Doenças Sexualmente Transmissíveis: Visão Abrangente
Transmissão e Epidemiologia
As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) são transmitidas principalmente através do contato sexual (vaginal, oral e anal) e representam uma das principais causas de morbidade e mortalidade globalmente, com aproximadamente 1 milhão de ISTs adquiridas diariamente no mundo. 1, 2
Vias de Transmissão Principais
- Contato sexual direto (vaginal, anal, oral) é a via primária para gonorreia, clamídia, sífilis, herpes genital, HPV e tricomoníase 3, 2
- Transmissão fecal-oral ocorre com hepatite A, especialmente através de contato sexual que envolve exposição fecal 3
- Transmissão sanguínea é relevante para HIV e hepatite B, incluindo compartilhamento de equipamento de injeção 3
- Transmissão vertical (mãe para filho) pode ocorrer com HIV, sífilis, hepatite B, herpes e clamídia durante gravidez ou parto 3
Populações de Maior Risco
- Adolescentes e adultos jovens (<25 anos) apresentam as maiores taxas de gonorreia, clamídia e HPV 3, 2
- Homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero têm taxas elevadas de múltiplas ISTs 2
- Minorias raciais e étnicas (população negra e latina) apresentam taxas desproporcionalmente altas 2
- Usuários de drogas injetáveis têm risco aumentado para HIV e hepatites 3
Principais ISTs e Manifestações Clínicas
Infecções Bacterianas
Gonorreia (Neisseria gonorrhoeae)
- 70-100% das infecções extragenitais são assintomáticas, tornando o rastreamento essencial 2
- Manifesta-se como uretrite em homens (descarga mucopurulenta) e cervicite em mulheres 3
- Complicações incluem doença inflamatória pélvica (DIP), infertilidade tubária e gravidez ectópica 3, 2
Clamídia (Chlamydia trachomatis)
- Causa 15-55% dos casos de uretrite não-gonocócica, com prevalência maior em jovens 3
- Frequentemente assintomática, especialmente em mulheres 3
- Pode causar DIP, infertilidade e síndrome de Reiter 3
- Sorotipos LGV causam proctite severa com úlceras perianais e descarga sanguinolenta 4
Sífilis (Treponema pallidum)
- Apresenta estágios progressivos: primária (cancro indolor), secundária (rash), latente e terciária 2
- Taxas aumentaram significativamente nos EUA de 2015-2019 2
- Requer tratamento com penicilina, especialmente crítico em gestantes 3
Infecções Virais
Herpes Genital (HSV-1 e HSV-2)
- Aproximadamente 70% das infecções são assintomáticas ou oligossintomáticas 2
- Causa úlceras genitais recorrentes e dolorosas 2
- Em pessoas com HIV, a proctite herpética pode ser especialmente grave 4, 5
- Não tem cura, apenas tratamento supressivo 2
HPV (Papilomavírus Humano)
- A maioria das pessoas sexualmente ativas adquire HPV em algum momento da vida, geralmente assintomático 3
- Tipos de baixo risco causam verrugas genitais; tipos de alto risco causam câncer cervical 3
- Vacinas disponíveis para meninas e mulheres de 9-26 anos previnem infecção 3
- Parceiros masculinos podem receber vacina quadrivalente para prevenir verrugas 3
Hepatite B
- Toda pessoa avaliada ou tratada para IST deve receber vacinação para hepatite B, se não vacinada previamente 3
- Transmissão sexual, sanguínea e vertical 3
Hepatite A
- Homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis devem receber vacinação 3
- Transmissão fecal-oral durante atividade sexual 3
HIV
- Associado com aquisição e transmissão de outras ISTs 2
- Requer aconselhamento pré e pós-teste com avaliação personalizada de risco 3
Infecções Parasitárias
Tricomoníase (Trichomonas vaginalis)
- Aproximadamente 70% das infecções são assintomáticas 2
- Causa vaginite com descarga e pode causar uretrite não-gonocócica 3, 6
- Tratamento efetivo com metronidazol 3, 2
Ectoparasitas
- Pthirus pubis (chato) e Sarcoptes scabiei (escabiose) transmitidos por contato próximo 3, 6
- Escabiose requer descontaminação de roupas e roupa de cama (lavagem em ciclo quente ou remoção de contato corporal por 72 horas) 3
Prevenção
Medidas Primárias de Prevenção
A forma mais eficaz de prevenir transmissão sexual de HIV e outras ISTs é evitar relações sexuais com parceiro infectado. 3
- Uso consistente de preservativo masculino de látex novo em cada ato sexual reduz significativamente o risco 3
- Quando preservativo masculino não pode ser usado, considerar preservativo feminino 3
- Uso consistente de preservativo por parceiros masculinos reduz risco de infecção cervical e vulvovaginal por HPV e diminui tempo necessário para clearance viral 3
Vacinação
- Hepatite B: vacinação universal para todas as pessoas em avaliação/tratamento de IST 3
- Hepatite A: vacinação para homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis 3
