Exacerbação Aguda da Doença Pulmonar Intersticial: Workup Diagnóstico e Tratamento
Definição e Critérios Diagnósticos
A exacerbação aguda da DPI é diagnosticada quando há piora respiratória aguda (<30 dias) com novas opacidades pulmonares na TC, após exclusão de causas secundárias como infecção, embolia pulmonar e insuficiência cardíaca esquerda. 1
Critérios Diagnósticos Obrigatórios:
- Piora aguda da dispneia em menos de 30 dias 1, 2
- Novas opacidades em vidro fosco bilaterais na TCAR, sobrepostas ao padrão de DPI pré-existente 1
- Piora da hipoxemia (queda ≥10 mmHg na PaO2) 1
- Exclusão obrigatória de causas secundárias: infecção, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca esquerda, sobrecarga volêmica 1, 2, 3
Workup Diagnóstico Estruturado
Etapa 1: Avaliação Clínica Inicial
- Confirme a piora aguda dos sintomas respiratórios em período <30 dias 1
- Documente febre (se presente, sugere fortemente infecção ou causa alternativa, não exacerbação primária) 4
- Avalie sinais de insuficiência cardíaca direita (edema periférico, turgência jugular, hepatomegalia) 1, 4
- Identifique fatores desencadeantes: infecção recente, aspiração, estresse mecânico (procedimentos, ventilação mecânica), uso de DMARDs 2, 3
Etapa 2: Exames Laboratoriais
- Hemograma completo com diferencial (leucocitose sugere infecção) 4
- Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação (elevação acentuada sugere infecção ou atividade de doença do tecido conjuntivo) 4
- Procalcitonina (se disponível, para avaliar infecção bacteriana) 5
- BNP ou NT-proBNP (para excluir insuficiência cardíaca esquerda) 5
- Gasometria arterial (documentar piora da hipoxemia ≥10 mmHg) 1
Etapa 3: Imagem
- TCAR de tórax é obrigatória: procure novas opacidades em vidro fosco bilaterais sobrepostas ao padrão de fibrose pré-existente 1
- O padrão típico mostra opacidades em vidro fosco difusas bilaterais sobre o padrão de pneumonia intersticial usual (PIU) de base 1
- Exclua consolidações que sugiram pneumonia bacteriana 1
- Considere angiotomografia se houver suspeita de embolia pulmonar 1, 5
Etapa 4: Investigação de Causas Secundárias (Obrigatória)
Infecção:
- Culturas de escarro e hemocultura 1, 5
- Painel viral respiratório (PCR para vírus respiratórios) 2, 3
- Considere broncoscopia com lavado broncoalveolar para culturas bacterianas, fúngicas, virais e análise celular 1, 5
- Antígenos urinários para Legionella e Pneumococcus 5
Embolia Pulmonar:
- D-dímero (se negativo, exclui embolia pulmonar em pacientes de baixo risco) 5
- Angiotomografia de tórax se D-dímero elevado ou alta suspeita clínica 1, 5
Insuficiência Cardíaca:
- BNP/NT-proBNP 5
- Ecocardiograma transtorácico para avaliar função ventricular esquerda e pressões de enchimento 5
Etapa 5: Broncoscopia com Lavado Broncoalveolar (Seletiva)
- Indicações: quando infecção não pode ser excluída clinicamente ou quando o diagnóstico de DPI subjacente não está estabelecido 1, 5
- Análise celular diferencial: neutrofilia >50% sugere lesão pulmonar aguda; eosinofilia >25% sugere pneumonia eosinofílica 1
- Culturas bacterianas, fúngicas, virais e micobacterianas 5
- Contraindicação relativa: hipoxemia grave refratária (risco de piora durante o procedimento) 5
Etapa 6: Biópsia Pulmonar (Raramente Indicada)
- Biópsia cirúrgica videoassistida é geralmente contraindicada na exacerbação aguda devido ao alto risco de mortalidade 1
- Considere apenas se o diagnóstico de DPI subjacente não estiver estabelecido e o paciente estiver estável o suficiente 1
Tratamento da Exacerbação Aguda
