Conduta na Hipótese Diagnóstica de Colecistite Aguda
A ultrassonografia de quadrante superior direito é o exame de imagem obrigatório de primeira linha e deve ser realizado imediatamente em todo paciente com suspeita de colecistite aguda. 1
Avaliação Clínica Inicial
- O sinal de Murphy positivo ao exame físico é o achado clínico mais específico, com razão de verossimilhança positiva de 2,8 1
- A dor contínua e aguda no quadrante superior direito, agravada pela inspiração e alimentação, é característica da inflamação da vesícula biliar 1
- A ausência de febre documentada ou leucocitose não exclui colecistite aguda, pois nenhum achado clínico ou laboratorial isolado tem poder diagnóstico suficiente para estabelecer ou excluir o diagnóstico 1
Exames Laboratoriais Essenciais
- Hemograma completo com contagem de leucócitos e proteína C reativa como indicadores de inflamação 2
- Bilirrubina total e direta, com elevação >2× o limite superior da normalidade indicando estase biliar 2
- Fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase (GGT), sendo a elevação da fosfatasa alcalina a anormalidade bioquímica mais comum 2
- Aminotransferases (AST, ALT), que podem estar elevadas mas também podem ser normais nos estágios iniciais 2
- Albumina e tempo de protrombina/INR para avaliar função sintética hepática e estratificação de risco 2
Protocolo de Imagem Diagnóstica
Ultrassonografia (Primeira Linha)
- A ultrassonografia tem sensibilidade de 88% e especificidade de 80% para colecistite aguda 1
- Procurar os seguintes achados ultrassonográficos: cálculos ou lama biliar, espessamento da parede da vesícula (>3mm), líquido pericolecístico, distensão da vesícula, sinal de Murphy sonográfico, e cálculos impactados no colo da vesícula ou ducto cístico 1
- São necessários pelo menos 2 achados ultrassonográficos para estabelecer o diagnóstico de colecistite aguda 1
Quando a Ultrassonografia é Equívoca
- Se a ultrassonografia for equívoca ou negativa, a cintilografia hepatobiliar (HIDA scan) é o próximo exame preferencial, com sensibilidade de 97% e especificidade de 90% para colecistite aguda 1
- A cintilografia HIDA é o exame de escolha para colecistite acalculosa 3
- Alternativamente, a TC com contraste intravenoso pode ser obtida se houver suspeita de complicações (colecistite enfisematosa, perfuração da vesícula ou formação de abscesso), com sensibilidade de aproximadamente 92% 1
CPRM como Exame Avançado
- Se houver elevação de bilirrubina, icterícia ou suspeita de obstrução biliar (coledocolitíase ou colangite), proceda diretamente à CPRM após ultrassonografia inicial 3, 2
- A CPRM tem sensibilidade de 85-100% e especificidade de 90% para detectar coledocolitíase e obstrução biliar 3
- A CPRM é superior à TC para avaliar fontes biliares de dor no quadrante superior direito e fornece avaliação abrangente de todo o sistema hepatobiliar 3
- A CPRM sem contraste é suficiente para detectar cálculos no ducto biliar, mas adicione gadolínio intravenoso se necessário avaliar complicações como colangite aguda 3
Diferenciação: Colecistite vs. Colangite
Suspeitar de Colangite Aguda Quando:
- Presença da tríade: febre/calafrios, dor abdominal no quadrante superior direito e icterícia 2
- Bilirrubina >2× o limite superior da normalidade com fosfatase alcalina elevada 2
- Leucocitose e proteína C reativa >75 mg/L 2
- Nestes casos, a ultrassonografia abdominal permanece como primeira linha, mas se equívoca, obtenha TC com contraste ou CPRM para caracterização precisa da patologia biliar 2
Conduta Terapêutica
- Colecistectomia laparoscópica precoce dentro de 7-10 dias do início dos sintomas é o tratamento definitivo, reduzindo complicações e tempo de internação 1
- Iniciar antibioticoterapia com amoxicilina/clavulanato, eravacyclina ou tigeciclina por 2-4 dias se o controle da fonte for adequado 1
- Consulta cirúrgica imediata é indicada dada a apresentação aguda com cálculos biliares sintomáticos 1
- Para colangite com Enterococcus ou Streptococcus, estender antibióticos para 2 semanas para prevenir endocardite; para sepse grave ou disfunção orgânica, tratar por 7-10 dias 2
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não confie apenas na elevação de bilirrubina para diagnosticar colangite, pois pode estar normal ou apenas levemente elevada em cenários de vazamento biliar devido à absorção peritoneal 2
- Não atrase a imagem quando a suspeita clínica é alta, mesmo que os marcadores laboratoriais iniciais sejam equívocos 2
- Não repita ultrassonografia ou TC após avaliação inicial negativa; proceda diretamente à CPRM para detectar anormalidades biliares sutis 3
- Lembre-se que elevações leves de aminotransferases são comuns no pós-operatório e podem não ter significado patológico 2