Dreno de Tórax: Guia Completo
Indicações
O dreno de tórax está indicado para evacuação de ar ou líquido anormal do espaço pleural, incluindo pneumotórax, hemotórax, derrame pleural, empiema, quilotórax e profilaxia após cirurgia torácica. 1, 2, 3
Indicações Específicas por Condição:
Pneumotórax:
- Pacientes instáveis com pneumotórax de qualquer tamanho requerem drenagem torácica imediata e hospitalização 4, 5
- Pacientes estáveis com pneumotórax grande (≥3 cm da parede torácica) necessitam drenagem 5
- Pacientes estáveis com pneumotórax pequeno (<3 cm) podem ser observados sem dreno se mantiverem estabilidade clínica (frequência respiratória <24/min, FC 60-120 bpm, PA normal, saturação >90% em ar ambiente, capacidade de falar frases completas) 5
- Pacientes em ventilação mecânica com pneumotórax devem receber dreno devido ao risco de vazamento aéreo significativo 4, 6
Derrame Pleural:
- Derrames grandes e sintomáticos que causam dispneia significativa 1, 3
- Empiema pleural 1, 7
- Derrame maligno recorrente (para pleurodese) 4
Hemotórax:
Pós-operatório:
Contraindicações
Não existem contraindicações absolutas para toracostomia com tubo, mas algumas situações requerem precauções especiais. 7
Contraindicações Relativas:
- Coagulopatia ou distúrbios hemorrágicos devem ser corrigidos antes do procedimento quando o tempo permitir 7
- Pacientes com pneumotórax pequeno (<2 cm ou apenas apical) e clinicamente estáveis não devem receber dreno, pois os riscos superam os benefícios 5
- Doença bolhosa pulmonar grave requer TC antes da colocação para evitar ruptura de bolhas 6
- Cirurgia pulmonar futura planejada pode contraindicar pleurodese 7
- Aderências pleurais de cirurgia torácica prévia aumentam dificuldade técnica e devem ser consideradas 5
Armadilhas Comuns a Evitar:
- Nunca colocar dreno reflexivamente em achados "mínimos" - observação é mais segura em pacientes estáveis 5
- Não encaminhar para toracoscopia sem estabilização prévia com dreno se intervenção for necessária 4
- Evitar drenagem em departamento de emergência com observação simples sem hospitalização para pneumotórax secundário 4
Seleção do Tamanho do Dreno
A escolha do calibre do dreno depende da estabilidade clínica do paciente e do tipo de conteúdo pleural a ser drenado.
Algoritmo de Seleção:
Para Pneumotórax:
- Pacientes instáveis ou em ventilação mecânica: drenos 24F-28F 4, 5, 6
- Pacientes estáveis com pneumotórax grande: drenos 16F-22F (ou cateter pequeno ≤14F em circunstâncias selecionadas) 4, 5, 6
- Drenos maiores que 28F geralmente não são necessários 4, 5
- Cateteres pequenos (≤14F) são aceitáveis para pneumotórax pequeno em pacientes estáveis, mas há preocupação com risco de oclusão 4, 6
Para Hemotórax:
- Drenos maiores (16F-28F) são preferidos devido ao risco de obstrução por coágulos 6
- Cateteres tipo pigtail não são padrão de cuidado para hemotórax traumático 6
Para Derrame Pleural:
- Cateteres pequenos (8F-16F) demonstraram taxas de sucesso similares aos drenos grandes para derrames 4
Evidência de Eficácia:
- Tubos pequenos (10-14F) têm taxas de sucesso primário de 84-97% para pneumotórax usando drenos de calibre 7-9F 6
- Fatores que predispõem falha de tubos pequenos incluem presença de líquido pleural 6
Técnica de Inserção
O método incisional é o mais seguro para inserção de dreno torácico, e o uso de trocarte deve ser evitado para prevenir lesões catastróficas de órgãos. 6, 2, 7
Local de Inserção:
- O local mais apropriado é o 4º ou 5º espaço intercostal na linha axilar média ou anterior 2
- Para derrame pleural, posicionar o tubo na porção dependente do derrame, tipicamente área basal posterior 5
Passos do Procedimento:
