Psicofármacos na Demência Frontotemporal
Para sintomas comportamentais na demência frontotemporal, os ISRSs (especialmente sertralina ou citalopram) são o tratamento farmacológico de primeira linha, reservando antipsicóticos atípicos (principalmente quetiapina) apenas para comportamentos graves que representem risco de segurança após falha das intervenções não farmacológicas e dos ISRSs. 1, 2, 3
Abordagem Terapêutica Estruturada
Etapa 1: Intervenções Não Farmacológicas (Sempre Primeiro)
Antes de qualquer medicação, implemente sistematicamente abordagens comportamentais:
- Investigar causas reversíveis: dor, infecções (ITU, pneumonia), constipação, retenção urinária, desidratação e efeitos colaterais de medicamentos 4, 5
- Modificações ambientais: iluminação adequada, redução de ruído, rotinas estruturadas e previsíveis, remoção de objetos perigosos 4, 5
- Estratégias de comunicação: tons calmos, comandos simples de uma etapa, tempo adequado para processamento de informações 4, 5
- Educação do cuidador: explicar que os comportamentos são sintomas da doença, não ações intencionais 4
Etapa 2: Tratamento Farmacológico de Primeira Linha - ISRSs
Quando usar: Para agitação crônica, impulsividade, rigidez de pensamento, queixas somáticas perseverativas, hiperfagia e perda de empatia 2, 3
Opções preferenciais:
- Sertralina: iniciar 25-50 mg/dia, máximo 200 mg/dia - bem tolerada com menos interações medicamentosas 4, 6, 2
- Citalopram: iniciar 10 mg/dia, máximo 40 mg/dia - bem tolerado, alguns pacientes apresentam náusea e distúrbios do sono 4, 6, 2
Monitoramento: Avaliar resposta em 4 semanas usando medidas quantitativas; se não houver benefício clínico significativo, reduzir gradualmente e descontinuar 4, 6
Etapa 3: Tratamento de Segunda Linha - Antipsicóticos Atípicos
Quando usar: APENAS para comportamentos graves que representem risco de segurança (agressão física/verbal, autolesão, delírios obsessivos) após falha de ISRSs e intervenções comportamentais 1, 2, 7
Quetiapina é o antipsicótico preferido para DFT segundo consenso de especialistas europeus 2:
- Iniciar 12,5 mg duas vezes ao dia
- Máximo 200 mg duas vezes ao dia
- Mais sedativo, risco de hipotensão ortostática 4, 2
Alternativas:
- Risperidona: 0,25 mg ao deitar, alvo 0,5-1,25 mg/dia, máximo 2 mg/dia - risco de sintomas extrapiramidais acima de 2 mg/dia 4, 6
- Olanzapina: 2,5 mg ao deitar, máximo 10 mg/dia - menos eficaz em pacientes >75 anos 4, 6
AVISO CRÍTICO: Todos os antipsicóticos aumentam o risco de mortalidade (1,6-1,7 vezes maior que placebo), eventos cardiovasculares, quedas e prolongamento do QT em idosos com demência 4, 1, 7. Discutir esses riscos com o paciente/responsável antes de iniciar 4, 6
Etapa 4: Medicações Adjuvantes para Sintomas Específicos
Trazodona (25-400 mg/dia em doses divididas):
- Indicada para inquietação motora e agitação noturna 2, 3
- Usar com cautela em pacientes com contrações ventriculares prematuras devido ao risco de hipotensão ortostática 4
Mirtazapina:
- Recomendada especificamente para inquietação noturna 2
Metilfenidato ou bupropiona:
- Podem ser considerados para apatia grave 2, 3
- IMPORTANTE: Bupropiona foi fortemente contraindicada em 10 de 14 sintomas comportamentais no consenso de especialistas - evitar na maioria dos casos 2
O Que NÃO Usar na DFT
- Inibidores da colinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina): Sem efeitos positivos consistentes na DFT, podem piorar sintomas comportamentais 1, 3, 7
- Memantina: Sem benefício demonstrado na DFT 1, 3, 7
- Benzodiazepínicos: Risco de tolerância, dependência, comprometimento cognitivo e agitação paradoxal em 10% dos idosos 4
- Antipsicóticos típicos (haloperidol): Risco de 50% de discinesia tardia após 2 anos de uso contínuo em idosos 4
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não iniciar antipsicóticos sem tentativa adequada de ISRSs: A evidência favorece ISRSs como primeira linha farmacológica 1, 2, 3
- Não continuar medicações indefinidamente: Reavaliar necessidade a cada visita, reduzir gradualmente se não houver mais indicação 4, 6
- Não usar antipsicóticos para agitação leve: Reservar apenas para sintomas graves e perigosos 4, 6
- Não ignorar causas médicas reversíveis: Dor, infecções e desconforto são gatilhos principais de comportamentos problemáticos 4, 5
Monitoramento Essencial
Para qualquer medicação psicotrópica na DFT:
- Sintomas extrapiramidais (tremor, rigidez, bradicinesia) - especialmente com antipsicóticos 4, 1
- Risco de quedas e hipotensão ortostática 4, 6
- Alterações metabólicas (peso, glicemia, lipídios) com antipsicóticos 4, 6
- Prolongamento do QT - considerar ECG com antipsicóticos 4
- Piora cognitiva ou sedação excessiva 6, 5
- Reavaliação diária da necessidade contínua quando usar antipsicóticos 4
Nuances Específicas da DFT
A DFT difere da doença de Alzheimer em aspectos críticos que afetam o tratamento:
- Apresentação mais jovem (início precoce) requer consideração de impacto funcional e ocupacional 1
- Sintomas comportamentais são primários, não secundários - desinibição, comportamento socialmente inadequado, perda de empatia, embotamento afetivo e hiperalimentação 1
- Heterogeneidade patológica (tau, TDP-43, FUS) pode influenciar resposta ao tratamento 1
- Sobreposição com parkinsonismo atípico (PSP, CBS) - geralmente não responsivo à levodopa 7