Tratamento da Multirradiculopatia
Abordagem Inicial Conservadora
O tratamento conservador deve ser a primeira linha de abordagem para multirradiculopatia, com 75-90% dos pacientes alcançando melhora sintomática dentro de 4-8 semanas. 1
Manejo Não-Cirúrgico Estruturado
Fase Aguda (0-6 semanas): O foco deve ser em educação do paciente, terapia manipulativa espinhal, exercícios específicos de abertura foraminal e posições sustentadas de alívio da dor. 2
Fase Subaguda (6-12 semanas): Adicionar atividade física individualizada progressiva incluindo controle motor supervisionado, exercícios específicos e mobilização neurodinâmica. 2
Fase Crônica (>12 semanas): O foco deve mudar para exercícios aeróbicos gerais, treinamento de força focado, educação postural e avaliação ergonômica vocacional. 2
Medicamentos anti-inflamatórios e analgésicos tópicos são recomendados para manejo da dor durante todas as fases. 1
Fisioterapia demonstra melhora clínica estatisticamente significativa, com resultados comparáveis às intervenções cirúrgicas aos 12 meses, embora a cirurgia possa proporcionar alívio mais rápido (dentro de 3-4 meses). 3, 1
Duração Mínima do Tratamento Conservador
Um mínimo de 6 semanas de terapia conservadora estruturada é obrigatório antes de considerar intervenção cirúrgica, incluindo fisioterapia, medicamentos anti-inflamatórios, modificação de atividades e possível imobilização com colar cervical. 3
A imagem por ressonância magnética (RM) não é recomendada no nível de atenção primária para dor espinhal sem sinais de alerta ("red flags"), pois é muito sensível mas não específica o suficiente, podendo levar a aumento desnecessário da utilização de cuidados de saúde. 4
Indicações para Intervenção Cirúrgica
A cirurgia é apropriada quando há sintomas persistentes apesar de 6+ semanas de tratamento conservador abrangente, déficit funcional significativo, déficits neurológicos progressivos, ou estenose foraminal moderada a grave com correlação clínica na RM. 1
Critérios Específicos para Cirurgia
Correlação clínica obrigatória: Deve haver correlação entre os achados de imagem (estenose moderada a grave) e os sintomas clínicos (fraqueza motora documentada, perda sensorial dermatomal, alterações de reflexos). 3
Impacto funcional: Sintomas significativos que impactam atividades diárias ou sono, com achados objetivos que correlacionam com a imagem. 3
Déficits neurológicos progressivos: Fraqueza motora progressiva ou perda sensorial que não responde ao tratamento conservador. 3
Armadilha Crítica a Evitar
Nunca realizar cirurgia prematuramente: A taxa de sucesso de 75-90% com manejo conservador exige um período adequado de tratamento não-cirúrgico antes da cirurgia. 3
Incompatibilidade anatômica: Garantir que os sintomas correlacionem com a patologia cervical ou lombar identificada, não com patologia em outro nível da coluna. 3
Opções Cirúrgicas
Para Radiculopatia Cervical Multinível
Descompressão e fusão cervical anterior (ACDF) é a abordagem preferida para doença multinível, proporcionando alívio rápido (dentro de 3-4 meses) da dor no braço/pescoço, fraqueza e perda sensorial, com taxa de sucesso de 80-90% para alívio da dor no braço. 3, 1
Placas cervicais anteriores (instrumentação) são recomendadas para doença de 2 níveis, reduzindo o risco de pseudoartrose de 4,8% para 0,7% e melhorando as taxas de fusão de 72% para 91%. 3
A recuperação da função motora ocorre em 92,9% dos pacientes, com melhorias de longo prazo mantidas ao longo de 12 meses, incluindo extensão do punho, extensão do cotovelo e abdução do ombro. 3
Para Radiculopatia Lombar Multinível
