Não, o diagnóstico de autismo NÃO exclui TDAH e vice-versa
A proibição histórica de fazer um diagnóstico adicional de TDAH em pessoas com TEA foi removida no DSM-5, e as diretrizes atuais recomendam explicitamente a triagem para ambas as condições, pois aproximadamente 50% das pessoas com TEA também preenchem critérios diagnósticos para TDAH. 1
Mudança Fundamental nas Diretrizes Diagnósticas
A Academia Americana de Psiquiatria Infantil e do Adolescente estabelece claramente que a exclusão mútua entre TEA e TDAH foi eliminada 1. Esta mudança reflete o reconhecimento de que:
- Aproximadamente metade das crianças com TEA também apresenta sintomas que preenchem critérios para TDAH 2
- As dificuldades atencionais são frequentes no autismo, refletindo problemas cognitivos, de linguagem e sociais 1
- A comorbidade entre TEA e TDAH resulta em maior comprometimento funcional, com déficits significativos no processamento social, funcionamento adaptativo e controle executivo 2
Recomendações Obrigatórias de Triagem
Para Avaliação de TDAH:
A Academia Americana de Pediatria recomenda explicitamente (Recomendação Forte, Grau B) que o transtorno do espectro autista deve ser rastreado ao avaliar qualquer criança para TDAH 1, 3. Esta triagem é mandatória, não opcional 3.
Para Avaliação de TEA:
A Academia Americana de Pediatria recomenda triagem para sintomas de TDAH em toda criança com TEA, pois desatenção, impulsividade e hiperatividade estão entre os sintomas associados mais frequentes 4, 3. Mais de 90% dos indivíduos com autismo têm pelo menos uma condição médica ou de saúde mental comórbida 1.
Diferenciação Clínica Essencial
Embora os diagnósticos possam coexistir, existem características distintivas importantes:
Características do TEA (ausentes no TDAH puro):
- Déficits fundamentais em atenção compartilhada, comunicação não-verbal e reciprocidade social 4
- Falha em responder ao nome aos 12 meses (86% de especificidade para TEA) 4
- Comportamentos repetitivos que servem funções autorregulatórias e são ego-sintônicos, aumentando com estresse ou excitação 4
- Uso do corpo de outros como ferramentas (ex: mover a mão do pai para abrir uma porta) 4
Características do TDAH (qualitativamente diferentes):
- Comportamentos repetitivos impulsionados por impulsividade e hiperatividade, não autorregulação 4
- Inquietação, dificuldade em permanecer sentado, fala excessiva 4
- Início dos sintomas antes dos 12 anos, presença em múltiplos ambientes 4
Implicações para o Tratamento
A presença de TEA comórbido altera a abordagem de tratamento para TDAH 3. Estudos demonstram que:
- O metilfenidato mostrou 49% de taxa de resposta em crianças com TEA e escores elevados de hiperatividade em um grande ensaio clínico randomizado 1
- Os efeitos dos medicamentos para TDAH não são tão grandes quanto aqueles observados no tratamento de TDAH primário, e são menos bem tolerados na população com TEA 2
- Medicamentos como metilfenidato, atomoxetina e guanfacina demonstraram eficácia no tratamento de sintomas de TDAH coocorrentes com TEA 2
Armadilhas Diagnósticas Comuns
A Academia Americana de Psiquiatria Infantil e do Adolescente alerta contra o "sombreamento diagnóstico" (diagnostic overshadowing), onde condições comórbidas são perdidas devido à presença de uma condição mais notável 1, 4. Este fenômeno pode levar à falha em diagnosticar TDAH em crianças com TEA ou vice-versa.
Triagem Adicional Necessária
Para ambas as condições, é necessário rastrear 4, 3:
- Transtornos de ansiedade e depressão (especialmente em adolescentes)
- Deficiências de aprendizagem e transtornos de linguagem
- Transtornos do sono
- Transtorno desafiador de oposição e transtornos de conduta
- Transtornos de tiques
Algoritmo de Avaliação
- Obter informações de múltiplas fontes (pais, professores, profissionais de saúde mental) para documentar sintomas em mais de um ambiente 1, 3
- Utilizar ferramentas padronizadas como ADOS e ADI-R para observação direta de comportamentos sociais-comunicativos 4
- Aplicar M-CHAT aos 24 meses para triagem de TEA 4
- Estabelecer linha do tempo do desenvolvimento, incluindo início dos sintomas antes dos 12 anos para TDAH 4
- Avaliar presença de déficits em atenção compartilhada, gestos convencionais e reciprocidade social para TEA 4
A comorbidade entre TEA e TDAH é a regra, não a exceção, e ambas as condições devem ser diagnosticadas e tratadas quando os critérios são preenchidos 1, 3.