Não, beta-bloqueadores NÃO devem ser prescritos para pacientes com bradicardia e bloqueio de condução
Beta-bloqueadores são listados como causas medicamentosas de bradicardia e bloqueio de condução, e sua prescrição neste contexto representa uma contraindicação relativa que requer avaliação cuidadosa do risco-benefício. 1
Contexto Fisiopatológico
Os beta-bloqueadores exacerbam a disfunção do nó sinusal e os bloqueios de condução ao diminuir a inclinação da fase 4 da despolarização diastólica, resultando em diminuição da frequência de descarga do nó sinusal 1. Estes medicamentos podem causar:
- Bradicardia sintomática com frequências cardíacas que podem necessitar intervenção 1
- Bloqueios atrioventriculares de segundo e terceiro graus 2, 3
- Síndrome do nó sinusal e pausas sinusais 2, 4
Evidência de Toxicidade e Complicações
Apresentações Clínicas Graves
Estudos demonstram que a combinação de beta-bloqueadores com outros agentes cronotrópicos negativos (como bloqueadores de canais de cálcio) resulta em:
- Bradicardia sintomática manifestando-se como letargia, tontura, síncope, dor torácica e edema pulmonar 4
- Ritmos de escape juncional, bradicardia sinusal e pausas sinusais 4
- Necessidade de marca-passo temporário em casos graves 4
- Apresentação em pacientes idosos com disfunção ventricular esquerda ou anormalidades de condução preexistentes 3, 4
Dados de Estudos Observacionais
Um estudo retrospectivo de 596 pacientes com bradiarritmia sintomática demonstrou que o uso de beta-bloqueadores estava associado a 2:
- Fibrilação atrial lenta (OR = 4.2, p < 0.001)
- Síndrome do nó sinusal (OR = 2.8, p = 0.001)
- Bradicardia sinusal/pausas (OR = 32.9, p < 0.001)
Situações Excepcionais Onde Pode Ser Considerado
Indicações Classe I com Necessidade de Marca-passo
A única situação onde beta-bloqueadores podem ser continuados em pacientes com bradicardia sintomática é quando há indicação Classe I para seu uso (pós-infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca sistólica) E o paciente recebe marca-passo permanente 1:
- Pacientes pós-IM com indicação de beta-bloqueador que desenvolvem bradicardia sintomática devem receber marca-passo permanente para permitir continuação da terapia essencial 1
- Pacientes com insuficiência cardíaca sistólica crônica com indicação de beta-bloqueador e bradicardia sintomática devem ser considerados para marca-passo 1
Algoritmo de Decisão
Avaliar se a bradicardia é sintomática: síncope, pré-síncope, fadiga, dispneia aos esforços, dor torácica, hipotensão, insuficiência cardíaca 5
Documentar correlação sintoma-bradicardia: ECG de 12 derivações, monitorização ambulatorial se sintomas intermitentes 5
Identificar causas reversíveis: suspender beta-bloqueador se possível 1
Avaliar indicação Classe I para beta-bloqueador 1:
- Pós-IM recente
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida
- Se NÃO há indicação Classe I: suspender o beta-bloqueador
- Se há indicação Classe I: considerar marca-passo permanente para permitir continuação da terapia
Considerar redução de dose como alternativa intermediária se suspensão completa não for possível 1
Manejo Agudo de Bradicardia Induzida por Beta-bloqueador
Se um paciente apresentar bradicardia sintomática ou comprometimento hemodinâmico devido a beta-bloqueador 1, 6, 7:
Terapia de Primeira Linha
- Glucagon 3-10 mg IV em bolus seguido de infusão de 3-5 mg/hora 1, 6, 7
- Mecanismo: ativa adenilato ciclase hepática, contornando o bloqueio beta-receptor 6, 7
- Efeitos adversos: náusea e vômito 6, 7
Terapia de Segunda Linha
- Terapia com insulina em altas doses: bolus de 1 unidade/kg seguido de infusão de 0.5-1 unidades/kg/hora 1, 6, 7
- Administração concomitante de dextrose obrigatória 7
- Monitorização de glicose e potássio essencial 1, 7
Medidas Adicionais
- Vasopressores/inotrópicos: epinefrina 2-10 mcg/min ou dopamina 5-20 mcg/kg/min para hipotensão persistente 7
- Marca-passo temporário se terapia farmacológica falhar 7
Armadilhas Comuns a Evitar
Não assumir que doses baixas são seguras: bradicardia sintomática pode ocorrer mesmo com doses muito baixas de beta-bloqueadores 4
Não combinar com bloqueadores de canais de cálcio: esta combinação aumenta significativamente o risco de bradicardia grave e bloqueios de condução 3, 4
Não ignorar idade avançada: pacientes idosos têm risco aumentado de bradicardia sintomática com beta-bloqueadores 4
Não negligenciar disfunção ventricular esquerda preexistente: estes pacientes têm maior risco de complicações 4
Não usar atropina como solução definitiva: atropina pode aumentar temporariamente a frequência cardíaca, mas não resolve o problema subjacente da toxicidade por beta-bloqueador 1