Tratamento da Intoxicação Colinérgica
A atropina é o medicamento de primeira linha para intoxicação colinérgica, devendo ser administrada imediatamente em doses de 1-2 mg IV para adultos (0,02 mg/kg para crianças), dobrando a dose a cada 5 minutos até atingir atropinização completa, sempre em conjunto com pralidoxima e benzodiazepínicos. 1, 2
Protocolo de Tratamento Inicial
Descontaminação e Proteção
- Remova imediatamente todas as roupas contaminadas e realize irrigação copiosa com água e sabão para exposição dérmica 1
- Utilize equipamento de proteção individual (EPI) obrigatório ao manusear pacientes contaminados para prevenir intoxicação secundária dos profissionais de saúde 1
Administração de Atropina
Dosagem Inicial:
- Adultos: 1-2 mg IV como dose inicial 1, 2, 3
- Crianças: 0,02 mg/kg IV (dose mínima 0,1 mg, máxima única 0,5 mg) 1, 2
- Esta dose inicial é substancialmente maior que os 0,5-1,0 mg usados para bradicardia de outras causas 2
Protocolo de Escalada:
- Dobre a dose a cada 5 minutos até atingir os objetivos de atropinização 1, 2, 3
- Nunca interrompa a escalada devido à taquicardia - a taquicardia NÃO é contraindicação para continuar a administração de atropina 1
- Doses cumulativas podem atingir 10-20 mg nas primeiras 2-3 horas, com alguns pacientes necessitando até 50 mg em 24 horas 2
Objetivos de Atropinização (todos devem ser atingidos):
- Pulmões limpos à ausculta (ausência de broncoespasmo e broncorreia) 2
- Frequência cardíaca >80 bpm 2
- Pressão arterial sistólica >80 mmHg 2
- Pele e mucosas secas 2
- Midríase (dilatação pupilar) 2
Terapia de Manutenção:
- Administre 10-20% da dose total de ataque por hora, até 2 mg/h em adultos 2
- Prefira infusão contínua ao invés de bolus intermitentes 2
- Mantenha algum grau de atropinização por pelo menos 48 horas 3
Pralidoxima (Oxima)
A pralidoxima deve ser administrada precocemente em conjunto com atropina, pois reverte os efeitos nicotínicos que a atropina não consegue reverter. 1
Dosagem Intravenosa:
- Adultos: Dose inicial de 1-2 g IV, preferencialmente como infusão em 100 mL de solução salina durante 15-30 minutos 1, 3
- Se edema pulmonar estiver presente, administre lentamente durante pelo menos 5 minutos como solução de 50 mg/mL 3
- Crianças: Dose de ataque de 20-50 mg/kg (não exceder 2000 mg/dose) durante 15-30 minutos, seguida de infusão contínua de 10-20 mg/kg/hora 3
Doses Subsequentes:
- Segunda dose de 1-2 g pode ser indicada após cerca de 1 hora se a fraqueza muscular não foi aliviada 3
- Doses adicionais podem ser administradas a cada 10-12 horas se a fraqueza muscular persistir 3
- A American Heart Association recomenda pralidoxima com evidência Classe 2a, Nível A 1
Mecanismo e Timing:
- A pralidoxima reativa a acetilcolinesterase inibida por compostos organofosforados 1
- É mais eficaz quando administrada precocemente, antes do "envelhecimento" da enzima fosforilada 1
- Não deve ser retida quando a classe do veneno (organofosforado vs carbamato) é desconhecida 1
Benzodiazepínicos
- Administre benzodiazepínicos (diazepam ou midazolam) para tratar convulsões e agitação 1, 2
- Os benzodiazepínicos são essenciais para controlar os efeitos do SNC 4
Manejo das Vias Aéreas
- Intubação endotraqueal precoce é recomendada para intoxicação com risco de vida 1
- Dados observacionais sugerem melhores desfechos com intubação precoce em intoxicação significativa por organofosforados 1
- Evite bloqueadores neuromusculares metabolizados pela colinesterase (succinilcolina e mivacurônio) - eles não são recomendados para pacientes com intoxicação por organofosforados 1, 3
