Esclerose Tuberosa: Avaliação Inicial, Tratamento e Vigilância
Avaliação Inicial ao Diagnóstico
Todo paciente com esclerose tuberosa confirmada ou suspeita deve iniciar imediatamente com ressonância magnética cerebral sem contraste, avaliação renal por imagem, ecocardiograma (especialmente se <3 anos), exame oftalmológico com fundoscopia dilatada, e teste genético para mutações TSC1/TSC2. 1, 2
Neuroimagem Obrigatória
- RM cerebral sem contraste deve ser realizada ao diagnóstico para avaliar túberes corticais/subcorticais, nódulos subependimários, defeitos de migração neuronal e astrocitomas subependimários de células gigantes (SEGA) 1, 2
- RM com contraste (gadolínio) deve ser reservada apenas quando uma anormalidade é identificada na RM sem contraste ou se há alta suspeita clínica de SEGA 1
Avaliação Renal Completa
- RM abdominal como baseline ao diagnóstico, pois angiomiolipomas e cistos podem se desenvolver nos primeiros meses de vida 1, 2
- Ultrassom abdominal pode perder 25-30% dos angiomiolipomas pobres em lipídios 1
- Avaliação da função renal (TFG) e proteinúria devem ser realizadas ao diagnóstico 1
- Pressão arterial deve ser medida ao diagnóstico 1
Avaliação Cardíaca
- Ecocardiograma ao diagnóstico, especialmente em crianças <3 anos, pois aproximadamente dois terços dos recém-nascidos com esclerose tuberosa têm rabdomiomas cardíacos 1, 2
- Ecocardiograma fetal se o diagnóstico for suspeitado no pré-natal, podendo detectar indivíduos com alto risco de insuficiência cardíaca neonatal 1
Avaliação Oftalmológica
- Exame oftalmológico completo com fundoscopia dilatada ao diagnóstico, pois lesões retinianas estão presentes em 87% dos indivíduos 2
Confirmação Genética
- Teste genético para mutações TSC1 e TSC2 é recomendado para todos os pacientes com esclerose tuberosa definitiva ou suspeita 2, 3
- Análise genética de alta sensibilidade é recomendada se o teste padrão for negativo, pois mosaicismo é comum e detectável em frequências alélicas tão baixas quanto 1-2% 2
Armadilha crítica: 10-15% dos pacientes que atendem aos critérios clínicos não têm mutação identificável, frequentemente devido a mosaicismo 2
Tratamento de Primeira Linha
Inibidores de mTOR (everolimus) são o tratamento de primeira linha para angiomiolipomas renais ≥3 cm, SEGA, e outras manifestações tumorais da esclerose tuberosa. 4, 5
Indicações para Inibidores de mTOR
- Angiomiolipomas renais que causam sintomas ou atingem tamanho significativo (≥3 cm) 4
- SEGA que apresenta crescimento ou sintomas 4
- Reduzem o tamanho dos angiomiolipomas e retardam a progressão da doença 4
Monitoramento Durante Tratamento com mTOR
- Testes de sangue e urina devem ser realizados antes de iniciar a terapia com inibidor de mTORC1 1
- TFG e proteinúria devem ser avaliados a cada 3-12 meses em pacientes recebendo inibidor de mTORC1 1
- Proteinúria pode se desenvolver ou piorar durante o tratamento, exigindo monitoramento regular 1, 4
Manejo de Hipertensão
- IECA ou BRA são recomendados como tratamento de primeira linha para hipertensão 4, 3
- Inibidores de SGLT2 podem ser considerados para pacientes com progressão de DRC, embora a evidência seja limitada na população com esclerose tuberosa 4
Intervenções para Complicações Renais
- Embolização arterial deve ser considerada como abordagem de primeira linha para lesões com sangramento ativo 4
- Embolização arterial preventiva pode ser considerada para angiomiolipomas assintomáticos >4 cm, especialmente aqueles com conteúdo angiomiomatoso rico 4
Armadilha crítica: Evitar perda de néfrons durante procedimentos intervencionistas 4
Vigilância Contínua
Protocolo de Vigilância Neurológica
- RM cerebral a cada 1-3 anos até os 25 anos para monitorar desenvolvimento de SEGA 1, 2, 3
- RM sem contraste, a menos que haja lesão em crescimento ou suspeita clínica de SEGA 1
