Sedação em Paciente Idoso com QT Longo e Instabilidade Hemodinâmica Recente
Para este paciente idoso com QT longo e instabilidade hemodinâmica recente, recomendo dexmedetomidina em infusão contínua sem dose de ataque, iniciando com 0,2-0,3 μg/kg/h, evitando completamente antipsicóticos devido ao risco de prolongamento adicional do QT e torsades de pointes.
Contraindicações Absolutas Neste Cenário
- Antipsicóticos devem ser evitados: As diretrizes da Critical Care Medicine recomendam explicitamente evitar antipsicóticos em pacientes com prolongamento basal do QT, história de torsades de pointes, ou uso concomitante de medicações que prolongam o QT 1
- Haloperidol causa prolongamento médio de 7 ms no QTc e está associado a 46% de aumento no risco de arritmias ventriculares e morte súbita cardíaca 2
- Quetiapina prolonga o QTc em média 6 ms 2
- Olanzapina prolonga o QTc em média 2 ms, sendo o antipsicótico de menor risco, mas ainda contraindicado neste contexto 2
Agente de Primeira Linha: Dexmedetomidina
A dexmedetomidina é o sedativo preferencial para pacientes delirantes na UTI quando não relacionado a abstinência de álcool ou benzodiazepínicos 1:
Protocolo de Administração
- Iniciar sem dose de ataque em pacientes idosos com instabilidade hemodinâmica 1, 3
- Dose inicial: 0,2 μg/kg/h, titulando em incrementos de 0,05 μg/kg/h 4
- Dose efetiva (ED90) para idosos: 0,34 μg/kg/h para emergência suave sem agitação 4
- Evitar doses >0,7 μg/kg/h devido ao risco aumentado de instabilidade hemodinâmica 5
Vantagens Específicas
- Não prolonga o intervalo QT 1
- Reduz a prevalência de delirium comparado a benzodiazepínicos em pacientes ventilados mecanicamente 1
- Permite despertar suave sem depressão respiratória ou agitação de emergência em idosos 4
Precauções Críticas em Idosos
- 71% dos pacientes desenvolvem instabilidade hemodinâmica em 24 horas 5
- Fatores de risco principais: idade avançada (HR 1,23 por 10 anos) e pressão arterial basal baixa (HR 2,42) 5
- Monitorização rigorosa: A instabilidade hemodinâmica é mais comum em idosos devido à diminuição da função barorreceptora 6
- Reduz débito cardíaco e fluxo sanguíneo cerebral em ~33% 1, 7
- Causa bradicardia e hipotensão, especialmente em doses baixas 1
Agente de Segunda Linha: Benzodiazepínicos
Se a dexmedetomidina causar instabilidade hemodinâmica inaceitável, os benzodiazepínicos (midazolam) são a alternativa mais segura hemodinamicamente 1, 3:
Justificativa Hemodinâmica
- Perfil hemodinâmico mais favorável que propofol ou dexmedetomidina em pacientes com disfunção cardíaca grave 1, 3
- Redução mínima da pressão arterial por vasodilatação direta e modulação do sistema nervoso autônomo 1
- Efeito "tipo nitroglicerina": reduz pressões de enchimento cardíaco sem comprometer fluxo coronariano 1
- Efeitos inotrópicos negativos clinicamente insignificantes 1
Desvantagens
- Aumentam o risco de delirium comparado a dexmedetomidina 1
- As diretrizes recomendam não-benzodiazepínicos preferencialmente para sedação em UTI 1
- Uso deve ser reservado para agitação persistente como sedativo adjuvante 1
Agente Contraindicado: Propofol
Propofol deve ser evitado neste paciente 1, 3, 8:
- Causa hipotensão dose-dependente por vasodilatação direta, efeitos simpatolíticos e reset do barorreceptor 1
- Reduz débito cardíaco em até 20% 1
- Pode causar bradicardia via ativação de receptores muscarínicos 1
- Exacerba instabilidade hemodinâmica em choque cardiogênico 3
- Em idosos, pacientes debilitados ou ASA-PS III-IV: a dose deve ser reduzida para 80% da dose usual do adulto 8
- Bolus rápido contraindicado em idosos para sedação 8
Estratégia Analgesia-Primeiro
Tratar a dor antes de sedar 1:
- Fentanyl é o opioide preferencial em pacientes com instabilidade hemodinâmica 1
- Morfina deve ser evitada devido a metabólitos ativos que acumulam em insuficiência renal 1
- Avaliar dor a cada turno usando escalas validadas (NRS, BPS, CPOT) 1
- Dor significativa: NRS ≥4, BPS >5, ou CPOT ≥3 1
Monitorização Essencial
Avaliação de Sedação
- Usar RASS ou SAS a cada turno como instrumentos mais válidos e confiáveis 1
- Meta: sedação leve (RASS 0 a -2) 1
- Evitar sedação profunda prolongada 1
Monitorização Cardíaca
- ECG basal obrigatório antes de iniciar qualquer sedativo 2
- ECG de seguimento após titulação de dose 2
- Considerar ajuste se QTc >500 ms ou aumento >60 ms do basal 2
- Monitorar eletrólitos: corrigir hipocalemia e hipomagnesemia 2
Avaliação de Delirium
- Monitorar delirium rotineiramente usando CAM-ICU ou ICDSC 1
- Mobilização precoce para reduzir incidência e duração do delirium 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não usar antipsicóticos profilaticamente para prevenir delirium 1
- Não descontinuar abruptamente a infusão de sedativos antes do desmame ventilatório 8
- Não usar rivastigmina para reduzir duração do delirium 1
- Não administrar dose de ataque de dexmedetomidina em pacientes hemodinamicamente instáveis 1, 3
- Não usar haloperidol IV devido ao maior risco de prolongamento do QT e arritmias comparado às vias oral ou IM 2
- Evitar múltiplos agentes que prolongam QT simultaneamente 2