Preparação:
- Administrar analgésicos narcóticos intravenosos e/ou sedação consciente, especialmente para agentes esclerosantes que causam dor significativa 4
- Confirmar anatomia do espaço pleural com ultrassom, TC ou fluoroscopia 8
- Em pacientes ventilados, considerar clampar o circuito do ventilador antes de acessar o espaço pleural para prevenir disseminação de ar ou líquido 5
Técnica:
Confirmação:
Sistema de Drenagem
Todos os drenos torácicos devem ser conectados a sistema de drenagem apropriado, como dispositivo de selo d'água com ou sem sucção. 4, 5
Opções de Sistema:
- Selo d'água com sucção (consenso moderado) ou sem sucção (bom consenso) são aceitáveis para maioria dos pacientes 4
- Pacientes tratados apenas com selo d'água devem receber sucção se o pulmão falhar em reexpandir 4
- Válvula de Heimlich pode ser usada em casos selecionados, embora selo d'água seja considerado melhor opção 4, 5
- Aplicar sucção de 20 cm H₂O até que débito de 24 horas seja <150 cm³ 4
Sistemas Digitais vs Analógicos:
- Sistemas digitais automatizam coleta de dados, permitindo medição quantitativa longitudinal de vazamento aéreo e débito de líquido 4
- Estudos em cirurgia cardíaca mostraram redução na incidência de radiografias para detectar vazamentos aéreos (8,6% vs 20,2%, P<0,01) com sistemas digitais 4
Manutenção da Permeabilidade
A manutenção da permeabilidade do dreno sem quebrar o campo estéril é recomendada para prevenir complicações de sangue retido (recomendação classe I, nível de evidência B). 4
O Que Evitar:
- "Ordenhar" ou "espremer" manualmente os tubos NÃO é recomendado (classe IIIA, nível B-evidência randomizada) 4
- Quebrar o campo estéril para aspirar ou limpar mecanicamente obstruções NÃO é recomendado 4
- Estas técnicas manuais podem causar infecção iatrogênica, hemorragia, ruptura de enxertos de bypass devido à alta pressão negativa 4
Técnicas Modernas:
- Sistemas de limpeza ativa com fio-guia interno em loop podem ser manipulados para quebrar coágulos sem quebrar campo estéril 4
- Estudo randomizado de 2021 com 520 pacientes de cirurgia cardíaca mostrou que limpeza ativa reduziu reexploração por sangramento em 72% (5,7% vs 1,6%, P=0,01) e oclusão completa em 89% (2% vs 19%, P=0,01) 4
- Análise pareada por propensão mostrou que limpeza ativa reduziu procedimentos de drenagem para derrames pleurais (8,1% vs 22%, P<0,001), fibrilação atrial pós-operatória (25% vs 37%, P=0,011), tempo de UTI e tempo de internação 4
Manejo Pós-Procedimento
Monitoramento:
- Nunca clampar um dreno torácico borbulhante, pois pode causar pneumotórax hipertensivo fatal 6
- Monitorar débito, características do líquido e presença de vazamento aéreo 3
- Repetir radiografia de tórax 5-12 horas após última evidência de vazamento aéreo para garantir que pneumotórax não recorreu 4
Remoção do Dreno:
Algoritmo para Remoção:
Para pneumotórax com vazamento aéreo:
Critérios gerais:
Remoção em etapas:
- Remover tubos de maneira escalonada para garantir que vazamentos aéreos foram resolvidos 5
Vazamentos Aéreos Persistentes:
- Para vazamentos persistentes, observação contínua por 4 dias para fechamento espontâneo da fístula broncopleural é recomendada 4
- Pacientes com vazamentos além de 4 dias devem ser avaliados para cirurgia (toracoscopia preferida - consenso muito bom) 4
- Aplicar sucção de alto volume e baixa pressão (-10 a -20 cm H₂O) se ainda não feito 9
- Encaminhar para cirurgia torácica urgentemente se vazamento persistir >48 horas ou imediatamente em casos de trauma 9
- NÃO colocar dreno adicional ou realizar broncoscopia para selar locais endobrônquicos de vazamento 4