- Monitoramento regular para epilepsia, que é a principal causa de mortalidade em pacientes com esclerose tuberosa 2, 4
Protocolo de Vigilância Renal
Crianças:
- Ultrassom abdominal a cada 1-3 anos até os 12 anos se RM basal for negativa 1
- Transição para RM renal a cada 1-3 anos a partir dos 12 anos devido à sensibilidade decrescente do ultrassom em crianças mais velhas 1
- Imagem anual ou mais frequente para tumores aproximando-se de 3 cm; intervalos mais longos para pacientes sem tumores ou com tumores <1 cm 1
Adultos:
- Testes anuais de sangue e urina para monitorar função renal e excreção de proteína urinária 1
- RM renal a cada 1-3 anos para monitorar angiomiolipomas e cistos 1
Crianças sem envolvimento renal na imagem:
- Testes de sangue menos frequentes (ou adiados até a idade adulta) são aceitáveis 1
Armadilha crítica: Imagem renal normal e TFG em crianças pequenas não excluem o desenvolvimento futuro de lesões renais 2, 4, 3
Vigilância de Pressão Arterial
- Medições anuais padronizadas de pressão arterial em consultório para todos os pacientes 1, 4, 3
- Monitoramento ambulatorial de pressão arterial de 24 horas se PA ≥120/70 mmHg em adultos 4, 3
Vigilância Cardíaca
- Ecocardiograma a cada 1-3 anos até regressão se rabdomiomas cardíacos estiverem presentes e o paciente for assintomático 1, 2
- Uma vez negativo, repetir apenas se sintomas se desenvolverem 1
Vigilância Pulmonar
- TC de tórax aos 18 anos para mulheres e homens sintomáticos para rastreamento de linfangioleiomiomatose 1, 2
Vigilância Oftalmológica
- Exame oftalmológico completo com fundoscopia dilatada anualmente 1
Vigilância Dermatológica
- Avaliação dermatológica anual ao diagnóstico 1
Considerações Especiais
Pacientes com Baixa Massa Muscular
- Em pacientes com baixa massa muscular devido a complicações neurológicas graves, equações padrão baseadas em creatinina podem superestimar a TFG 1
- Medições de TFG baseadas em cistatina C são sugeridas nestes casos 1
Síndrome do Gene Contíguo TSC2-PKD1
- Pacientes com deleção combinada de TSC2 e PKD1 devem ter avaliação clínica, bioquímica e radiológica completa do envolvimento renal ao diagnóstico 1
- Monitoramento mais frequente de pressão arterial e função renal devido ao alto risco de envolvimento renal precoce e complicações 1
Crianças com Cistos Renais e Enurese Noturna
- Evitar análogos de vasopressina (como desmopressina) em crianças com cistos renais que têm enurese noturna 1
Abordagem Multidisciplinar Essencial
- Todos os pacientes devem ser encaminhados a um centro especializado em esclerose tuberosa para cuidado coordenado multidisciplinar envolvendo neurologia, nefrologia, pneumologia, dermatologia e outras especialidades 2, 4, 3
- Visitas de acompanhamento estruturadas devem ocorrer pelo menos anualmente, idealmente coordenando múltiplos especialistas no mesmo dia 3
Armadilha crítica: A esclerose tuberosa frequentemente não é reconhecida por clínicos sem conhecimento especializado 2, 4
Aconselhamento Genético
- Aconselhamento genético é fortemente recomendado para todos os pacientes com esclerose tuberosa que estão considerando ter filhos 2
- Pais de uma criança com esclerose tuberosa aparentemente esporádica têm risco de 1-2% de ter outro filho afetado devido a possível mosaicismo germinativo 2, 3
- Triagem genética deve ser discutida com membros da família 4, 3
Causas de Mortalidade e Morbidade
- Doença renal é a causa mais comum de morte em adultos com esclerose tuberosa 2, 4
- Epilepsia é a principal causa de mortalidade em pacientes com esclerose tuberosa de todas as idades 2, 4
- Aproximadamente 40% dos adultos com esclerose tuberosa têm TFG baixa 2, 4
- Complicações relacionadas à infecção também são causas importantes de mortalidade 4