Câncer de Endométrio: Opções de Tratamento
A cirurgia com histerectomia total e salpingo-ooforectomia bilateral é o tratamento padrão para o câncer de endométrio, com abordagem minimamente invasiva preferida, seguida de terapia adjuvante estratificada por risco. 1, 2
Tratamento Cirúrgico Primário
Procedimento Cirúrgico Padrão
- Histerectomia total com salpingo-ooforectomia bilateral (TH/BSO) é o tratamento fundamental para doença aparentemente confinada ao útero 1, 2, 3
- A cirurgia deve incluir exploração sistemática, inspeção e palpação de todo o abdome (fígado, diafragma, omento e superfícies peritoneais) 2, 3
- Citologia peritoneal deve ser realizada, embora não afete mais o estadiamento FIGO 2, 3
- Todas as áreas anormais devem ser biopsiadas 1, 3
Abordagem Cirúrgica
- A cirurgia minimamente invasiva (laparoscópica ou robótica) é fortemente preferida sobre a laparotomia, oferecendo resultados oncológicos equivalentes com benefícios perioperatórios superiores 1, 2
- A cirurgia robótica oferece benefício particular em pacientes obesas, com taxas de complicações maiores significativamente menores (6,4% vs 20%) comparada à laparotomia 1
- Histerectomia vaginal pode ser considerada para pacientes com contraindicação à laparoscopia/laparotomia 1
Avaliação Linfonodal
Para doença de baixo risco (G1/2 e invasão miometrial <50%):
- Linfadenectomia pode ser considerada para estadiamento, com dissecção de linfonodo sentinela (SLND) como opção 1, 4
Para doença de alto risco (G3 e invasão miometrial <50% ou invasão >50%; todos os estágios com tipo não-endometrioide):
- Linfadenectomia pélvica e para-aórtica é recomendada para guiar estadiamento e terapia adjuvante 1
- Deve incluir remoção sistemática de linfonodos pélvicos e para-aórticos até o nível das veias renais 1
Para doença estágio III-IV:
- Linfadenectomia recomendada como parte do estadiamento abrangente 1
Considerações Especiais
Para estágio II com lesão cervical macroscópica:
- Histerectomia radical modificada (tipo B ou tipo A de Piver) deve ser considerada se necessária para obter margens livres 1
Para doença avançada (estágio III-IV) com bom performance status:
- Citorreducção macroscópica completa (incluindo ressecção de metástases) quando viável 1
- Para performance status comprometido ou doença irressecável: tratamento multimodal deve ser considerado 1
Omentectomia:
- Realizada em casos de adenocarcinoma seroso, adenocarcinoma de células claras ou carcinossarcoma 1, 3
Terapia de Preservação de Fertilidade
Apenas para pacientes altamente selecionadas com hiperplasia atípica/neoplasia intraepitelial endometrial (AH/EIN) ou carcinoma endometrioide G1 (G1 EEC) solicitando preservação de fertilidade 1, 2:
Critérios Obrigatórios
- Encaminhamento a centros especializados 1, 2
- Dilatação e curetagem (D&C) com ou sem histeroscopia 1, 2
- Confirmação de AH/EIN ou G1 EEC por gineco-patologista especialista 1, 2
- RM pélvica para excluir invasão miometrial evidente e envolvimento anexial 1, 2
- Paciente totalmente informada que tratamento conservador é não-padrão 1, 2
- Disposição para aceitar acompanhamento rigoroso 1, 2
Tratamento Conservador
- Acetato de medroxiprogesterona (MPA) ou acetato de megestrol (MA) é recomendado 1, 5
- DIU com progestina também é uma opção 1
- Após conclusão da paridade, histerectomia e salpingo-ooforectomia é recomendada 1
Preservação Ovariana
- Pode ser considerada em mulheres <45 anos com invasão miometrial <50%, sem doença extra-uterina evidente e sem história familiar de risco de câncer ovariano 1
Terapia Adjuvante Estratificada por Risco
Doença de Baixo Risco (Estágio IA, G1-2, invasão miometrial <50%, LVSI negativo)
Doença de Risco Intermediário (Estágio I endometrioide, G1-2, invasão miometrial ≥50%, LVSI negativo)
- Braquiterapia vaginal adjuvante é recomendada 1, 4
- Nenhum tratamento adjuvante é uma opção, especialmente para pacientes <60 anos 1
- Taxa de recorrência aproximadamente 22,4% para estágio IB 4
Doença de Alto Risco Intermediário (Estadiamento cirúrgico nodal realizado, linfonodos negativos)
