Cuidados e Complicações da Raquianestesia
Técnica Asséptica Rigorosa
A técnica asséptica deve sempre ser utilizada durante a preparação do equipamento e a colocação de agulhas e cateteres neuraxiais, incluindo remoção de joias, lavagem das mãos, uso de gorros, máscaras (cobrindo boca e nariz), luvas estéreis, preparação da pele com clorexidina (preferencialmente com álcool) com tempo adequado de secagem, campos estéreis no paciente e curativos oclusivos estéreis no local de inserção do cateter. 1
- A punção lombar deve ser evitada em pacientes com abscesso epidural conhecido 1
- Utilize pacotes individuais de antissépticos para preparação da pele 1
- Limite a desconexão e reconexão dos sistemas de administração neuraxial para minimizar o risco de complicações infecciosas 1
- Considere remover cateteres acidentalmente desconectados sem testemunhas 1
- Os cateteres não devem permanecer in situ por mais tempo do que clinicamente necessário 1
Monitorização de Complicações Infecciosas
A avaliação periódica dos pacientes para sinais e sintomas (febre, cefaleia, dor nas costas, eritema e sensibilidade no local de inserção) é essencial para identificação precoce de complicações infecciosas, devendo ser realizada pelo menos uma vez por dia. 1
- Se houver suspeita de infecção, o cateter in situ deve ser imediatamente removido 1
- Exames de sangue (contagem de leucócitos, velocidade de hemossedimentação e proteína C-reativa) devem ser solicitados se houver suspeita de infecção 1
- Se houver suspeita de abscesso ou déficit neurológico, estudos de imagem (ressonância magnética, tomografia computadorizada ou mielografia) devem ser realizados 1
- A terapia antibiótica apropriada deve sempre ser administrada ao primeiro sinal ou sintoma de infecção grave 1
- Um especialista ou médico com experiência no diagnóstico e tratamento de doenças infecciosas deve ser consultado ao primeiro sinal de infecção grave 1
Prevenção e Manejo da Hipotensão
A hipotensão é a complicação mais frequente da raquianestesia, sendo uma consequência fisiológica do bloqueio simpático. 2, 3
Fatores de Risco para Hipotensão
A hipotensão se desenvolve em aproximadamente 33% dos pacientes submetidos à raquianestesia 3. Os fatores que conferem maior risco incluem:
- Altura do bloqueio ≥T5 (razão de chances 3,8) 3
- Idade ≥40 anos (razão de chances 2,5) 3
- Pressão arterial sistólica basal <120 mmHg (razão de chances 2,4) 3
- Punção espinhal em ou acima do espaço L2-L3 (razão de chances 1,8) 3
- Frequência cardíaca basal mais alta pode ser preditiva de hipotensão pós-raquianestesia em pacientes obstétricas, possivelmente refletindo maior tono simpático 4
Estratégias de Prevenção
- A pré-carga com fluidos intravenosos é considerada um método seguro e eficaz para prevenir hipotensão após raquianestesia 5
- Para cesariana, pode-se utilizar 10 ml/kg de tetrastarch HES 130/0,4,10 ml/kg de gelatina succinilada ou 20 ml/kg de Ringer lactato 5
- O HES demonstrou menor necessidade de vasopressor intraoperatório, embora o Ringer lactato seja eficaz, fisiológico e amplamente disponível 5
Tratamento da Hipotensão
Vasopressores como fenilefrina ou efedrina devem ser utilizados para tratar hipotensão quando a pressão arterial sistólica cai abaixo de 90 mmHg. 6, 5
- Efedrina: dose de 5-10 mg IV conforme necessário, não excedendo 50 mg 6
- A efedrina deve ser diluída antes da administração como dose em bolus intravenoso 6
- Cuidado especial: hipertensão pós-parto grave foi descrita em pacientes que receberam vasopressor (efedrina, fenilefrina) e ocitócico (metilergonovina, ergonovina), com alguns casos resultando em acidente vascular cerebral 6
- Monitore cuidadosamente a pressão arterial de pacientes que receberam tanto efedrina quanto ocitócico 6
Prevenção de Bradicardia
A bradicardia (frequência cardíaca <50 bpm) ocorre em aproximadamente 13% dos pacientes 3. Os fatores de risco incluem:
- Frequência cardíaca basal <60 bpm (razão de chances 4,9) 3
- Terapia atual com betabloqueadores (razão de chances 2,9) 3
- Altura do bloqueio ≥T5 (razão de chances 1,7) 3
Manejo de Náuseas e Vômitos
Náuseas ocorrem em aproximadamente 18% e vômitos em 7% dos pacientes 3. Os fatores de risco incluem:
- Adição de fenilefrina ou epinefrina ao anestésico local (razão de chances 3,0-6,3) 3
- Altura do bloqueio ≥T5 (razão de chances 3,9) 3
- Desenvolvimento de hipotensão durante a raquianestesia (razão de chances 1,7) 3
- Evite o uso de procaína no espaço subaracnóideo, pois aumenta o risco (razão de chances 2,6-4) 3
Verificação da Função Neurológica
Vários relatos de casos indicam que a presença de déficits neurológicos (perda motora e sensorial, paraplegia) pode indicar a presença de complicação infecciosa. 1
- Verifique periodicamente a função neurológica dos pacientes 1
- Se houver déficit neurológico ou suspeita de abscesso, realize estudos de imagem imediatamente 1
- Colabore com cirurgião para determinar se intervenção cirúrgica ou drenagem percutânea é necessária 1
Cefaleia Pós-Punção Dural
Abordagens farmacológicas devem ser propostas antes de realizar um tampão sanguíneo epidural. 1
- Não há dados disponíveis para orientar o manejo da cefaleia pós-punção dural em pacientes com COVID-19, mas os princípios gerais se aplicam 1
- Se a cefaleia for grave e debilitante, um tampão sanguíneo epidural deve ser proposto, equilibrando o risco de complicações neurológicas associadas à cefaleia não tratada 1
Estratégias para Reduzir Complicações
A incidência de efeitos colaterais durante a raquianestesia pode ser reduzida minimizando a altura do bloqueio, usando soluções simples de anestésicos locais, realizando a punção espinhal em ou abaixo do espaço L3-L4 e evitando o uso de procaína no espaço subaracnóideo. 3
Armadilhas Comuns
- A administração repetida de efedrina pode resultar em taquifilaxia; esteja preparado com vasopressor alternativo 6
- Quando usada profilaticamente para prevenir hipotensão, a efedrina está associada a maior incidência de hipertensão comparada ao uso terapêutico 6
- A efedrina pode diminuir a eficácia do bloqueio epidural ao acelerar a regressão da analgesia sensorial 6
- Evite sedação excessiva, pois pode mascarar sinais neurológicos importantes 7
- Verifique sempre contraindicações padrão como coagulopatia ou anticoagulação 7