- HPV: vacinas disponíveis para meninas/mulheres 9-26 anos, mesmo com diagnóstico prévio de HPV 3
Limitações de Métodos Não-Barreira
Métodos contraceptivos não-barreira (anticoncepcionais hormonais, esterilização cirúrgica, histerectomia) não oferecem proteção contra HIV ou outras ISTs. 3
- Mulheres usando estes métodos devem ser aconselhadas sobre uso de preservativos 3
- Proteção contra HIV não deve ser presumida com uso de espermicidas vaginais, esponjas ou diafragmas 3
Usuários de Drogas Injetáveis
- Nunca usar equipamento de injeção (agulhas, seringas) usado por outra pessoa 3
- Inscrever-se ou continuar em programa de tratamento de drogas 3
- Se compartilhamento continuar, limpar equipamento com água sanitária (não esteriliza completamente, mas reduz transmissão de HIV) 3
Rastreamento
Recomendações por População
Mulheres Sexualmente Ativas
- Rastreamento anual para clamídia em todas as adolescentes sexualmente ativas 3, 7
- Rastreamento anual para clamídia em mulheres de 20-25 anos 3
- Mulheres >25 anos com fatores de risco (novo parceiro, múltiplos parceiros) devem ser rastreadas 3, 7
Gestantes
- Rastreamento para sífilis na primeira consulta pré-natal 3
- Rastreamento para gonorreia na primeira consulta, com repetição para aquelas em risco aumentado 3
- Rastreamento para clamídia no terceiro trimestre para mulheres <25 anos ou com novo/múltiplos parceiros 3
- Rastreamento para hepatite B na primeira consulta pré-natal 3
- Considerar teste de HIV para todas as gestantes, especialmente em áreas de alta soroprevalência 3
Populações de Alto Risco
- Homens que fazem sexo com homens requerem rastreamento mais frequente 7, 2
- Pessoas com múltiplos parceiros ou novo parceiro devem ser rastreadas mais frequentemente 3, 7
Métodos Diagnósticos
Testes de Amplificação de Ácidos Nucleicos (NAAT)
- Sensibilidade de 86,1-100% e especificidade de 97,1-100% para gonorreia, clamídia, M. genitalium, tricomoníase e HSV sintomático 2
- Método preferencial para diagnóstico de clamídia e gonorreia 3, 2
Sorologia
- Método recomendado para diagnóstico de sífilis, usando testes sequenciais para detectar anticorpos treponêmicos e não-treponêmicos 2
Microscopia e Cultura
- Gram de secreção uretral demonstrando >5 leucócitos por campo de imersão documenta uretrite 3
- Cultura permanece importante para gonorreia em alguns contextos 3
Tratamento de Primeira Linha
Gonorreia
Ceftriaxona 125 mg IM em dose única é o tratamento recomendado 3
- Para proctite aguda: ceftriaxona 250 mg IM dose única MAIS doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias 4
- Resistência antimicrobiana limita opções de tratamento oral 2
- Tratamento presuntivo para clamídia é apropriado devido à coinfecção frequente 3
Clamídia
Azitromicina 1 g VO em dose única OU doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias 3
- Azitromicina e doxiciclina são igualmente eficazes 3
- Azitromicina deve estar sempre disponível para pacientes com compliance questionável, permitindo terapia diretamente observada 3
- Doxiciclina é menos custosa e tem uso mais extenso 3
Regimes Alternativos:
- Eritromicina base 500 mg VO 4x/dia por 7 dias 3
- Eritromicina etilsuccinato 800 mg VO 4x/dia por 7 dias 3
- Ofloxacino 300 mg VO 2x/dia por 7 dias 3
- Levofloxacino 500 mg VO 1x/dia por 7 dias 3
Uretrite Não-Gonocócica
Azitromicina 1 g VO dose única OU doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias 3
- Tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível após diagnóstico 3
- Regimes de dose única melhoram compliance 3
Linfogranuloma Venéreo (LGV)
Para proctite com descarga sanguinolenta, úlceras perianais ou mucosas: doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 3 semanas totais 4
- Tratamento estendido é essencial para LGV 4
- Se teste de clamídia retal for positivo, realizar PCR molecular para LGV para confirmar diagnóstico 4
Sífilis
Penicilina é o tratamento de escolha 3
- Gestantes alérgicas à penicilina necessitam encaminhamento para especialista 3
Tricomoníase
Metronidazol 2 g VO em dose única 3, 2
- Nitroimidazóis são tratamento efetivo 2
Mycoplasma genitalium
Moxifloxacino é tratamento efetivo, mas resistência antimicrobiana limita opções 2
Herpes Genital
Não há cura disponível 2
- Tratamento supressivo com antivirais reduz recorrências 2
- Em gestantes com história de herpes recorrente, culturas seriadas de rotina no terceiro trimestre não são indicadas na ausência de lesões 3
- Cesariana "profilática" não é indicada para mulheres sem lesões ativas no momento do parto 3
Hepatite A
Infecção produz doença autolimitada que não resulta em infecção crônica ou doença hepática crônica 3
