de baixo peso molecular (enoxaparina 40mg SC uma vez ao dia) em pacientes de alto risco
Antibioticoterapia: geralmente não necessária após colecistectomia não complicada, exceto em casos de colecistite aguda ou perfuração
Dieta: progressão gradual de dieta líquida para dieta geral conforme tolerância
7. Complicações Pós-Operatórias
As principais complicações após colecistectomia incluem:
- Lesão do ducto biliar: complicação grave, ocorre em 0,1-0,2% dos casos
- Sangramento: intra-abdominal ou nos locais dos trocartes
- Infecção da ferida operatória: mais comum em colecistectomias abertas
- Coleções subhepáticas ou subfrênicas: podem necessitar drenagem percutânea
- Fístula biliar: vazamento de bile pelos ductos acessórios ou pelo coto do ducto cístico
- Coledocolitíase residual: cálculos não detectados no ducto biliar comum
- Síndrome pós-colecistectomia: persistência de sintomas dispépticos após a cirurgia
- Complicações relacionadas ao pneumoperitônio: embolia gasosa, arritmias cardíacas
- Complicações anestésicas
- Complicações tromboembólicas: trombose venosa profunda, embolia pulmonar 6
8. Complicações da Doença Não Tratada
Se não tratada, a colecistolitíase pode evoluir para várias complicações graves:
- Colecistite aguda: inflamação da vesícula biliar, ocorre em 10-20% dos pacientes com cálculos biliares
- Coledocolitíase: migração de cálculos para o ducto biliar comum, ocorre em 10-15% dos casos
- Colangite: infecção das vias biliares, potencialmente fatal se não tratada
- Pancreatite aguda biliar: complicação grave causada pela obstrução da ampola de Vater
- Síndrome de Mirizzi: obstrução do ducto hepático comum por um cálculo impactado no ducto cístico
- Fístula colecistocoledociana: erosão de um cálculo da vesícula para o ducto biliar comum
- Fístula colecistoentérica: comunicação anormal entre a vesícula e o intestino
- Íleo biliar: obstrução intestinal causada por um cálculo grande que migrou para o intestino
- Câncer de vesícula biliar: risco aumentado em pacientes com cálculos grandes (>3cm) e calcificação da vesícula (vesícula em porcelana) 1, 4
9. Classificações Importantes
A classificação de Tokyo (TG18) para colecistite aguda é uma das mais importantes relacionadas à doença biliar calculosa:
Classificação de Tokyo para Colecistite Aguda:
- Grau I (leve): colecistite aguda em paciente saudável sem disfunção orgânica
- Grau II (moderada): associada a qualquer uma das seguintes condições:
- Leucocitose >18.000/mm³
- Massa palpável no quadrante superior direito
- Duração dos sintomas >72 horas
- Inflamação local marcada (peritonite, abscesso pericolecístico, abscesso hepático, colecistite gangrenosa, colecistite enfisematosa)
- Grau III (grave): associada à disfunção de qualquer um dos seguintes órgãos/sistemas:
A classificação de risco para coledocolitíase também é importante:
Classificação de Risco para Coledocolitíase:
Alto risco (>50%):
- Cálculo visível no ducto biliar comum na ultrassonografia
- Bilirrubina total >4 mg/dL
- Dilatação do ducto biliar comum >6mm com bilirrubina entre 1,8-4 mg/dL
Risco intermediário (10-50%):
- Alteração de enzimas hepáticas
- Idade >55 anos
- Pancreatite biliar aguda
Baixo risco (<10%):
- Ausência dos critérios acima 5
Esta classificação orienta a necessidade de investigação adicional com CPRM, ecoendoscopia ou colangiografia intraoperatória.
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