Doenças Exantemáticas em Crianças e Adolescentes
Definição e Etiologia
As doenças exantemáticas são erupções cutâneas que frequentemente se manifestam durante doenças febris na infância, causadas principalmente por agentes virais, e menos comumente por toxinas bacterianas, medicamentos ou outras condições 1, 2. Os agentes virais mais comumente implicados incluem parvovírus B19 (eritema infeccioso), herpesvírus humano 6 (roséola infantil), vírus Epstein-Barr, citomegalovírus, e o vírus do sarampo, enquanto Mycoplasma pneumoniae representa uma causa bacteriana importante 1, 3.
Avaliação Clínica Sistemática
História Clínica Essencial
Para o diagnóstico diferencial adequado, é fundamental obter 2, 3:
- Cronologia precisa: momento de início dos sintomas, sequência de aparecimento da febre e exantema
- Características do exantema: morfologia (macular, papular, vesicular, petequial), localização inicial, padrão de distribuição, progressão
- Exposições recentes: viagens, contato com animais, ambientes florestais, contato com pessoas doentes
- Uso de medicamentos: antibióticos beta-lactâmicos e anti-inflamatórios não esteroides são os mais frequentemente implicados em reações medicamentosas 3
- Doenças subjacentes: imunodeficiências, condições crônicas que aumentam risco de complicações
Exame Físico Direcionado
- Padrão de distribuição: centrífugo versus centrípeto, seguindo linhas de clivagem da pele
- Presença de lesão "arauto": placa maior que precede erupção generalizada (sugere pitiríase rósea) 5
- Envolvimento de mucosas: enantema, conjuntivite
- Sinais de gravidade: petéquias, púrpura, descamação, bolhas, hipóxia, dispneia
Diferenciação Crítica: Exantema Viral versus Reação Medicamentosa
A distinção entre exantema viral e reação medicamentosa durante a fase aguda é impossível na grande maioria dos casos, pois o exantema viral frequentemente aparece enquanto a criança está recebendo medicação para infecção viral, sendo erroneamente percebido como alergia medicamentosa em 10% dos casos 3.
Abordagem Diagnóstica Prática
Considerar exantema viral como mais provável quando 3, 4:
- Sintomas prodrômicos típicos (febre, mal-estar, sintomas respiratórios superiores)
- Padrão de exantema característico de infecção viral conhecida
- Cronologia compatível com curso viral (3-7 dias após início dos sintomas)
- Ausência de sinais de gravidade (sem angioedema, sem comprometimento respiratório)
Considerar reação medicamentosa quando 3:
- Início súbito após introdução de novo medicamento (tipicamente 7-14 dias)
- Presença de eosinofilia, elevação de transaminases
- Sintomas sistêmicos graves (febre alta persistente, linfadenopatia generalizada)
- Morfologia sugestiva (urticária, eritema multiforme)
Investigações Complementares
Testes sorológicos e PCR podem ser úteis, mas uma infecção aguda concomitante não exclui hipersensibilidade medicamentosa 3. Portanto:
- Solicitar sorologias virais (EBV, HHV-6, CMV, parvovírus B19) e PCR quando disponível 3, 4
- Hemograma completo: eosinofilia sugere reação medicamentosa, linfocitose atípica sugere infecção viral 3
- Provas de função hepática: elevação significativa sugere reação medicamentosa sistêmica 3
- Histologia cutânea: raramente diferencia as duas condições 3
Manejo Baseado em Evidências
Exantemas Virais Típicos
A vasta maioria dos exantemas virais é autolimitada, requerendo apenas tranquilização e tratamento sintomático 5:
- Duração esperada: 6-8 semanas para pitiríase rósea, 3-7 dias para maioria dos exantemas virais 5
- Tratamento sintomático: anti-histamínicos para prurido, hidratação adequada
- Isolamento apropriado: afastamento escolar conforme recomendações locais para prevenir transmissão 4
Quando Considerar Intervenção Ativa
Para casos graves, recorrentes ou em gestantes, considerar tratamento específico 5:
- Aciclovir oral: evidência suporta uso para encurtar duração da doença em pitiríase rósea grave 5
- Eritromicina: opção para casos selecionados 5
- Fototerapia ultravioleta: para casos refratários 5
Manejo de Suspeita de Reação Medicamentosa
Suspender imediatamente o medicamento suspeito se houver sinais de gravidade 3:
- Angioedema, dificuldade respiratória, hipotensão
- Lesões bolhosas, descamação extensa
- Envolvimento de mucosas significativo
- Febre persistente com deterioração clínica
Para reações leves sem sinais de alarme, observação cuidadosa é apropriada, pois pode ser exantema viral concomitante 3.
Armadilhas Comuns e Como Evitá-las
Não rotular prematuramente como "alergia à penicilina": 90% dos exantemas durante uso de antibióticos são virais 3. Evitar teste de provocação medicamentosa desnecessário na fase aguda.
Não confiar exclusivamente em testes cutâneos ou in vitro: sensibilidade e especificidade baixas, relevância questionável 3.
Não ignorar contexto epidemiológico: ressurgimento do sarampo requer vigilância aumentada e notificação obrigatória 1.
Reconhecer que ausência de placa arauto não exclui pitiríase rósea: variantes clínicas podem apresentar desafio diagnóstico 5.
Considerar risco em populações especiais: gestantes, imunocomprometidos requerem avaliação mais agressiva e seguimento próximo 4.