- Taxa de fatalidade geral: 0,5% 3
- Anticorpos persistem por toda vida e conferem proteção contra reinfecção 3
Manejo de Parceiros Sexuais
Parceiros que tiveram contato sexual com pessoas tratadas para gonorreia, clamídia ou LGV nos 60 dias antes do início dos sintomas devem ser avaliados, testados e tratados presuntivamente. 4, 5
Princípios Gerais
- Parceiros sexuais e contatos próximos/domiciliares no último mês devem ser examinados e tratados para escabiose 3
- Parceiros em relacionamento de longo prazo tendem a compartilhar HPV, mesmo sem sinais ou sintomas 3
- Detecção de HPV de alto risco em mulher não significa que ela ou parceiro esteja engajado em atividade sexual fora do relacionamento 3
Abstinência Sexual
- Pacientes devem abster-se de relações sexuais até que eles e seus parceiros tenham sido adequadamente tratados (conclusão de regime de 7 dias e resolução de sintomas) 4
- Abstinência até 7 dias após início da terapia para uretrite 3
Seguimento e Reteste
Gonorreia e Clamídia
Reteste para o patógeno respectivo deve ser realizado 3 meses após tratamento 4, 5
- Teste de cura microbiológico geralmente não é recomendado 3
- Pacientes devem retornar para avaliação se sintomas persistirem ou recorrerem após conclusão da terapia 3
Proctite
Todos os pacientes com proctite aguda devem ser testados para HIV e sífilis 4
- Para LGV, seguimento mais prolongado pode ser necessário após curso estendido de 3 semanas de doxiciclina 5
- Pacientes com apresentação inicial grave requerem seguimento mais próximo para garantir resolução completa 5
Considerações Especiais em HIV
Pacientes com HIV e proctite requerem seguimento mais vigilante devido ao risco de doença mais grave e infecções oportunistas 5
- Considerar monitoramento mais frequente para aqueles com contagens baixas de células imunes 5
Situações Especiais
Agressão Sexual
Muitos especialistas recomendam terapia preventiva de rotina após agressão sexual 3
Regime Profilático Recomendado:
- Ceftriaxona 125 mg IM dose única 3
- MAIS metronidazol 2 g VO dose única 3
- MAIS azitromicina 1 g VO dose única OU doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 7 dias 3
Vacinação e Seguimento:
- Vacinação pós-exposição para hepatite B (sem HBIG) deve ser administrada no exame inicial, com doses de seguimento em 1-2 e 4-6 meses 3
- Exame para ISTs deve ser repetido 2 semanas após agressão 3
- Testes sorológicos para sífilis e HIV devem ser repetidos 6,12 e 24 semanas após agressão se resultados iniciais foram negativos 3
Gestantes
- Lactentes, crianças pequenas, gestantes e lactantes não devem ser tratadas com lindano para escabiose 3
- Podem ser tratadas com permetrina ou crotamiton 3
- Presença de verrugas genitais não é considerada indicação para cesariana 3
Pessoas com HIV
Pacientes com cervicite mucopurulenta e HIV devem receber o mesmo regime de tratamento que aqueles HIV-negativos 3
- Pessoas com HIV e escabiose não-complicada devem receber o mesmo tratamento que pessoas sem HIV 3
- Pessoas com HIV e imunocomprometidos têm risco aumentado para escabiose norueguesa, uma infecção dermatológica disseminada que requer manejo com especialista 3
Adolescentes
Todos os adolescentes nos EUA podem consentir para diagnóstico e tratamento confidencial de ISTs 3
- Cuidado médico pode ser fornecido sem consentimento ou conhecimento dos pais 3
- Em muitos estados, adolescentes podem consentir para aconselhamento e teste de HIV 3
- Estilo e conteúdo do aconselhamento devem ser adaptados ao nível de desenvolvimento 3
Crianças
Manejo de crianças com ISTs requer cooperação próxima entre clínico, laboratório e autoridades de proteção infantil 3
- Algumas doenças (gonorreia, sífilis, clamídia) se adquiridas após período neonatal são quase 100% indicativas de contato sexual 3
- Para outras (HPV, vaginite), associação com contato sexual não é tão clara 3
Armadilhas Comuns e Precauções
Diagnóstico
- Sintomas isolados, sem documentação de sinais ou evidência laboratorial de inflamação uretral, não são base suficiente para retratamento 3
- Falha em distinguir entre reinfecção e falha terapêutica pode levar a tratamento inadequado e sintomas prolongados 5
Tratamento
- Eritromicina é menos eficaz que azitromicina ou doxiciclina, e efeitos colaterais gastrointestinais frequentemente desencorajam compliance 3
- Regime empírico para gonorreia, vaginose bacteriana e tricomoníase pode causar efeitos colaterais gastrointestinais devido à combinação de medicamentos 3
Seguimento
- Notificação e tratamento inadequados de parceiros podem levar a ciclos de reinfecção 5
- Seguimento de vítimas de agressão sexual é frequentemente difícil, mas essencial 3