Abordagem Inicial do Paciente com Síncope
Todo paciente com síncope requer três componentes obrigatórios na avaliação inicial: história detalhada, exame físico com medidas de pressão arterial ortostática e ECG de 12 derivações—esta tríade sozinha estabelece o diagnóstico em 23-50% dos casos. 1, 2, 3
Componentes Essenciais da História Clínica
A história é o elemento mais importante da avaliação e deve focar em:
Circunstâncias do Evento
- Posição durante a síncope: supina sugere causa cardíaca (arritmia ou doença estrutural); em pé sugere síncope reflexa ou hipotensão ortostática 1, 2
- Atividade: síncope durante esforço é de alto risco e exige avaliação cardíaca imediata 1, 2
- Gatilhos: ambientes quentes/lotados, posição prolongada em pé, estresse emocional sugerem síncope vasovagal; micção, defecação, tosse sugerem síncope situacional 1, 2
Sintomas Premonitórios
- Presença de pródromos (náusea, diaforese, visão turva, tontura) favorece síncope vasovagal 1, 2
- Ausência de sintomas de alerta é característica de alto risco sugerindo causa cardíaca, particularmente arrítmica 1, 2
- Palpitações antes da síncope sugerem fortemente causa arrítmica 1, 2
Características do Evento
- Duração da inconsciência: breve com recuperação rápida e completa sem confusão confirma síncope verdadeira 1
- Relato de testemunhas: cor da pele, movimentos durante o evento ajudam a distinguir síncope de convulsão 1
Antecedentes Relevantes
- Doença cardíaca estrutural conhecida ou insuficiência cardíaca: sensibilidade de 95% para síncope cardíaca 1, 2
- História familiar de morte súbita cardíaca ou síndromes arrítmicas hereditárias 1, 2
- Medicações: anti-hipertensivos, diuréticos, vasodilatadores, drogas que prolongam QT 1, 2
Exame Físico Obrigatório
Sinais Vitais Ortostáticos
- Medidas em posições deitada, sentada e em pé: hipotensão ortostática definida como queda de PA sistólica ≥20 mmHg ou para <90 mmHg 1, 2, 3
Exame Cardiovascular Completo
- Avaliar frequência, ritmo, sopros, galopes ou atritos que possam indicar doença cardíaca estrutural 1, 2
Massagem do Seio Carotídeo
ECG de 12 Derivações
Procurar especificamente por:
- Prolongamento do intervalo QT (síndrome do QT longo) 1, 2
- Anormalidades de condução: bloqueios de ramo, bloqueio bifascicular, bradicardia sinusal, bloqueios AV de 2º ou 3º grau 1, 2
- Sinais de isquemia ou infarto prévio 1, 2
- Qualquer anormalidade no ECG é preditor independente de síncope cardíaca e aumento de mortalidade 1, 2
Estratificação de Risco Imediata
Características de Alto Risco (Requerem Internação Hospitalar)
- Idade >60-65 anos 1, 2
- Doença cardíaca isquêmica conhecida, doença estrutural ou insuficiência cardíaca 1, 2
- Síncope durante esforço ou em posição supina 1, 2
- Pródromo breve ou ausente 1, 2
- ECG anormal 1, 2
- História familiar de morte súbita cardíaca 1, 2
A mortalidade em um ano para síncope cardíaca é de 18-33% versus 3-4% para causas não cardíacas, enfatizando a necessidade de avaliação agressiva em pacientes de alto risco. 1, 2
Características de Baixo Risco (Manejo Ambulatorial Apropriado)
- Idade jovem 1, 2
- Sem doença cardíaca conhecida 1, 2
- ECG normal 1, 2
- Síncope apenas em pé 1, 2
- Presença de sintomas prodrômicos 1, 2
- Gatilhos situacionais específicos 1, 2
Testes Laboratoriais
Testes laboratoriais direcionados são razoáveis com base na avaliação clínica, mas testes laboratoriais abrangentes de rotina não são úteis. 1, 2
Considerar apenas se clinicamente indicado:
- Hemograma/hematócrito: se suspeita de perda de volume ou sangramento 1, 2
- Eletrólitos e função renal: se suspeita de desidratação 1, 2
- Biomarcadores cardíacos (BNP, troponina): se causa cardíaca é suspeitada, mas não devem ser solicitados rotineiramente 1, 2
Testes Adicionais Direcionados (Baseados na Avaliação Inicial)
Para Pacientes de Alto Risco
- Monitorização cardíaca contínua por telemetria: iniciar imediatamente para pacientes com ECG anormal, palpitações antes da síncope ou características de alto risco 1, 2
- Ecocardiografia transtorácica: quando doença cardíaca estrutural é suspeitada para avaliar doença valvar, cardiomiopatia ou função ventricular 1, 2
- Teste de esforço: obrigatório para síncope durante ou imediatamente após esforço 1, 2
Para Pacientes de Baixo Risco
- Teste de inclinação (tilt-table): pode confirmar síncope vasovagal em pacientes jovens sem doença cardíaca quando a história é sugestiva mas não diagnóstica 1, 2
Testes NÃO Recomendados Rotineiramente
- Neuroimagem (TC/RM cerebral): não recomendada na ausência de achados neurológicos focais ou trauma craniano; rendimento diagnóstico de apenas 0,24-1% 1, 2
- EEG: não recomendado rotineiramente; rendimento diagnóstico de apenas 0,7% 1, 2
- Ultrassom de carótidas: não recomendado rotineiramente; rendimento diagnóstico de apenas 0,5% 1, 2
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não solicitar painéis laboratoriais abrangentes para todos os pacientes com síncope sem indicações específicas 1, 2
- Não negligenciar efeitos de medicações como anti-hipertensivos ou drogas que prolongam QT como contribuintes para síncope 1, 2
- Não deixar de distinguir síncope verdadeira de causas não sincopais de perda transitória de consciência 1, 2
- Não ignorar hipotensão ortostática como causa potencial de síncope 1, 2
- Não solicitar neuroimagem cerebral sem indicações neurológicas específicas 1, 2
Decisão de Disposição
Pacientes com ≥1 condição médica grave são o principal determinante para manejo hospitalar contínuo, ao invés de escores de risco individuais. 1