Manejo de Paciente com Suspeita de Leishmaniose Mucocutânea
A resposta correta é D. Realizar biópsia de área infiltrada da mucosa nasal para exames parasitológico direto e histopatológico.
Justificativa
O paciente apresenta um quadro clínico altamente sugestivo de leishmaniose mucocutânea (LM), com história prévia de úlcera cutânea na perna (cicatrizada sem tratamento) e manifestações nasais progressivas (obstrução, epistaxe e ardor) com infiltração e ulceração do septo nasal. A biópsia da mucosa nasal é o procedimento diagnóstico inicial mais adequado neste caso.
Análise do Caso Clínico
Dados relevantes:
- Homem de 41 anos, morador do interior da Bahia (área endêmica)
- Histórico de úlcera cutânea única na perna direita há 18 meses (cicatrizada sem tratamento)
- Quadro atual: obstrução nasal progressiva, epistaxe recorrente e ardor nas narinas há 4 meses
- Exame físico: infiltração e ulceração do septo nasal anterior com bordas infiltradas
- Sem lesões cutâneas ativas
- Funções renal e hepática normais
Por que a biópsia é a conduta mais adequada:
As diretrizes da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA) e da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene (ASTMH) recomendam fortemente que "áreas mucosas com anormalidades macroscópicas sejam coletadas para espécimes; biópsias, obtidas por um otorrinolaringologista, são úteis para confirmar o diagnóstico" 1.
A biópsia permite:
- Confirmação parasitológica direta (visualização do parasita)
- Análise histopatológica para identificar alterações teciduais características
- Exclusão de outros diagnósticos diferenciais (como fungos invasivos, neoplasias)
O diagnóstico definitivo é essencial antes de iniciar qualquer tratamento específico, especialmente considerando os potenciais efeitos adversos das medicações antileishmania.
Por que as outras opções não são adequadas:
A. Tratar empiricamente com itraconazol oral
- O itraconazol é indicado para infecções fúngicas, não para leishmaniose
- O tratamento empírico sem confirmação diagnóstica não é recomendado para leishmaniose mucocutânea 1
- Poderia atrasar o diagnóstico correto e o tratamento adequado
B. Solicitar apenas a sorologia (imunofluorescência indireta ou ELISA) para Leishmania
- A sorologia isolada tem limitações diagnósticas e não substitui a confirmação parasitológica
- As diretrizes indicam que "sorologia com teste imunocromatográfico baseado em rK39 pode fornecer evidência de suporte para diagnóstico, mas não é recomendada como teste diagnóstico isolado" 1
C. Iniciar tratamento empírico com antibiótico sistêmico e corticoterapia intranasal
- Antibióticos não são eficazes contra Leishmania
- Corticosteroides podem agravar infecções parasitárias não tratadas
- O tratamento empírico sem diagnóstico definitivo pode mascarar sinais e sintomas, dificultando o diagnóstico posterior
Algoritmo de Manejo para Suspeita de Leishmaniose Mucocutânea:
Avaliação inicial:
- História de exposição em área endêmica
- Histórico de lesão cutânea prévia (mesmo que cicatrizada)
- Sintomas nasais persistentes (obstrução, epistaxe, ardor)
Exame físico otorrinolaringológico:
- Avaliação do septo nasal (infiltração, ulceração, perfuração)
- Inspeção de outras áreas mucosas (palato, faringe, laringe)
Diagnóstico:
- Biópsia da mucosa nasal afetada (padrão-ouro)
- Exames complementares: parasitológico direto, histopatológico, cultura
- Sorologia como exame auxiliar (não isoladamente)
Tratamento (após confirmação diagnóstica):
- Antimoniais pentavalentes ou anfotericina B lipossomal
- Miltefosina como alternativa
Pontos de Atenção:
- A leishmaniose mucocutânea pode ocorrer meses ou anos após a lesão cutânea inicial, mesmo que esta tenha cicatrizado espontaneamente 1
- O envolvimento nasal é a manifestação mucocutânea mais comum, podendo progredir para destruição tecidual extensa se não tratada adequadamente
- O diagnóstico precoce e tratamento adequado são essenciais para prevenir deformidades e complicações graves
Em conclusão, a biópsia da mucosa nasal para exames parasitológico direto e histopatológico é a conduta inicial mais adequada para este caso, permitindo o diagnóstico definitivo e orientando o tratamento específico subsequente.