- A intubação nasal pode ser preferível à via oral devido à transpiração excessiva e quantidades avassaladoras de secreções orais e das vias aéreas que podem deslocar o tubo 4
Suporte Ventilatório:
- Use ventilação mandatória controlada por pressão com oxigênio a 100% e PEEP 4
- Aspire regularmente as vias aéreas, preferencialmente por meios estéreis 4
- Verifique repetidamente se o tubo endotraqueal está seguro e corretamente posicionado 4
Broncoespasmo Refratário:
- Se a atropina não controlar o broncoespasmo grave, use β-agonistas: albuterol aerossolizado (2,5 mg em 3 mL de solução salina) 4
- Considere brometo de ipratrópio inalatório (0,5 mg) combinado com esteroides (metilprednisolona IV 125 mg três vezes ao dia) 4
Considerações Cardiovasculares
A intoxicação por organofosforados causa padrão bifásico de efeitos cardíacos 4:
Fase 1 (minutos): Breve período de hiperestimulação cardíaca com hipertensão e taquicardia sinusal devido à estimulação nicotínica 4
Fase 2 (horas): Depressão cardíaca grave manifestada como bradicardia e hipotensão devido à hiperestimulação parassimpática dos receptores muscarínicos 4
- Alterações isquêmicas ST-T podem aparecer, assim como distúrbios de condução atrioventricular 4
- Prolongamento do Q-Tc no ECG denota prognóstico ruim 4
- Monitoramento hemodinâmico invasivo pode ser necessário para determinar a causa fisiopatológica correta em casos complexos 4
Armadilhas Comuns e Precauções
Erros de Subdosagem
- Nunca subestime as doses necessárias - a intoxicação por organofosforados frequentemente requer doses totais altas de atropina 2
- O objetivo terapêutico é o controle dos sintomas muscarínicos, não a normalização da frequência cardíaca 2
- Em crianças, doses relativamente maiores são necessárias em comparação com doses padrão de ressuscitação pediátrica 1
Manejo da Taquicardia
- A taquicardia induzida pela atropina é um efeito farmacológico esperado e NÃO é contraindicação para administração contínua de atropina 1
- A taquicardia observada pode ser da hiperestimulação do receptor nicotínico pelo próprio organofosforado 1
- Continue a escalada independentemente da frequência cardíaca 1
Febre Induzida pela Atropina
- A administração repetida de atropina produz efeitos adversos no SNC, incluindo alucinações e febre 1
- Nunca retenha ou interrompa prematuramente a atropina devido à febre - a atropinização inadequada leva à insuficiência respiratória e morte 1
- A febre é um efeito adverso esperado com terapia de atropina em altas doses e não indica falha do tratamento 1
Segurança dos Profissionais de Saúde
- Profissionais de saúde que realizam lavagem gástrica estão em risco significativo de exposição secundária a partir do conteúdo gástrico e êmese contendo organofosforados 1
- Casos documentados de profissionais de saúde necessitando de atropina, pralidoxima e até intubação por 24 horas após exposição secundária 1
- Nunca permita que profissionais de saúde manuseiem conteúdo gástrico sem EPI 1
Complicações e Monitoramento
Complicações Musculoesqueléticas
- Mionecrose grave pode resultar do acúmulo excessivo de acetilcolina causando influxo de cálcio no músculo esquelético 1
- Rabdomiólise com mioglobinúria subsequente pode causar dano renal 1
- Monitore creatina quinase e níveis de potássio 1
Tratamento da Rabdomiólise:
- Hidratação adequada 1
- Diurese forçada 1
- Alcalinização da urina quando a urina fica avermelhada (de mioglobina, não hemoglobina) 1