Conduta para Pé de Charcot
A conduta primária para o pé de Charcot ativo é a imobilização e descarga imediata com dispositivo não removível até o joelho, preferencialmente um gesso de contato total, iniciado assim que a suspeita diagnóstica for levantada. 1
Abordagem Diagnóstica Inicial
Quando houver suspeita de pé de Charcot ativo (pé quente, edemaciado, eritematoso com pele íntegra):
- Inicie imobilização/descarga imediatamente com dispositivo até o joelho enquanto aguarda confirmação diagnóstica, pois o atraso no tratamento leva à progressão da deformidade 1
- Realize radiografias simples bilaterais do pé e tornozelo (projeções AP, oblíqua medial e lateral), preferencialmente com carga 1
- Se as radiografias forem normais mas a suspeita clínica persistir, solicite ressonância magnética para confirmar ou excluir a doença ativa 1
- Meça a diferença de temperatura cutânea entre os membros usando termometria infravermelha (comparando o ponto mais quente do pé afetado com o ponto anatômico correspondente contralateral) 1
- Não solicite PCR, VHS, leucograma ou fosfatase alcalina para diagnóstico, pois não são úteis 1
Tratamento da Fase Ativa
Hierarquia de Dispositivos de Descarga
Primeira escolha:
- Gesso de contato total (Total Contact Cast) - oferece imobilização e redistribuição de pressão ideais 1, 2
Segunda escolha:
- Bota imobilizadora até o joelho tornada não removível - comparável ao gesso de contato total quando aplicada adequadamente 1, 2
Terceira escolha:
- Dispositivo removível até o joelho usado continuamente - apenas quando dispositivos não removíveis são contraindicados ou não tolerados, com risco de não aderência 1, 2
Evitar:
- Não use dispositivos abaixo do tornozelo (sandália pós-operatória, sapato cirúrgico, palmilhas moldadas) pois fornecem imobilização inadequada e capacidade limitada de descarga 1, 2
Medidas Adjuvantes
- Utilize dispositivos auxiliares (muletas, andadores, cadeira de rodas) para reduzir ainda mais a carga no membro afetado 1, 2
- A aderência ao uso de muletas bilaterais pode reduzir o tempo de cicatrização em até 34 dias 1
- Considere suplementação de vitamina D e cálcio durante a fase de cicatrização óssea, conforme diretrizes nacionais para pessoas em risco de deficiência 1
Terapias Farmacológicas
Não utilize os seguintes medicamentos para tratamento do pé de Charcot ativo, pois não demonstraram benefício clínico significativo: 1
- Alendronato, pamidronato, zoledronato (bisfosfonatos)
- Calcitonina
- Paratormônio (PTH)
- Metilprednisolona
- Denosumabe
Embora esses agentes reduzam marcadores de remodelação óssea, não demonstraram efeito significativo na redução de temperatura ou tempo de remissão 3
Monitoramento da Remissão
Para determinar quando a fase ativa está em remissão, considere todos os três critérios em conjunto: 1
- Medição seriada de temperatura - diferença de temperatura entre os membros reduzindo progressivamente 1, 2
- Avaliação clínica do edema - não use edema isoladamente como critério 1
- Imagens de controle - radiografias e/ou ressonância magnética confirmando cicatrização óssea 2, 4
A frequência das consultas deve considerar flutuação do volume de edema, comorbidades, riscos associados ao tratamento e progresso individual 1
Indicações Cirúrgicas
Considere intervenção cirúrgica quando houver: 1
- Instabilidade articular do pé e tornozelo
- Deformidade com alto risco de desenvolver úlcera no dispositivo de descarga
- Dor que não pode ser estabilizada adequadamente em gesso de contato total ou dispositivo não removível
Prevenção de Reativação (Após Remissão)
Após atingir remissão, forneça imediatamente: 1, 2, 4
- Calçados e/ou órteses customizados que acomodem e suportem a forma do pé para prevenir reativação
- Dispositivos customizados abaixo do joelho quando houver deformidade e/ou instabilidade articular, para otimizar distribuição de pressão plantar 1
Armadilhas Comuns a Evitar
- Atraso no início da imobilização - aguardar confirmação radiográfica antes de iniciar descarga leva à progressão da deformidade 1, 2
- Uso de dispositivos inadequados - dispositivos abaixo do tornozelo não imobilizam adequadamente 1, 2
- Má aderência com dispositivos removíveis - compromete o tratamento significativamente 1, 2
- Transição prematura para calçados definitivos sem confirmar remissão completa pelos três critérios 1
- Complicações cutâneas - úlceras ou bolhas podem ocorrer em até 14% dos pacientes com gessos mal aplicados 2
- Falha no acompanhamento após remissão - aumenta risco de reativação e ulceração 1, 4