Síndrome Hepatorrenal: Fisiopatologia, Diagnóstico e Manejo
A síndrome hepatorrenal (SHR) é uma insuficiência renal funcional que ocorre em pacientes com cirrose avançada, sendo o transplante hepático o tratamento definitivo, enquanto a terapia com vasoconstritores (terlipressina mais albumina) é o tratamento farmacológico de primeira linha para SHR tipo 1 (SHR-LRA) para pacientes aguardando transplante ou que não são candidatos ao mesmo. 1
Fisiopatologia
A SHR resulta de uma complexa cascata fisiopatológica envolvendo quatro fatores principais:
- Vasodilatação esplâncnica que causa redução do volume arterial efetivo e diminuição da pressão arterial média 2
- Ativação do sistema nervoso simpático e do sistema renina-angiotensina-aldosterona, causando vasoconstrição renal e alteração da curva de autorregulação renal 2
- Comprometimento da função cardíaca devido à cardiomiopatia cirrótica 2
- Aumento da síntese de mediadores vasoativos que afetam o fluxo sanguíneo renal 2
Esta condição representa uma falência renal funcional devido à vasoconstrição renal extrema na ausência de patologia renal subjacente, resultando do "underfilling" extremo da circulação arterial secundário à vasodilatação arterial esplâncnica. 3
Classificação
A SHR é classificada em dois tipos:
- Tipo 1 (SHR-LRA): Caracterizada por deterioração rápida e progressiva da função renal (aumento da creatinina sérica ≥100% em relação ao valor basal para um nível superior a 2,5 mg/dl em menos de 2 semanas) 2
- Tipo 2: Caracterizada por comprometimento estável ou menos progressivo da função renal 2
Diagnóstico
O diagnóstico da SHR baseia-se nos critérios estabelecidos pelo Clube Internacional de Ascite:
- Cirrose avançada com ascite 1
- Creatinina sérica >1,5 mg/dL 1
- Ausência de melhora após pelo menos 2 dias de retirada de diuréticos e expansão de volume com albumina 1
- Ausência de choque 1
- Sem exposição atual/recente a drogas nefrotóxicas 1
- Ausência de doença renal parenquimatosa (proteinúria <0,5 g/dia, sem micro-hematúria e ultrassonografia renal normal) 1
É fundamental fazer o diagnóstico de SHR ou identificar outras causas de insuficiência renal na cirrose o mais cedo possível. As causas de insuficiência renal na cirrose que devem ser excluídas incluem: hipovolemia, choque, doenças renais parenquimatosas e uso concomitante de drogas nefrotóxicas. 2
Fatores de Risco e Prognóstico
- O desenvolvimento de infecções bacterianas, particularmente peritonite bacteriana espontânea (PBE), é o fator de risco mais importante para SHR 2
- A SHR se desenvolve em aproximadamente 30% dos pacientes que desenvolvem PBE 2
- O prognóstico da SHR permanece ruim, com tempo médio de sobrevida de aproximadamente 3 meses 2
- Escores MELD elevados e SHR tipo 1 estão associados a prognóstico muito ruim 2
- A sobrevida mediana de pacientes com SHR tipo 1 não tratada é de aproximadamente 1 mês 2
Manejo Terapêutico
Medidas Gerais
- Monitorização cuidadosa de pacientes com SHR tipo 1, incluindo débito urinário, balanço hídrico e pressão arterial 2
- Idealmente, a pressão venosa central deve ser monitorada para ajudar no manejo do balanço hídrico 2
- Pacientes geralmente são melhor gerenciados em unidade de terapia intensiva ou semi-intensiva 2
Terapia Farmacológica
Primeira linha: Terlipressina mais albumina 1
Alternativa (onde terlipressina não está disponível):
Outra opção:
Transplante Hepático
- É o tratamento definitivo para SHR tipos 1 e 2 1
- Recomenda-se encaminhamento acelerado para transplante para pacientes com SHR tipo 1 1
- Taxas de sobrevida aproximadamente 65% na SHR tipo 1 após o transplante 1
Prevenção da SHR
- Norfloxacina (400 mg/dia) para reduzir a incidência de SHR em cirrose avançada 1
- Pentoxifilina (400 mg três vezes ao dia) para prevenir o desenvolvimento de SHR em pacientes com hepatite alcoólica grave 1
- Infusão de albumina em pacientes com peritonite bacteriana espontânea junto com antibióticos reduz o risco de desenvolver SHR e melhora a sobrevida 2
Considerações Importantes
- O diagnóstico precoce é fundamental no manejo da SHR 4
- A diferenciação entre SHR e necrose tubular aguda (NTA) é muitas vezes desafiadora, mas importante, pois os vasoconstritores não são justificados para o tratamento da NTA 4
- SHR e NTA podem ser considerados como um continuum em vez de entidades distintas 4
- Biomarcadores emergentes podem ajudar a diferenciar essas duas condições e fornecer informações prognósticas sobre a recuperação renal após o transplante hepático 4