- G1-2, LVSI negativo: braquiterapia vaginal 1
- G3 ou LVSI inequivocamente positivo: radioterapia externa de campo limitado (EBRT) 1
Doença de Alto Risco (Estágio I, G3, invasão miometrial ≥50%)
Com estadiamento cirúrgico nodal realizado, linfonodos negativos:
Sem estadiamento cirúrgico nodal:
- EBRT adjuvante 1
- Quimioterapia adjuvante (combinada e/ou sequencial) pode ser considerada (maior evidência para quimioterapia combinada mais EBRT do que qualquer modalidade isolada) 1
Câncer Não-Endometrioide de Alto Risco (seroso, células claras, indiferenciado ou carcinossarcoma)
- Carcinossarcoma e tumores indiferenciados requerem terapia adjuvante mais agressiva 1, 4
- Quimioterapia combinada e radioterapia devem ser consideradas 1, 4
- Taxas de recorrência significativamente maiores que tipos endometrioides 4
Doença Estágio IIIC2
- Quimioterapia mais EBRT de campo estendido deve ser considerada 1
Doença Avançada/Metastática e Recorrente
Cirurgia
- Apenas se citorreducção ótima (sem doença residual) puder ser alcançada 1, 4
- Inclui remoção de linfonodos aumentados, mas não linfadenectomia pélvica e para-aórtica sistemática 1
- Exenteração considerada para estágio IIIA e recidiva local central após radioterapia 1
Radioterapia e Quimioterapia
- Radioterapia curativa é tratamento padrão para pacientes com recidiva vaginal isolada após cirurgia 1
- Radioterapia radical (braquiterapia intrauterina ± EBRT) para tratamento primário de doença irressecável ou quando cirurgia é contraindicada 1
- Quimioterapia + radioterapia pode ser considerada para recidiva vaginal ou nodal pélvica em pacientes com características de alto risco para recidiva sistêmica 1
- Regime padrão de quimioterapia de primeira linha é paclitaxel/carboplatina por 3-6 ciclos 4
Terapia Hormonal
- Progestinas (MPA ou MA) são o tratamento de primeira linha preferido para pacientes sem envolvimento visceral ou doença rapidamente progressiva 1, 4
- Indicado para carcinoma endometrioide avançado/recorrente G1/2, receptor hormonal positivo 1, 4
- Biópsia repetida para determinar status do receptor hormonal deve ser realizada antes do início do tratamento 1
Terapia Alvo para Carcinoma Seroso Uterino HER2-Positivo
- Para carcinoma seroso uterino ou carcinossarcoma HER2-positivo, terapia tripla com carboplatina/paclitaxel/trastuzumabe é a opção preferida 2
- Recomendado para terapia primária de doença estágio III/IV ou opção de primeira linha para doença recorrente 2
- Sobrevida livre de progressão mediana foi 17,9 vs 9,3 meses para braços contendo trastuzumabe vs controle em doença estágio III/IV (P=0,013) 2
Armadilhas Comuns e Advertências
Erros Cirúrgicos Críticos
- Nunca realizar morcelação uterina sem excluir malignidade, pois isso arrisca disseminar tecido canceroso e compromete avaliação patológica 2
- Não confiar apenas no estadiamento clínico, pois subestima extensão da doença em alguns casos 2
Erros em Terapia Adjuvante
- Sobretratamento com EBRT quando braquiterapia vaginal seria suficiente para doença de risco intermediário 4
- Subestimar importância do estadiamento cirúrgico para guiar decisões de terapia adjuvante 4
- Não reconhecer que pacientes com histologia G3 ou LVSI positivo podem se beneficiar de abordagens de tratamento adjuvante mais agressivas 4
- Não considerar terapia de modalidade combinada para características de alto risco representa subtratamento, pois radioterapia isolada mostrou resultados inferiores comparada à quimiorradioterapia em populações de alto risco 4
Considerações de Estadiamento
- Nenhum exame é suficientemente sensível e específico para distinguir entre doença estágio I e estágio II 1, 3
- CA125 não tem valor diagnóstico para câncer de endométrio, mas pode predizer extensão extra-uterina em níveis >35 U/ml 1, 3
- Radioterapia pré-operatória NÃO é recomendada para doença estágio I, pois não pode ser planejada de acordo com fatores histoprognósticos específicos e constituiria sobretratamento 2
Vigilância
- A maioria das recorrências ocorre nos primeiros 3 anos após tratamento, justificando vigilância intensiva durante este período 4