Manejo Inicial de Hiperglicemia Grave (377 mg/dL) com Dor Epigástrica sem Eletrólitos ou Gasometria
Inicie hidratação venosa agressiva imediatamente com solução salina 0,9% a 15-20 mL/kg/hora e solicite urgentemente gasometria venosa, eletrólitos, ureia, creatinina, osmolalidade sérica e cetonúria para diferenciar entre cetoacidose diabética (CAD), estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH) ou hiperglicemia grave não complicada, pois o manejo definitivo depende deste diagnóstico. 1, 2, 3
Avaliação Diagnóstica Urgente
Enquanto aguarda os resultados laboratoriais, você deve:
- Coletar imediatamente: gasometria venosa, eletrólitos séricos com cálculo do ânion gap, ureia, creatinina, osmolalidade sérica calculada e efetiva, e urinálise para cetonas 1, 2, 3
- Avaliar sinais clínicos de gravidade: estado mental alterado, desidratação grave, sinais de choque, padrão respiratório (respiração de Kussmaul sugere CAD), hálito cetônico 4, 1
- Calcular osmolalidade efetiva: 2 × [Na+] + glicose/18 (se >320 mOsm/L, suspeitar de EHH) 2, 3
- Monitorar sinais vitais continuamente e colocar o paciente em monitorização cardíaca contínua para detectar arritmias precocemente 1
Hidratação Venosa Imediata (Antes dos Resultados)
A reposição volêmica é tão crítica quanto a insulina e deve ser iniciada simultaneamente:
- Iniciar com solução salina 0,9% a 15-20 mL/kg/hora na primeira hora se houver instabilidade hemodinâmica ou sinais de desidratação grave 1, 2
- Após a primeira hora, continuar a 250-500 mL/hora, ajustando conforme estado de hidratação, débito urinário e eletrólitos 2
- Evitar correção rápida da osmolalidade: a mudança induzida não deve exceder 3 mOsm/kg/hora para prevenir edema cerebral 1
Manejo do Potássio (CRÍTICO antes de iniciar insulina)
**NUNCA inicie insulina se o potássio sérico for <3 mEq/L** - primeiro reponha potássio até >3 mEq/L para evitar arritmias cardíacas, parada cardíaca e fraqueza muscular respiratória 1, 2
- Se potássio estiver entre 3-5,2 mEq/L, adicione 20-30 mEq de potássio a cada litro de fluido IV 2
- Monitore potássio a cada 2-4 horas durante a infusão de insulina 2
- Armadilha comum: Pacientes podem ter potássio sérico normal ou elevado inicialmente devido à acidose, mas têm depleção corporal total de potássio. A insulina causará entrada rápida de potássio nas células, precipitando hipocalemia grave 1
Insulina: Aguardar Confirmação Diagnóstica
Não inicie insulina IV até ter os resultados laboratoriais básicos, especialmente potássio, EXCETO se:
- O paciente apresentar sinais de cetoacidose franca (respiração de Kussmaul, hálito cetônico, alteração do estado mental) 4, 1
- Houver deterioração clínica rápida 4
Quando iniciar insulina (após confirmar K+ >3 mEq/L):
- Infusão contínua de insulina regular IV a 0,1 unidades/kg/hora sem bolus inicial 1, 2
- Se a glicose não cair pelo menos 50 mg/dL na primeira hora, dobre a taxa de infusão a cada hora até obter queda constante de 50-75 mg/h 1, 2
- Monitore glicemia a cada 1-2 horas inicialmente, depois a cada 2-4 horas quando estável 2
Diferenciação Diagnóstica Baseada em Resultados
Cetoacidose Diabética (CAD):
Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH):
- Glicose >600 mg/dL, pH venoso >7,3, bicarbonato >15 mEq/L, osmolalidade >320 mOsm/L, alteração do estado mental ou desidratação grave 2, 5
CAD + EHH misto:
- Glicose >250 mg/dL, cetose presente, hiperosmolalidade, graus variáveis de acidose 3
Considerações Especiais para Idosos
Em pacientes idosos diabéticos, a prioridade é prevenir hipoglicemia e complicações da hiperglicemia:
- Ligue para o médico imediatamente quando houver dois ou mais valores de glicose >250 mg/dL em 24 horas acompanhados de mudança significativa no estado clínico 4
- Ligue assim que possível quando valores de glicose estiverem consistentemente >250 mg/dL em 24 horas ou >300 mg/dL por 2 dias consecutivos 4
- Idosos são especialmente vulneráveis à hipoglicemia devido a comorbidades (insuficiência renal, desnutrição, demência), falha dos mecanismos regulatórios e sintomas hipoglicêmicos menos pronunciados 4
Investigação da Dor Epigástrica
A dor epigástrica de 4 dias pode indicar:
- Cetoacidose diabética (dor abdominal é comum, pode simular abdome agudo) 4, 6
- Pancreatite aguda (pode precipitar hiperglicemia e ser precipitada por hipertrigliceridemia) 4
- Isquemia mesentérica (especialmente em idosos com doença vascular) 4
- Gastroparesia diabética com descompensação 6
Solicite amilase, lipase e considere avaliação cirúrgica se houver sinais de abdome agudo 4
Monitorização Durante o Tratamento
Monitore a cada 2-4 horas:
- Glicemia capilar 2
- Eletrólitos séricos, ânion gap 2
- pH venoso 2
- Ureia e creatinina 2
- Osmolalidade calculada 3
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não iniciar insulina antes de verificar potássio - pode causar arritmias fatais 1, 2
- Não corrigir glicemia muito rapidamente - risco de edema cerebral 1
- Não usar apenas soro glicosado inicialmente - paciente precisa de reposição de sódio e volume 1, 2
- Não suspender insulina IV abruptamente - manter pelo menos 0,5-1 unidade/hora até transição completa para insulina subcutânea 2
- Não ignorar a dor epigástrica - pode indicar complicação grave que requer intervenção específica 4
Critérios de Resolução
A crise hiperglicêmica está resolvida quando TODOS os seguintes critérios forem atingidos:
- Glicose <200 mg/dL 1, 3
- Bicarbonato sérico ≥18 mEq/L 1, 3
- pH venoso >7,3 1, 3
- Ânion gap ≤12 mEq/L 1, 3
- Osmolalidade <300 mOsm/kg (se EHH) 3
- Estado mental retornado ao basal 3
Transição para Insulina Subcutânea
Quando os critérios de resolução forem atingidos:
- Administre insulina basal (intermediária ou longa ação) 2-4 horas ANTES de suspender a insulina IV para prevenir recorrência de cetoacidose e hiperglicemia rebote 1, 2
- Use o total de insulina IV administrada nas últimas 24 horas para calcular necessidades subcutâneas 2
- Divida: 50% como insulina basal e 50% como insulina prandial 2