Abordagem para Pacientes Pós-Cirurgia Bariátrica com Baixa Resposta aos Antipsicóticos
A baixa eficácia de antipsicóticos em pacientes pós-bariátrica exige monitoramento terapêutico de níveis plasmáticos e ajuste de dose, pois a anatomia gastrointestinal alterada pode resultar tanto em má absorção quanto em exposição aumentada, dependendo do medicamento e tipo de cirurgia.
Mecanismos de Alteração Farmacocinética Pós-Bariátrica
A cirurgia bariátrica altera profundamente a absorção de medicamentos orais através de múltiplos mecanismos 1:
- Redução do volume gástrico diminui o tempo de dissolução e pode prejudicar a absorção de fármacos que requerem meio ácido 2
- Bypass duodenal (em procedimentos como duodenal switch) elimina o principal sítio de absorção de muitos medicamentos 3
- Alterações no metabolismo hepático e perda de peso podem paradoxalmente aumentar ou diminuir níveis plasmáticos 1
- Tempo de trânsito intestinal acelerado reduz a janela de absorção 2
Evidência Específica de Má Absorção de Antipsicóticos
Um caso documentado demonstrou má absorção de lurasidona após duodenal switch, com resposta incompleta ao tratamento no primeiro ano pós-operatório 3. Este antipsicótico requer administração com pelo menos 350 calorias, o que pode ser particularmente problemático após cirurgia restritiva 3.
Estratégia de Manejo Algorítmica
Passo 1: Avaliação Inicial da Resposta Inadequada
Quando um paciente pós-bariátrica apresenta baixa resposta ao antipsicótico:
- Solicitar dosagem de níveis plasmáticos do antipsicótico (quando disponível) para distinguir entre má absorção versus resistência farmacológica 4
- Revisar o tipo de cirurgia realizada: duodenal switch tem maior impacto na absorção que bypass gástrico ou sleeve 3, 2
- Avaliar tempo decorrido desde a cirurgia: alterações farmacocinéticas são mais pronunciadas nos primeiros 6-12 meses 1
Passo 2: Ajuste de Dose Baseado em Níveis Plasmáticos
Se níveis plasmáticos estiverem baixos (indicando má absorção):
- Aumentar a dose gradualmente em 25-50% acima da dose pré-cirúrgica, monitorizando resposta clínica 1
- Considerar fracionamento de doses (administração 2-3x/dia ao invés de dose única) para maximizar janela de absorção 2
- Garantir administração com alimentos quando indicado (especialmente lurasidona), respeitando as limitações de ingestão calórica pós-bariátrica 3
Se níveis plasmáticos estiverem elevados (cenário menos comum mas documentado):
- Reduzir dose em 25% e monitorar sinais de toxicidade 1
- Vigilância rigorosa para efeitos adversos: prolongamento QTc, sintomas extrapiramidais, sedação excessiva 5
Passo 3: Seleção de Antipsicótico Alternativo
Para pacientes com má absorção persistente apesar de ajustes:
Antipsicóticos de primeira linha em idosos (extrapolando para população bariátrica pela complexidade farmacocinética similar) 6:
- Risperidona 0,5-3,5 mg/dia: primeira escolha, melhor perfil de absorção 6
- Quetiapina 50-300 mg/dia: segunda linha, mais sedativa mas bem tolerada 6
- Olanzapina 5-15 mg/dia: evitar em pacientes com diabetes, dislipidemia ou obesidade residual 6
Evitar especificamente 6:
- Clozapina (risco metabólico aumentado, interações complexas)
- Antipsicóticos típicos de baixa potência (perfil anticolinérgico desfavorável)
Passo 4: Considerar Formulações Alternativas
Quando absorção oral permanece inadequada:
- Formulações de liberação prolongada injetáveis (depot) eliminam variabilidade de absorção gastrointestinal 4
- Formulações sublinguais ou orodispersíveis (quando disponíveis) podem contornar parcialmente alterações gástrica 4
Monitoramento Essencial
- Avaliação presencial diária durante ajuste agudo de dose
- Reavaliação semanal nas primeiras 4 semanas após mudança
- Monitoramento mensal após estabilização
- Sinais vitais (hipotensão, taquicardia)
- ECG para prolongamento QTc (especialmente com ziprasidona)
- Sintomas extrapiramidais (rigidez, tremor, acatisia)
- Peso e parâmetros metabólicos (glicemia, lipídios)
- Função hepática se usando valproato concomitante
Armadilhas Comuns a Evitar
Não assumir automaticamente má absorção 1: alguns pacientes podem ter níveis aumentados devido à redução do metabolismo hepático ou perda de peso, levando a toxicidade se a dose for aumentada empiricamente.
Evitar uso crônico inadvertido 5, 7: 47% dos pacientes continuam antipsicóticos após alta hospitalar sem indicação clara; reavaliar necessidade em cada consulta.
Não usar antipsicóticos para agitação leve 7, 8: reservar para agitação grave com risco de dano; tentar intervenções comportamentais primeiro.
Atenção a interações medicamentosas 6: inibidores potentes de CYP450 (fluoxetina, paroxetina, fluvoxamina) podem aumentar níveis de antipsicóticos, exacerbando variabilidade farmacocinética pós-bariátrica.
Considerações de Segurança Críticas
Mortalidade aumentada 5, 7: mesmo tratamento de curto prazo com antipsicóticos está associado a aumento de mortalidade, especialmente em pacientes acima de 75 anos.
Discussão de riscos obrigatória 8: antes de iniciar ou ajustar antipsicóticos, discutir com paciente/família os riscos de eventos cardiovasculares, quedas, efeitos metabólicos e mortalidade.
Duração de tratamento 6: após resposta adequada, tentar redução gradual em 3-6 meses para determinar menor dose efetiva; evitar uso indefinido sem reavaliação regular.