Tratamento de Primeira Linha
Corticosteroides em altas doses são o tratamento padrão, apesar da ausência de ensaios controlados. 1
Esquema Recomendado:
- Metilprednisolona 500-1000 mg IV por 3 dias, seguida de prednisona 0,5-1 mg/kg/dia VO com desmame gradual 1, 3
- Duração total: 4-12 semanas com desmame progressivo 3
Terapia Adjuvante
Antibióticos de amplo espectro:
- Devem ser iniciados empiricamente quando infecção não pode ser definitivamente excluída 1, 5
- Cobertura para patógenos típicos e atípicos (ex: piperacilina-tazobactam + azitromicina ou fluoroquinolona respiratória) 5
- Descontinue se culturas negativas e melhora clínica 1
Imunossupressores:
- Ciclofosfamida IV (500-1000 mg/m² mensal) pode ser considerada, com benefício sugerido em séries de casos 1, 3
- Ciclosporina A foi utilizada, mas sem resultados convincentes 1
- Para DPI associada a doença do tecido conjuntivo: considere rituximabe, micofenolato ou tocilizumabe conforme a doença de base 4, 3
Anticoagulação:
- Heparina de baixo peso molecular profilática para prevenção de tromboembolismo venoso 1, 5
- Anticoagulação terapêutica NÃO é recomendada rotineiramente (estudo com varfarina foi interrompido precocemente por aumento de mortalidade em FPI) 1
- Use anticoagulação terapêutica apenas se embolia pulmonar confirmada 1
Suporte Respiratório
Oxigenoterapia:
- Suplementação de oxigênio para manter SpO2 ≥88% 6, 5
- Oxigênio de alto fluxo nasal pode ser considerado antes da ventilação não invasiva em hipoxemia moderada a grave 5
Ventilação Não Invasiva (VNI):
- VNI pode ser tentada em pacientes selecionados com insuficiência respiratória menos grave, mas não melhora a mortalidade geral 1, 5
- Identifique precocemente os respondedores à VNI (melhora nas primeiras 1-2 horas) 5
- Descontinue rapidamente se não houver resposta, pois atrasa cuidados paliativos 5
Ventilação Mecânica Invasiva (VMI):
- VMI está associada a mortalidade muito elevada (>90%) em DPI fibrosante avançada e NÃO é recomendada 1, 5
- Exceções (considere VMI apenas nestes cenários): 1, 5
- Paciente listado para transplante pulmonar urgente como ponte
- Exacerbação como primeira manifestação de DPI (diagnóstico não estabelecido previamente)
- Causa reversível identificada (ex: pneumonia bacteriana tratável)
- Infecção aguda sobreposta em DPI leve a moderada
ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea):
Transplante Pulmonar
- Avalie urgentemente para transplante pulmonar de emergência em pacientes <65 anos previamente listados ou elegíveis 1, 7
- Contate o centro de transplante imediatamente na admissão 1
Cuidados Paliativos
Inicie discussão sobre cuidados paliativos precocemente em TODOS os pacientes com exacerbação aguda de DPI, dada a mortalidade elevada (50-90% em 6 meses). 1, 2, 7
- Discuta objetivos de cuidado, preferências sobre ventilação mecânica e ressuscitação 1, 7
- Controle de dispneia com opioides (morfina) e benzodiazepínicos 7
- Envolva equipe de cuidados paliativos precocemente 7
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não diagnostique exacerbação aguda sem excluir rigorosamente infecção, embolia pulmonar e insuficiência cardíaca 1, 2
- Não realize biópsia pulmonar cirúrgica na exacerbação aguda (mortalidade proibitiva) 1
- Não inicie VMI sem discussão prévia sobre objetivos de cuidado e prognóstico 1, 7
- Não atrase cuidados paliativos em pacientes com DPI avançada e exacerbação aguda 7
- Não use anticoagulação oral de rotina (associada a aumento de mortalidade em FPI) 1
- Não confie apenas em radiografia de tórax; TCAR é obrigatória 4, 5