Indicações de Corticoterapia Sistêmica Prolongada
A corticoterapia sistêmica prolongada deve ser evitada sempre que possível devido aos riscos significativos de efeitos adversos graves, mas quando necessária, está indicada principalmente em condições inflamatórias e imunológicas específicas que não respondem adequadamente a outras terapias.
Indicações Principais para Uso Prolongado
Condições Respiratórias
- Fibrose cística (FC): Corticosteroides sistêmicos podem retardar a progressão da doença pulmonar em pacientes com FC, embora estejam associados a efeitos colaterais significativos, especialmente em crianças 1
- Asma grave não controlada: Quando os corticosteroides inalatórios em doses altas combinados com beta-agonistas de longa ação não conseguem controlar adequadamente os sintomas 1
Doenças Inflamatórias Intestinais
- Colite ulcerativa aguda grave (CUAG): Corticosteroides intravenosos (hidrocortisona 100 mg quatro vezes ao dia ou metilprednisolona 30 mg a cada 12 horas) são a base do tratamento da CUAG 1
- Doença de Crohn moderada a grave: Para indução de remissão em doença moderada a grave, embora não sejam recomendados para manutenção 1
Condições Hematológicas
- Púrpura trombocitopênica imune (PTI): Como terapia de primeira linha para alcançar contagens plaquetárias seguras rapidamente, embora as respostas sustentadas sejam observadas em apenas 20-40% dos casos 1
Outras Condições
- Estados hipertireoideos: Incluindo tempestade tireoidiana, tireoidite subaguda e oftalmopatia da doença de Graves 2
- Meningite: Por Haemophilus influenzae ou Mycobacterium tuberculosis para reduzir complicações 2
- Hepatite alcoólica grave: Com encefalopatia concomitante para diminuir a mortalidade 2
- Dor neuropática e relacionada ao câncer: Como analgésicos adjuvantes 2, 3
Princípios Fundamentais para Uso Prolongado
Dosagem e Duração
- Usar sempre a menor dose eficaz pelo menor tempo possível para controlar a condição 4, 5
- A dose inicial típica de prednisona é de 30-60 mg/dia (dexametasona 4-8 mg/dia) para a maioria das condições 3
- Cursos iniciais de corticosteroides não devem ser administrados por mais de 6-8 semanas 1
- Cursos intravenosos prolongados além de 7-10 dias não oferecem benefício adicional e aumentam a toxicidade 1
Quando Evitar Uso Prolongado
- Nunca usar corticosteroides sistêmicos para terapia de manutenção em colite ulcerativa devido à ineficácia e efeitos adversos significativos 1
- Evitar em doença de Crohn para manutenção de remissão pois são ineficazes e associados a riscos aumentados 1
- Não usar cursos prolongados (>6 semanas) de prednisona sem indicação clara devido ao risco aumentado de efeitos colaterais 6
Monitoramento Obrigatório Durante Uso Prolongado
Avaliações Regulares Necessárias
- Densidade mineral óssea: Teste basal e anual para pacientes em terapia de longo prazo 6, 4
- Glicemia: Monitoramento regular devido ao risco de hiperglicemia e diabetes 6, 7
- Pressão arterial: Avaliação frequente pois hipertensão pode se desenvolver rapidamente 6
- Exames oftalmológicos: Para cataratas e glaucoma, especialmente se a terapia continuar por mais de 6 semanas 4, 6
- Avaliação de infecções: Risco aumentado de infecções oportunistas e não oportunistas 8, 6
Profilaxia e Prevenção de Complicações
- Profilaxia para Pneumocystis jirovecii: Considerar em pacientes recebendo ≥20 mg de prednisona por ≥4 semanas 8
- Triagem para tuberculose, hepatite B e Strongyloides stercoralis: Antes de iniciar doses altas de corticosteroides 8
- Suplementação de cálcio e vitamina D: Para todos os pacientes em terapia prolongada 4, 6
- Bisfosfonatos: Fortemente recomendados para prevenção de osteoporose em pacientes de alto risco 7, 4
- Proteção gastrointestinal: Considerar inibidor de bomba de prótons ou misoprostol, especialmente se combinado com AINEs 7
Efeitos Adversos Graves do Uso Prolongado
Complicações Musculoesqueléticas
- Osteoporose e fraturas: Fraturas por compressão vertebral ocorrem em até 27% dos pacientes, exigindo retirada do tratamento 6
- Necrose avascular: Pode se desenvolver mesmo em doses moderadas, afetando cabeças femorais e umerais 6, 3
- Miopatia: Afetando músculos diafragmáticos e intercostais 6
Complicações Metabólicas e Cardiovasculares
- Redistribuição de gordura corporal: Obesidade truncal, fácies em lua cheia e corcova de búfalo ocorrem em 80% dos pacientes após dois anos 6
- Dislipidemia: Aumentando o risco de doença cardiovascular 6
- Hiperglicemia e diabetes: Particularmente comum com prednisona 6
Complicações Infecciosas
- Risco aumentado de infecções graves: Incluindo pneumonia, infecções cutâneas e sepse 6, 8
- Mortalidade aumentada: No registro TREAT de pacientes com doença de Crohn, a terapia com prednisona foi associada a risco aumentado de mortalidade (razão de risco 2,14) 1
Complicações Neuropsiquiátricas
- Distúrbios de humor: Variando de euforia a depressão grave e psicose 6, 5
- Distúrbios do sono: Ocorrendo em >30% dos pacientes 6
Estratégias de Redução e Descontinuação
Princípios de Redução Gradual
- Nunca descontinuar abruptamente: A redução gradual é essencial para minimizar a insuficiência adrenocortical secundária induzida por medicamentos 5, 4
- Insuficiência adrenal relativa: Pode persistir por até 12 meses após a descontinuação da terapia 4
- Considerar terapia em dias alternados: Quando apropriado para reduzir a supressão adrenal 6
Transição para Terapias Alternativas
- Considerar agentes poupadores de esteroides: Quando a terapia de longo prazo é antecipada 6
- Progressão acelerada para terapia avançada: Razoável após episódio de CUAG na ausência de terapia de manutenção avançada 1
- Mudar para budesonida: Quando apropriado para doença de Crohn ileocecal ou colite ulcerativa do lado esquerdo em pacientes idosos 7
Considerações Especiais para Populações de Alto Risco
Pacientes Idosos
- Monitoramento mais cuidadoso necessário: Com doses frequentemente mais baixas devido ao risco aumentado de complicações 6, 7
- Preferir budesonida sobre corticosteroides sistêmicos convencionais: Quando apropriado para a condição 7
- Risco aumentado de osteoporose: Especialmente em mulheres na pós-menopausa 4, 7
Pacientes com Comorbidades
- Diabetes, doença hepática crônica ou doença renal crônica: Requerem monitoramento próximo devido ao risco aumentado de complicações 6
- Avaliação da função hepática e renal: Necessária antes do início da terapia em pacientes idosos 7
Armadilhas Comuns a Evitar
- Não subestimar o impacto dos distúrbios do sono e mudanças de humor na qualidade de vida 6
- Não prescrever doses excessivamente altas: Doses superiores a 60 mg/dia não oferecem benefício adicional na colite ulcerativa 1
- Não realizar redução excessivamente rápida: Pode levar a efeitos indesejados 1
- Não usar para manutenção em DII: Apesar da resposta inicial, os riscos superam os benefícios 1
- Não ignorar a necessidade de profilaxia de osteoporose: Iniciar intervenções em qualquer paciente em quem se antecipa terapia com pelo menos o equivalente a 5 mg de prednisona por pelo menos 3 meses 4