A cirurgia requer sinais ou sintomas de compressão neural, imagem avançada mostrando estenose moderada a grave ou compressão nervosa, falha de no mínimo 6 semanas de terapia conservadora, e atividades de vida diária limitadas pelos sintomas. 1
Em casos raros de nódulo de Schmorl com multirradiculopatia, a remoção cirúrgica da massa herniada proximal do corpo vertebral pode ser necessária quando há compressão nervosa significativa. 5
Laminoforaminotomia Posterior
Indicada para: Deslocamento lateral de disco cervical mole, espondilose cervical com estreitamento do recesso lateral, e pacientes que preferem preservação de movimento sem os riscos da abordagem anterior. 3
Taxa de sucesso de 78-95,5% de resultados bons a excelentes, particularmente eficaz para hérnia de disco lateral mole ou estenose foraminal. 1
Vantagem: Preservação de movimento e evitação dos riscos da abordagem anterior. 3
Armadilha Crítica: Laminectomia Isolada
- Laminectomia isolada está associada a deterioração neurológica tardia (taxa de 29-37%) e deformidade progressiva, tornando a ACDF uma opção mais favorável para resultados de longo prazo. 3
Avaliação Diagnóstica Pré-Operatória
RM é o padrão-ouro para confirmar compressão de raiz nervosa tanto na radiculopatia cervical quanto lombar. 1
TC fornece informação complementar para avaliar causas ósseas de compressão (osteófitos, hipertrofia facetária). 1
Radiografias em flexão-extensão são obrigatórias para definitivamente descartar instabilidade segmentar antes de prosseguir com artroplastia ou para identificar movimento segmentar importante no manejo cirúrgico de espondilolistese. 4, 3
Os achados de RM devem sempre ser correlacionados com sintomas clínicos, pois falsos positivos e falsos negativos são comuns. 3
Considerações Especiais
Quando Suspeitar de Outras Causas
- Em pacientes com dor radicular aguda onde a compressão radicular foi descartada por técnicas de imagem, considerar esclerose múltipla como diagnóstico diferencial, especialmente em pacientes jovens (18-40 anos) com radiculopatias recorrentes ou sintomas paroxísticos. 6
Resultados Cirúrgicos em Ensaio Clínico Recente (2025)
Para hérnia de disco cervical, a cirurgia mostrou diferença estatisticamente significativa no Índice de Incapacidade do Pescoço (NDI) aos 12 meses (diferença média de 7,4 pontos) em favor do tratamento cirúrgico versus não-cirúrgico. 7
Para espondilose cervical, não houve diferença significativa no NDI aos 12 meses entre tratamento cirúrgico e não-cirúrgico (diferença média de 2,3 pontos). 7
Implicação clínica: A cirurgia pode ser mais benéfica para hérnia de disco do que para espondilose pura em termos de incapacidade funcional aos 12 meses. 7
Algoritmo de Decisão Clínica
Avaliar presença de "red flags" (déficits neurológicos graves, síndrome da cauda equina, infecção, tumor, fratura) - se presente, imagem imediata e referência urgente. 4
Se sem "red flags": Iniciar tratamento conservador estruturado por no mínimo 6 semanas com fisioterapia, anti-inflamatórios e modificação de atividades. 3, 1
Aos 6 semanas: Reavaliar sintomas e função. Se melhora de 75-90%, continuar manejo conservador. 1
Se sintomas persistentes ou progressivos após 6 semanas: Solicitar RM para candidatos cirúrgicos ou se incerteza diagnóstica permanece. 4
Confirmar correlação clínico-radiológica: Os achados de imagem devem corresponder aos sintomas clínicos (dermátomo, miótomo, reflexos). 3
Se estenose moderada a grave com correlação clínica: Considerar ACDF para cervical ou descompressão lombar apropriada, com instrumentação para doença multinível. 3, 1
Expectativas realistas: Melhorias de força são mantidas ao longo de 12 meses, mas podem não alcançar 100% de retorno à linha de base. 3