- Pleurodese química através do dreno geralmente NÃO é recomendada, exceto em circunstâncias especiais quando cirurgia é contraindicada 4
Pleurodese
Para derrames malignos recorrentes, pleurodese está indicada em pacientes com sintomas significativos aliviados quando líquido pleural é evacuado. 4
Agentes Esclerosantes:
Talco é o agente mais eficaz, com taxa de sucesso completo de 93% (153 de 165 pacientes). 4
- Talco (2,5-10 g): 93% de sucesso 4
- Corynebacterium parvum: 76% de sucesso 4
- Doxiciclina (500 mg): 72% de sucesso 4
- Tetraciclina: 67% de sucesso 4
- Bleomicina: 54% de sucesso 4
Técnica de Pleurodese:
- Confirmar reexpansão completa do pulmão radiograficamente 4
- Administrar analgésicos narcóticos IV e/ou sedação devido à dor associada 4
- Adicionar agente esclerosante ao dreno em 50-100 cm³ de solução salina estéril 4
- Clampar dreno por 1 hora (rotação do paciente NÃO é necessária) 4
- Reconectar à sucção de 20 cm H₂O 4
- Manter sucção até débito de 24 horas <150 cm³ 4
Considerações Especiais:
- Se paciente estiver recebendo corticosteroides, descontinuar ou reduzir dose se possível devido à preocupação com eficácia reduzida 4
- Cateteres pequenos (8-16F) demonstraram taxas de sucesso similares aos drenos grandes para pleurodese 4
Complicações
Complicações da Inserção:
- Hemotórax, deslocamento, lacerações pulmonares e lesão de órgãos torácicos ou abdominais ocorrem frequentemente quando tubo é inserido com trocarte de aço 2
- Lesão de órgãos pode ser catastrófica 6
- Infecção iatrogênica por quebra de campo estéril 4
Complicações Durante Uso:
- Oclusão é comum - estudo americano sugere que quase 40% dos tubos ocluem 4
- Tubos pequenos têm maior risco de bloqueio 5
- Sangue retido aumenta risco de complicações incluindo tamponamento, derrame pericárdico e fibrilação atrial pós-operatória 4
- Hemotórax retido aumenta significativamente risco de empiema (2-25% em trauma) 6
Complicações Relacionadas a Agentes:
- Dor é a complicação mais comum, especialmente com doxiciclina e outros agentes esclerosantes 4, 5
- Dor é mais comum com tubos maiores 5
- Febre é efeito adverso comum 4
Situações Especiais Requerendo Atenção:
Lesão Brônquica:
- Paciente com pneumotórax persistente apesar de dreno funcionante e crepitação subcutânea torácica moderada sugere lesão traqueobrônquica 9
- Presença de enfisema subcutâneo moderado neste contexto é particularmente preocupante, sugerindo vazamento aéreo maciço 9
- Considerar dreno maior (24-28F) para vazamento aéreo grande 9
- Manejo padrão falha em lesão de via aérea maior - abordagem usual de observação, aspiração ou dreno padrão é inadequada quando fonte de ar (brônquio rompido) continuamente supera capacidade de drenagem 9
Prevenção de Recorrência de Pneumotórax
Pneumotórax Primário:
- Procedimentos para prevenir recorrência devem ser reservados para segundo episódio (85% dos membros do painel) 4
- 15% ofereceriam intervenção após primeiro pneumotórax 4
- Preferências do paciente e atividades de alto risco (mergulho, voo) devem ser consideradas 4
Pneumotórax Secundário:
- 81% dos membros do painel recomendam intervenção para prevenir recorrência após primeira ocorrência devido à letalidade potencial 4
- 19% realizariam intervenção após segundo pneumotórax 4
Abordagem Cirúrgica Preferida:
- Toracoscopia é a intervenção preferida (consenso muito bom) 4
- Taxas de sucesso cirúrgico: 95-100% vs 78-91% com pleurodese química 4
- Bullectomia com grampeador é procedimento preferido 4
- Procedimentos aceitáveis para produzir sínfise pleural: pleurectomia parietal, insuflação de talco (poudrage), abrasão pleural parietal 4
- Pleurectomia ou abrasão limitada à metade superior do hemitórax constitui terapia preferida 4