Uso do Bisturi Elétrico: Modo Corte vs. Modo Blend 2 e Risco de Sangramento Tardio
O uso do bisturi elétrico no modo corte puro aumenta significativamente o risco de sangramento tardio em comparação ao modo blend 2, e deve ser evitado em procedimentos endoscópicos e cirúrgicos onde o sangramento tardio é uma preocupação.
Recomendações Baseadas em Diretrizes
Risco Aumentado com Modo Corte Puro
A American Gastroenterological Association recomenda o uso de modo blend que combina propriedades de corte e coagulação para incisão adequada e hemostasia, sendo considerada a opção mais segura para a maioria dos procedimentos endoscópicos 1
O modo corte puro com alta voltagem (>200V) e alto ciclo de trabalho (>50%) cria arcos elétricos que causam explosão celular superficial, resultando em corte, mas possui propriedades hemostáticas pobres e risco aumentado de sangramento imediato (OR=6,95 para sangramento pós-polipectomia) 1
A American College of Cardiology recomenda evitar o modo corte puro em procedimentos endoscópicos devido à sua associação com maior risco de sangramento tanto imediato quanto tardio 1
Evidência Específica sobre Sangramento Tardio
A redução no risco de sangramento precoce pós-polipectomia pode ser alcançada pelo uso de correntes eletrocirúrgicas blended, ao invés de correntes de corte puro no laço de polipectomia 2
Paradoxalmente, a frequência de sangramento tardio pós-polipectomia está aumentando, possivelmente devido ao uso crescente de corrente blended (ao invés de coagulação pura) 2, 3
O sangramento tardio pode ocorrer até 15-30 dias após o procedimento, provavelmente como resultado do desprendimento da escara no local da polipectomia 2, 3
Mecanismo Fisiopatológico
Propriedades do Modo Corte
O modo corte com alta voltagem causa vaporização rápida do tecido com mínima coagulação lateral, resultando em hemostasia inadequada dos vasos sanguíneos 1
A falta de coagulação adequada no momento do procedimento deixa vasos expostos que podem sangrar tardiamente quando a escara se desprende 2
Propriedades do Modo Blend
O modo blend combina períodos de corte com períodos de coagulação, proporcionando tanto capacidade de incisão quanto hemostasia adequada 1
O modo coagulação com menor voltagem (<200V) ou menor ciclo de trabalho (<10%) aquece o tecido sem vaporização significativa, causando mais dano térmico mas com melhores propriedades hemostáticas 1
Recomendações Específicas por Procedimento
Polipectomia Endoscópica
A European Society of Gastrointestinal Endoscopy recomenda usar o modo Endocut Q (efeito 2-3, duração 1, intervalo 3) para cortar o pólipo, e modo Forced Coag (efeito 2, 60W) para pré-coagulação do pedículo antes do corte 1
O uso de modo corte puro deve ser evitado, especialmente em pólipos maiores que 10mm, que já possuem risco aumentado de sangramento (OR ajustado: 4,5) 1
Considerações em Pacientes de Alto Risco
Em pacientes em terapia antitrombótica, a escolha do modo elétrico torna-se ainda mais crítica, e o uso de modo blend ou modo automático (Endocut) é especialmente importante nesta população de alto risco 1
Técnicas hemostáticas profiláticas adicionais (clipes, coagulação com plasma de argônio) devem ser consideradas em pacientes anticoagulados 1
Armadilhas Comuns a Evitar
Uso Prolongado de Corrente de Coagulação Pura
A American Heart Association recomenda evitar o uso prolongado de corrente de coagulação pura devido ao risco de perfuração tardia, especialmente no cólon direito com paredes mais finas 1, 4
A American Gastroenterological Association observa que corrente de coagulação pura pode criar úlceras mais profundas e aumentar o risco de sangramento tardio 3
Configurações de Potência Excessivas
O uso de configurações de potência excessivamente altas aumenta o dano térmico e a formação de carbonização 1
Estudos em modelos suínos demonstraram menor profundidade de dano tecidual ao usar corrente blended em comparação com coagulação pura (p=0,0157) 4
Algoritmo de Decisão Clínica
Para procedimentos endoscópicos com risco de sangramento tardio:
Primeira escolha: Modo blend 2 ou Endocut Q para balancear corte e hemostasia 1
Evitar: Modo corte puro devido ao risco aumentado de sangramento tardio 1
Em pólipos grandes (≥10mm): Considerar pré-coagulação do pedículo antes do corte 1
Em pacientes anticoagulados: Usar obrigatoriamente modo blend ou automático + considerar técnicas hemostáticas profiláticas 1
Monitoramento: Orientar paciente sobre risco de sangramento tardio até 15-30 dias pós-procedimento 2, 3