Sim, o peritônio DEVE ser considerado como foco primário de infecção em pacientes em diálise peritoneal com quadro infeccioso agudo sem foco identificado
A peritonite associada à diálise peritoneal é uma causa comum e frequentemente negligenciada de infecção aguda em pacientes em DP, especialmente quando não há outro foco evidente, e deve ser investigada imediatamente através da análise do líquido peritoneal.
Por que o peritônio é um foco provável neste caso
Epidemiologia da peritonite em DP
- Pacientes em diálise peritoneal apresentam taxa de infecção peritoneal de 0,24-1,66 episódios/paciente/ano, tornando esta uma complicação extremamente comum 1
- A peritonite primária (incluindo aquela associada ao cateter de DP) é uma infecção bacteriana difusa sem perda de integridade do trato gastrointestinal, tipicamente vista em pacientes com cateter de diálise peritoneal 2
- Esta é geralmente uma infecção monomicrobiana que não requer intervenção cirúrgica 2
Contexto clínico específico deste paciente
- Em pacientes idosos, imunossuprimidos (como aqueles com câncer recidivante), a peritonite associada à DP pode apresentar-se com descompensação geral sem sinais peritoneais clássicos 3
- A presença do cateter de DP cria um risco contínuo de contaminação peritoneal através de: contaminação durante as trocas, infecção do sítio de saída do cateter, ou contaminação transmural 3
Abordagem diagnóstica imediata
Análise do líquido peritoneal
- A análise do efluente peritoneal é MANDATÓRIA - deve-se coletar imediatamente para contagem de leucócitos e cultura 4
- O diagnóstico de peritonite é confirmado quando a contagem de leucócitos polimorfonucleares no líquido ascítico é >250/mm³ 2
- Coletar cultura do efluente peritoneal E hemoculturas (dado o quadro de descompensação geral) 4
- Realizar coloração de Gram do líquido peritoneal para orientar terapia empírica inicial 4
Imagem complementar
- TC de abdome é o exame de escolha para determinar a presença de infecção intra-abdominal e sua fonte em pacientes que não irão para laparotomia imediata 3
- Pode identificar coleções localizadas, abscessos, ou outras fontes secundárias 3
Manejo terapêutico urgente
Antibioticoterapia empírica imediata
- Iniciar antibióticos IMEDIATAMENTE uma vez que a peritonite é considerada, especialmente em pacientes com descompensação geral 3
- A terapia empírica DEVE cobrir tanto organismos gram-positivos quanto gram-negativos (incluindo Pseudomonas) 4
- Via intraperitoneal é a preferida para administração de antibióticos 4
Organismos mais comuns
- Cocos gram-positivos (Staphylococcus epidermidis, outros estafilococos coagulase-negativos, e S. aureus) são os agentes mais frequentes mundialmente 1
- Organismos gram-negativos (E. coli, Klebsiella, Pseudomonas) estão aumentando em frequência 1, 5
- Importante: alguns organismos gram-negativos podem ser resistentes a cefalosporinas de primeira linha 6
Protocolo antibiótico sugerido
- Vancomicina sistêmica + ciprofloxacina é um protocolo eficiente de primeira linha com taxa de sucesso de 77% 1
- Alternativamente: ceftazidima + aminoglicosídeo via intraperitoneal 1
- Adicionar profilaxia antifúngica (nistatina oral preferencial) para prevenir peritonite fúngica secundária 4
Critérios para remoção do cateter
Indicações absolutas
- Peritonite refratária (sem resolução após 5 dias de antibiótico apropriado) 7
- Peritonite fúngica - é prática padrão remover o cateter IMEDIATAMENTE, além de tratamento antifúngico por mínimo de 3 semanas e transferência para hemodiálise 1
- Peritonite recorrente/recidivante 7
- Infecção refratária do sítio de saída ou túnel do cateter 4
Prognóstico
- Cada aumento de 0,5 episódios/ano na taxa de peritonite aumenta o risco de morte em 4% 1
- 18% dos episódios resultam em remoção do cateter de DP 1
- 3,5% dos episódios resultam em morte 1
Armadilhas comuns a evitar
- Não assumir que a ausência de sinais peritoneais clássicos exclui peritonite - pacientes idosos e imunossuprimidos podem ter apresentação atípica 3
- Não atrasar a coleta do líquido peritoneal - esta é a chave diagnóstica e deve ser feita antes de iniciar antibióticos quando possível 4
- Não usar apenas cobertura gram-positiva - a cobertura empírica DEVE incluir gram-negativos, incluindo Pseudomonas 4
- Não manter o cateter em peritonite fúngica - a remoção imediata é mandatória 1
- Não esquecer de considerar fontes secundárias - doença diverticular, isquemia intestinal, ou outras patologias abdominais podem causar peritonite secundária em pacientes em DP 3
Considerações especiais neste paciente
- O câncer de bexiga recidivante pode estar causando contaminação transmural se houver invasão peritoneal 3
- A desnutrição severa (comum em pacientes oncológicos) aumenta o risco de peritonite e piora o prognóstico 3
- Considerar peritonite terciária se houver história de intervenção abdominal recente (>48h) - requer cobertura mais ampla para organismos multirresistentes 2