Manejo da Pneumonia Associada à Ventilação
Inicie antibioticoterapia empírica de amplo espectro imediatamente após a suspeita de PAV e coleta de culturas quantitativas, seguida de reavaliação rigorosa em 48-72 horas para desescalonamento ou suspensão baseada em resposta clínica e resultados microbiológicos. 1, 2
Abordagem Diagnóstica Inicial
- Obtenha culturas quantitativas do trato respiratório inferior (lavado broncoalveolar ou aspirado endotraqueal quantitativo) antes de iniciar antibióticos, mas não atrase o tratamento para aguardar procedimentos diagnósticos 1, 2
- Calcule o Clinical Pulmonary Infection Score (CPIS) no dia 1 para estratificação de risco 1
- Culturas quantitativas com limiares específicos (≥10³ UFC/ml para escovado protegido, ≥10⁴ UFC/ml para lavado broncoalveolar) têm especificidade superior e permitem maior confiança na suspensão de antibióticos 1
Terapia Antibiótica Empírica
Seleção inicial deve ser guiada pelo antibiograma local e pelo momento de início da PAV (precoce vs tardia):
- Para PAV tardia ou pacientes com fatores de risco para organismos multirresistentes, inicie com beta-lactâmico antipseudomonal (piperacilina-tazobactam 4,5g a cada 6 horas, cefepime, imipenem ou meropenem) mais cobertura para MRSA (vancomicina ou linezolida) 1, 2, 3
- Para pacientes já em uso de antibióticos no momento da suspeita de PAV, escolha agentes de classes diferentes, pois é provável que tenha desenvolvido resistência aos antibióticos "em uso" 1
- Considere terapia combinada inicial para Pseudomonas aeruginosa (beta-lactâmico mais aminoglicosídeo ou fluoroquinolona) até resultados de sensibilidade 1
Armadilha crítica: A mortalidade é significativamente maior quando a terapia é inadequada nas primeiras 48 horas, justificando cobertura ampla inicial mesmo com risco de sobretratamento 1
Reavaliação em 48-72 Horas
Este é o ponto de decisão mais crítico no manejo:
- Recalcule o CPIS no dia 3 - a mudança no CPIS pode guiar decisões clínicas, incluindo suspensão de antibióticos 1
- Avalie resultados de culturas quantitativas e sensibilidades para permitir desescalonamento precoce 1
Se culturas negativas E antibióticos não foram alterados nas 72h anteriores à coleta:
- Suspenda antibióticos e monitore o paciente, especialmente se CPIS dia 1 ≤6 e CPIS dia 3 ≤6 1
Se culturas positivas E paciente melhorando:
- Desescalone para espectro mais estreito baseado em sensibilidades 1, 2
- Monoterapia é apropriada em muitas instâncias e reduz resistência bacteriana 1
- Descontinue cobertura para MRSA se não isolado e não suspeitado 2
Se paciente não melhorando:
- Considere outros organismos, diagnósticos não-infecciosos (atelectasia, insuficiência cardíaca, tromboembolismo venoso, pancreatite, pneumonite química, SDRA fase proliferativa, febre medicamentosa) ou complicações (empiema, abscesso pulmonar) 1
- Reavalie dose e frequência dos antibióticos usando parâmetros farmacocinéticos/farmacodinâmicos 1
Duração do Tratamento
- Curso curto de 6-8 dias para pacientes que respondem à terapia, sem P. aeruginosa, Acinetobacter ou Stenotrophomonas maltophilia 1, 2
- Curso mais prolongado indicado para P. aeruginosa, Acinetobacter e Stenotrophomonas maltophilia 1
- A duração depende da resposta fisiológica do paciente (redução no CPIS seriado ou melhora da relação PaO₂/FiO₂ nos dias 3-5) 1
Nuance importante: Estudos demonstram que cursos curtos (7-8 dias) são suficientes para a maioria dos casos de PAV, com exceção de organismos não-fermentadores 2
Estratégias de Prevenção
Abordagens principais (evidência de alta qualidade):
- Evite intubação quando possível - use ventilação não-invasiva ou oxigênio de alto fluxo quando seguro e viável 1, 4
- Minimize sedação usando protocolos - evite benzodiazepínicos em favor de outros agentes 1, 4
- Implemente protocolos de liberação do ventilador com testes de respiração espontânea diários 1, 4
- Eleve cabeceira do leito 30-45° 1, 4
- Forneça cuidado oral com escovação dentária sem clorexidina 1, 4
- Forneça nutrição enteral precoce (não parenteral) 1, 4
- Troque circuito do ventilador apenas se visivelmente sujo ou com mau funcionamento 1, 4
Intervenções NÃO recomendadas (evidência moderada):
- Cuffs de tubo endotraqueal de poliuretano ultrafino 1
- Cuffs cônicos de tubo endotraqueal 1
- Camas cinéticas 1
- Posicionamento prono para prevenção de PAV 1
- Banho com clorexidina 1
- Cuidado oral com clorexidina 1
Armadilha comum: A clorexidina oral, anteriormente recomendada, agora é desencorajada devido a evidências de potencial aumento de mortalidade em algumas populações 1
Considerações Farmacocinéticas/Farmacodinâmicas
- Para beta-lactâmicos: otimize o tempo que a concentração excede a CIM (tempo > CIM) 1
- Para aminoglicosídeos: otimize concentração de pico dividida pela CIM 1
- Para fluoroquinolonas: otimize ASC de 24h/CIM 1
- Ajuste doses em insuficiência renal (clearance de creatinina ≤40 mL/min) 3
Atenção especial: Pacientes críticos podem ter farmacocinética alterada, necessitando doses mais altas ou intervalos mais frequentes para atingir concentrações terapêuticas adequadas 1
Monitoramento de Complicações
- Monitore testes hematológicos durante terapia prolongada (leucopenia, neutropenia, trombocitopenia) 1
- Pacientes recebendo doses mais altas, especialmente com insuficiência renal, têm maior risco de excitabilidade neuromuscular ou convulsões 3
- Piperacilina-tazobactam foi identificado como fator de risco independente para insuficiência renal em pacientes críticos (odds ratio 1,7) 3
- Monitore sinais de rabdomiólise e descontinue se observados 3