Diferenciação entre Urgência e Emergência Hipertensiva em Crianças com Base na Encefalopatia Hipertensiva
A presença de encefalopatia hipertensiva define automaticamente uma emergência hipertensiva, não uma urgência, independentemente dos valores absolutos de pressão arterial. 1, 2
Definições Fundamentais
Emergência Hipertensiva:
- Elevação grave da pressão arterial (geralmente >180/120 mmHg em adultos, valores ajustados por percentil em crianças) associada a lesão aguda de órgão-alvo, exigindo redução imediata da pressão arterial 1, 2
- A encefalopatia hipertensiva é uma das manifestações mais graves de emergência hipertensiva 1, 3
Urgência Hipertensiva:
- Elevação grave da pressão arterial sem evidência de lesão aguda de órgão-alvo 1, 2
- Representa essencialmente um diagnóstico de exclusão 1
- Pode ser manejada com medicamentos orais e não requer internação em UTI 2
Características Clínicas da Encefalopatia Hipertensiva
A encefalopatia hipertensiva ocorre em 10-15% dos pacientes com hipertensão maligna e é caracterizada por: 1
Sintomas Neurológicos Principais:
- Convulsões 1, 3
- Letargia ou alteração do estado mental 1, 3
- Cegueira cortical 1
- Coma 1
- Cefaleia intensa 3
- Distúrbios visuais 3
Ponto Crítico: Até um terço dos pacientes com encefalopatia hipertensiva podem não apresentar retinopatia hipertensiva avançada, portanto o diagnóstico baseia-se principalmente na presença de sintomas neurológicos apoiados por neuroimagem 1
Abordagem Diagnóstica Diferencial
Avaliação Inicial Obrigatória:
Exame Físico Focado:
- Pressão arterial em quatro membros 4
- Exame neurológico detalhado, incluindo fundoscopia 4
- Avaliação cardiovascular completa 4
Exames Laboratoriais Essenciais:
- Hemograma completo (hemoglobina, plaquetas) para avaliar microangiopatia hemolítica 5
- Creatinina, sódio, potássio para função renal 5, 4
- Lactato desidrogenase (LDH) e haptoglobina para detectar hemólise 5
- Urinálise com sedimento para identificar lesão renal 5, 4
- Troponinas se houver dor torácica 5
Neuroimagem:
- TC ou RM de crânio são fundamentais quando há suspeita de encefalopatia hipertensiva para excluir causas alternativas (AVC, hemorragia intracraniana) 5
Manejo da Emergência Hipertensiva com Encefalopatia
Princípios Terapêuticos em Crianças:
Meta de Redução Pressórica:
- Reduzir a pressão arterial em 25-30% do valor original nas primeiras 8 horas 3, 4
- Para encefalopatia hipertensiva especificamente: redução da pressão arterial média (PAM) em 20-25% imediatamente 2
- Armadilha crítica: Quedas precipitadas da pressão arterial podem resultar em hipoperfusão de órgãos vitais, incluindo isquemia cerebral 3, 4
Medicamentos de Primeira Linha:
- Dose inicial: 5 mg/hora, aumentar 2,5 mg/hora a cada 15 minutos até máximo de 15 mg/hora 6
- Vantagem: início rápido de ação com titulação cuidadosa 6
- Diluição: cada frasco de 25 mg deve ser diluído em 240 mL de solução IV compatível, resultando em concentração de 0,1 mg/mL 6
- Dose inicial: 20 mg IV em 2 minutos, pode repetir 20-80 mg a cada 10 minutos até dose total de 300 mg 7
- Particularmente útil em encefalopatia hipertensiva pois preserva o fluxo sanguíneo cerebral 2
Nitroprussiato de Sódio IV: 3, 4
- Taxa inicial: 0,3 mcg/kg/min, titular a cada poucos minutos até máximo de 10 mcg/kg/min 8
- Advertência importante: Risco de toxicidade por cianeto quando >500 mcg/kg é administrado mais rápido que 2 mcg/kg/min 8
- Deve ser protegido da luz durante infusão 8
Ambiente de Tratamento:
- Internação obrigatória em UTI com monitorização contínua da pressão arterial 2, 5
- Preferencialmente com linha arterial para monitorização invasiva 5
- Apenas bomba de infusão volumétrica deve ser usada, nunca por gravidade 8
Considerações Especiais em Pediatria
Causas Secundárias:
- Crianças têm maior probabilidade de hipertensão secundária (20-40% dos casos) comparado a adultos 1, 4
- Causas mais comuns: doença renal parenquimatosa e estenose de artéria renal 1
- Investigação para causas secundárias deve ser realizada após estabilização 5
Papel do Sistema Renina-Angiotensina:
- Há forte evidência de que o sistema renina-angiotensina desempenha papel importante na gênese da crise hipertensiva em crianças 3
- Ativação marcada do sistema renina-angiotensina está frequentemente presente e associada ao grau de dano microvascular 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Nunca usar nifedipina de ação curta devido a quedas imprevisíveis da pressão arterial 2, 5
- Não atrasar o tratamento aguardando resultados laboratoriais completos se encefalopatia for evidente 5
- Não normalizar a pressão arterial na fase aguda - pacientes com hipertensão crônica têm autorregulação alterada 5
- Não confundir urgência com emergência: a presença de qualquer sintoma neurológico define emergência 1, 2