Avaliação e Manejo da Intolerância a Ruídos em Otorrinolaringologia
A intolerância a ruídos requer diferenciação cuidadosa entre hiperacusia (desconforto físico a sons de intensidade normal), misofonia (reações emocionais intensas a sons específicos) e sensibilidade ao ruído (desconforto geral em ambientes ruidosos), pois cada condição exige abordagem terapêutica distinta. 1
Classificação e Diagnóstico Inicial
A avaliação começa com história direcionada para identificar o tipo específico de intolerância sonora:
Hiperacusia: Caracteriza-se por desconforto físico ou dor quando qualquer som atinge um nível de intensidade que seria tolerável para a maioria das pessoas, independente do tipo de som 1
Misofonia: Manifesta-se por reações emocionais intensas (raiva, ansiedade, nojo) a sons específicos (frequentemente sons corporais como mastigação, respiração), não influenciadas pela intensidade percebida desses sons 1, 2
Sensibilidade ao ruído: Apresenta-se como reatividade aumentada com desconforto geral (irritação ou sensação de sobrecarga) devido a ambiente percebido como ruidoso, independente da intensidade real 1
Fonofobia: Caracteriza-se por resposta emocional de ansiedade e evitação de sons devido ao medo de que o som cause piora de condição comórbida (como zumbido) ou resulte em desconforto 1
Avaliação Audiológica Obrigatória
Todo paciente com intolerância a ruídos deve realizar avaliação audiológica abrangente, incluindo audiometria tonal, logoaudiometria e medição dos níveis de desconforto sonoro em frequências audiométricas. 3, 4
A medição dos níveis de desconforto sonoro (loudness discomfort levels) é essencial especificamente para pacientes com hiperacusia 3
Avaliação audiológica completa identifica perda auditiva associada que pode estar contribuindo para os sintomas 5, 3
Investigação de Causas Subjacentes
Realizar exame físico otorrinolaringológico direcionado para identificar:
Impactação ceruminosa, anormalidades da membrana timpânica ou patologia de orelha média através de otoscopia 3
Zumbido associado (presente em muitos casos de hiperacusia), avaliando lateralidade, características e duração 5, 3
Sinais neurológicos focais que possam indicar patologia do sistema nervoso central 5, 3
Estudos de imagem NÃO devem ser solicitados rotineiramente para intolerância a ruídos, exceto se houver anormalidades neurológicas focais, perda auditiva assimétrica, ou sintomas unilaterais. 5, 3, 4
Abordagem Terapêutica Baseada em Evidências
Para Hiperacusia:
Terapia de dessensibilização sonora gradual e sistemática é o tratamento de escolha, envolvendo exposição progressiva a sons em intensidades crescentes 1, 6
Aconselhamento sobre a natureza benigna da condição e mecanismos envolvidos 1, 6
Aparelhos auditivos são recomendados se houver perda auditiva associada, mesmo que leve ou unilateral 3, 4
Para Misofonia:
Terapia de exposição específica para misofonia com desenvolvimento de hierarquias de sons gatilho e exercícios de exposição graduada 2
Técnicas de manejo de estresse para facilitar engajamento com a terapia de exposição 2
Terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada para misofonia 2
Para Sensibilidade ao Ruído e Fonofobia:
Aconselhamento e educação sobre a condição 1
TCC quando há componente significativo de ansiedade ou evitação 4
Armadilhas Comuns a Evitar
Não recomendar proteção auditiva constante (tampões ou abafadores) para hiperacusia, pois isso perpetua a hipersensibilidade e piora os sintomas 1
Não confundir misofonia com hiperacusia - a primeira não responde a terapia sonora tradicional e requer abordagem específica de exposição 1, 2
Evitar prescrição de suplementos dietéticos (Ginkgo biloba, melatonina, zinco) que não têm evidência de eficácia 4
Não prescrever rotineiramente antidepressivos, anticonvulsivantes ou ansiolíticos como tratamento primário, devido a evidência insuficiente e potenciais efeitos colaterais 4
Quando Encaminhar
Encaminhar para otorrinolaringologista quando: