Conduta Inicial para Colecistite Aguda
Para um paciente adulto com dor epigástrica aguda e vômitos sugestivos de colecistite aguda, inicie imediatamente hidratação venosa, analgesia, jejum, e antibioticoterapia empírica com Amoxicilina/Clavulanato 2g/0,2g IV a cada 8 horas, seguido de ultrassonografia abdominal para confirmação diagnóstica e planejamento de colecistectomia laparoscópica precoce dentro de 72 horas (até 7-10 dias do início dos sintomas). 1, 2, 3
Avaliação Diagnóstica Inicial
- Ultrassonografia é o exame de imagem de primeira linha, com sensibilidade de 81% e especificidade de 83% 3
- Procure por colelitíase (presente em ~98% dos casos) mais sinal de Murphy ultrassonográfico (valor preditivo positivo de 92%) 4, 3
- Espessamento da parede da vesícula ≥5mm mais cálculos tem valor preditivo positivo de 95% 4, 3
- Identifique líquido pericolecístico como achado diagnóstico chave 3
- Se a ultrassonografia for não-diagnóstica, solicite cintilografia hepatobiliar (HIDA scan), que tem sensibilidade de 80-90% e é o padrão-ouro quando há dúvida diagnóstica 4, 3
Armadilha comum: Colecistite aguda pode apresentar-se sem os critérios clássicos - ausência de febre, Murphy negativo, leucócitos normais, e enzimas hepáticas apenas levemente elevadas ainda podem representar colecistite aguda 5. Não descarte o diagnóstico baseado apenas em achados laboratoriais ou exame físico atípicos.
Manejo Médico Imediato (Primeiras Horas)
- Jejum absoluto para repouso intestinal 6
- Hidratação venosa vigorosa para correção de déficits volêmicos 6
- Analgesia adequada conforme necessário 6
- Antibioticoterapia empírica deve ser iniciada o mais precocemente possível em qualquer paciente com suspeita de colecistite 1, 3
Seleção de Antibióticos por Classificação do Paciente
Pacientes Estáveis e Imunocompetentes (Não-Críticos)
- Primeira linha: Amoxicilina/Clavulanato 2g/0,2g IV a cada 8 horas 1, 2, 3
- Alternativas: Ceftriaxona 50-75 mg/kg/dia mais Metronidazol 1, 2, 3
- Esta escolha cobre adequadamente E. coli, Klebsiella pneumoniae, e Bacteroides fragilis, os patógenos mais comuns 1, 2
Pacientes Críticos ou Imunocomprometidos
- Primeira linha: Piperacilina/Tazobactam 6g/0,75g dose de ataque, depois 4g/0,5g IV a cada 6 horas (ou 16g/2g por infusão contínua) 1, 2, 3
- Pacientes diabéticos devem ser considerados imunocomprometidos e tratados com cobertura mais ampla 1
Pacientes com Risco de Organismos Resistentes
- Para risco de ESBL (Enterobacteriaceae produtoras de beta-lactamase de espectro estendido): Ertapenem 1g IV a cada 24 horas ou Eravacyclina 1 mg/kg IV a cada 12 horas 1, 2, 3
- Idosos ou residentes de instituições de longa permanência frequentemente são colonizados por organismos multirresistentes e requerem cobertura empírica mais ampla 1
Pacientes com Choque Séptico
- Meropenem 1g IV a cada 6 horas por infusão estendida 1, 3
- Alternativas: Doripenem 500mg IV a cada 8 horas por infusão estendida, ou Imipenem/cilastatina 500mg IV a cada 6 horas por infusão estendida 1
Pacientes com Alergia a Beta-Lactâmicos
- Eravacyclina 1 mg/kg IV a cada 12 horas 1, 2
- Ciprofloxacino 500mg VO a cada 12h mais Metronidazol 500mg VO a cada 12h é aceitável apenas para pacientes estáveis com doença leve-moderada 2
- Não use ciprofloxacino mais metronidazol em pacientes críticos ou imunocomprometidos - falta cobertura adequada 2
Armadilha importante: A resistência de E. coli a fluoroquinolonas está aumentando significativamente 2. Em regiões onde a resistência excede 10%, agentes alternativos são fortemente preferidos 1. Usar fluoroquinolonas como primeira linha quando beta-lactâmicos são apropriados aumenta resistência e expõe pacientes a efeitos adversos desnecessários 1.
Coberturas Especiais de Patógenos
- Cobertura anaeróbica NÃO é rotineiramente necessária para infecções biliares adquiridas na comunidade 1, 2, 3
- Cobertura anaeróbica É necessária para pacientes com anastomose bilioentérica 4, 1, 2
- Cobertura para enterococos NÃO é necessária para infecções adquiridas na comunidade 1, 2, 3
- Cobertura para enterococos É necessária para infecções associadas a cuidados de saúde, infecções pós-operatórias, pacientes com exposição prévia a cefalosporinas, imunocomprometidos, ou com doença valvar cardíaca 1
- Cobertura para MRSA com vancomicina NÃO é rotineiramente recomendada, apenas para pacientes sabidamente colonizados ou com infecções associadas a cuidados de saúde 1, 2, 3
Duração da Antibioticoterapia
Colecistite Não-Complicada com Cirurgia Precoce
- Profilaxia de dose única apenas se colecistectomia realizada dentro de 7-10 dias 1, 2, 3
- Descontinue antibióticos dentro de 24 horas após colecistectomia, a menos que haja evidência de infecção além da parede da vesícula 1, 2, 3
- Um estudo prospectivo com 414 pacientes mostrou nenhum benefício de continuar antibióticos pós-operatórios (taxas de infecção 17% vs 15%; p > 0,05) 1
Colecistite Complicada com Controle Adequado da Fonte
- 4 dias de antibioticoterapia para pacientes imunocompetentes não-críticos 1, 2, 3
- Até 7 dias para pacientes imunocomprometidos ou críticos, guiado por resposta clínica e marcadores inflamatórios 1, 2, 3
Colecistite com Bacteremia
- 4 dias se controle adequado da fonte for alcançado em pacientes imunocompetentes não-críticos 1, 3
- Até 7 dias para pacientes imunocomprometidos ou críticos 1
Armadilha crítica: Continuar antibióticos além de 24 horas após colecistectomia em casos não-complicados não fornece benefício clínico e promove resistência 1. Se sinais de infecção persistirem além de 7 dias, investigue controle inadequado da fonte ou complicações ao invés de simplesmente prolongar antibióticos 1.
Tratamento Cirúrgico Definitivo
- Colecistectomia laparoscópica precoce (dentro de 72 horas do diagnóstico, até 7-10 dias do início dos sintomas) é o tratamento de escolha 2, 3, 6
- Não atrase a cirurgia além de 3 dias, pois isso aumenta complicações, conversão para procedimento aberto, e mortalidade 3
- Cirurgia precoce oferece redução significativa de sintomas gastrointestinais durante o primeiro mês pós-operatório e melhora da qualidade de vida 7
- Obtenha culturas de bile e sangue em casos complicados para guiar terapia antibiótica direcionada 1, 3
Pacientes Não-Elegíveis para Cirurgia Precoce
- Drenagem percutânea ou endoscópica da vesícula para pacientes criticamente enfermos não-aptos para cirurgia 6, 8
- Se tratamento conservador for escolhido, retarde a cirurgia pelo menos 6 semanas após apresentação clínica 6
Limitação importante do tratamento conservador: 20-30% desenvolvem complicações recorrentes relacionadas a cálculos biliares durante seguimento de longo prazo, e 60% dos pacientes tratados conservadoramente acabam necessitando colecistectomia 2, 3.
Algoritmo de Decisão Estruturado
- Confirme o diagnóstico: Ultrassonografia (ou HIDA scan se não-diagnóstica) 4, 3
- Avalie gravidade: Leve-moderada vs. grave/complicada 1
- Determine status imune: Imunocompetente vs. imunocomprometido (incluindo diabéticos) 1
- Identifique fatores de risco: Anastomose bilioentérica, infecção associada a cuidados de saúde, organismos resistentes 1, 2
- Selecione antibiótico apropriado baseado nos passos 2-4 1, 2, 3
- Planeje colecistectomia precoce dentro de 72 horas (até 7-10 dias) 2, 3, 6
- Descontinue antibióticos dentro de 24 horas pós-cirurgia se não-complicada 1, 2, 3
Princípio fundamental: O controle adequado da fonte (colecistectomia ou drenagem) é a pedra angular do tratamento bem-sucedido e determina a duração dos antibióticos 1. Sem controle adequado da fonte, antibióticos prolongados isoladamente são insuficientes 1.