Síndrome Pressor: Diagnóstico e Conduta
Definição e Classificação
A síndrome pressor (crise hipertensiva) é definida como pressão arterial ≥180/110 mmHg e deve ser imediatamente classificada como emergência hipertensiva (com lesão aguda de órgão-alvo) ou urgência hipertensiva (sem lesão de órgão-alvo), pois o manejo difere radicalmente entre estas duas condições. 1
Emergência Hipertensiva
- Requer redução imediata da PA com medicação intravenosa titulável em unidade de terapia intensiva 1, 2
- Lesões de órgão-alvo incluem: encefalopatia hipertensiva, hemorragia intracraniana, AVC isquêmico agudo, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca aguda com edema pulmonar, dissecção aórtica, insuficiência renal aguda, eclâmpsia 1
Urgência Hipertensiva
- PA severamente elevada sem lesão aguda de órgão-alvo 1, 2
- Manejo ambulatorial com anti-hipertensivos orais, sem necessidade de internação ou redução imediata da PA 1, 2
Diagnóstico
Avaliação Inicial Obrigatória
História clínica focada:
- Sintomas de emergência: cefaleia, distúrbios visuais, dor torácica, dispneia, sintomas neurológicos focais ou generalizados, dor abdominal, náuseas 1
- Não-aderência medicamentosa, uso de drogas (AINEs, esteroides, simpaticomiméticos, cocaína, metanfetamina), retirada de tratamento anti-hipertensivo 1
- Duração da hipertensão e controle prévio da PA 1
Exame físico direcionado:
- Medição da PA em ambos os braços e membro inferior (para detectar dissecção aórtica) 1
- Fundoscopia obrigatória se PA >180/110 mmHg (papiledema indica hipertensão maligna) 1
- Avaliação cardiovascular e neurológica completa 1
- Sinais de hipertensão secundária: características de síndrome de Cushing, estigmas de neurofibromatose (feocromocitoma), rins aumentados palpáveis (doença policística), sopros abdominais (hipertensão renovascular) 1
Exames Laboratoriais e de Imagem
Avaliação básica obrigatória:
- Hemograma completo, plaquetas, fibrinogênio 1
- Creatinina sérica, TFG estimada, eletrólitos, LDH, haptoglobina 1
- Relação albumina/creatinina urinária, sedimento urinário (eritrócitos, leucócitos, cilindros) 1
- Eletrocardiograma (isquemia, arritmias, hipertrofia ventricular esquerda) 1
Exames adicionais conforme indicação clínica:
- Troponina cardíaca de alta sensibilidade (dor torácica aguda) 1
- NT-proBNP (insuficiência cardíaca) 1
- Metanefrinas fracionadas plasmáticas ou urinárias (suspeita de feocromocitoma - sensibilidade 97-98%) 1, 3
- Ecocardiografia (dissecção aórtica, insuficiência cardíaca, isquemia) 1
- TC ou RM cerebral (hemorragia intracraniana, encefalopatia hipertensiva) 1
- Angiotomografia de tórax e abdome (doença aórtica aguda) 1
Investigação de Causas Secundárias
Hipertensão renovascular (2% dos hipertensos):
- Ultrassom renal e Doppler de artérias renais 1
- Angioplastia é tratamento de escolha na displasia fibromuscular 1
Feocromocitoma (0,2-0,4% dos casos):
- Medição de metanefrinas livres plasmáticas (teste com maior sensibilidade) ou metanefrinas fracionadas urinárias 1, 3
- Valores muito elevados dispensam testes adicionais 1
Aldosteronismo primário (1-11% dos hipertensos):
- Relação aldosterona/renina plasmática como teste de rastreamento 1, 4
- Apenas minoria apresenta hipocalemia em fase inicial 1
Conduta
Emergência Hipertensiva
Meta de redução da PA:
- Reduzir PA em no máximo 25% na primeira hora 1
- Se estável, reduzir para 160/100 mmHg nas próximas 2-6 horas 1
- Normalizar gradualmente nas 24-48 horas seguintes 1
Medicações intravenosas de primeira linha:
Nicardipina (bloqueador de canal de cálcio):
Labetalol (bloqueador alfa e beta):
Fenoldopam (agonista dopaminérgico):
Clevidipina (bloqueador de canal de cálcio):
Medicações a evitar:
- Hidralazina (resposta imprevisível e duração prolongada) 1, 2
- Nifedipina de liberação imediata 2
- Nitroprussiato de sódio (usar com cautela devido toxicidade por cianeto) 1, 2
Monitorização:
- Internação em UTI obrigatória 1, 2
- Monitorização intra-arterial recomendada 1
- Trocar local de infusão a cada 12 horas se via periférica 5
Urgência Hipertensiva
Manejo ambulatorial:
- Reiniciar ou intensificar terapia anti-hipertensiva oral 1
- Tratar ansiedade se aplicável 1
- Não há indicação de encaminhamento ao pronto-socorro, redução imediata da PA ou internação 1
Seguimento:
Transição para Terapia Oral
Ao descontinuar infusão intravenosa:
- Iniciar anti-hipertensivo oral apropriado imediatamente 5
- Se usar nicardipina oral: administrar primeira dose 1 hora antes de descontinuar infusão 5
Terapia oral de primeira linha:
- Diurético tiazídico (clortalidona preferível) ou tiazídico-símile 1, 6
- Inibidor da ECA ou bloqueador do receptor de angiotensina 1, 6
- Bloqueador de canal de cálcio 1, 6
- Meta: PA <130/80 mmHg em adultos <65 anos; PAS <130 mmHg em ≥65 anos 1, 6
Modificações do Estilo de Vida (Obrigatórias)
- Restrição de sódio para aproximadamente 2 g/dia (equivalente a 5 g de sal) 1
- Exercício aeróbico de intensidade moderada ≥150 min/semana 1
- IMC saudável (20-25 kg/m²) e circunferência abdominal <94 cm (homens) ou <80 cm (mulheres) 1
- Dieta mediterrânea ou DASH 1
- Limitar álcool a <100 g/semana de álcool puro 1
- Cessar tabagismo 1
Armadilhas Comuns
- Não confundir urgência com emergência: apenas emergências requerem redução imediata da PA 1, 2
- Evitar redução excessivamente rápida da PA: pode causar isquemia cerebral, renal ou coronariana 1
- Investigar não-aderência medicamentosa: causa comum de hipertensão resistente 1
- Excluir hipertensão do avental branco: realizar MAPA ou MRPA antes de intensificar tratamento 1
- Atenção à função renal: monitorar creatinina 2-4 semanas após iniciar inibidor do sistema renina-angiotensina 1