Dor na Crista Ilíaca: Causas e Abordagem
Não, a dor na crista ilíaca não é causada pela atividade hematopoiética normal da medula óssea. A atividade hematopoiética fisiológica não produz dor, mesmo quando há diferenças regionais na celularidade da medula entre o esterno e a crista ilíaca 1.
Causas Reais da Dor na Crista Ilíaca
Entesite Inflamatória (Principal Diagnóstico a Considerar)
A rigidez matinal com duração superior a 30 minutos que melhora com atividade é o sinal cardinal de entesite inflamatória, diferenciando-a de causas mecânicas 2, 3. Esta apresentação clínica deve alertar imediatamente para uma etiologia inflamatória.
Características diagnósticas da entesite:
- Sensibilidade localizada e/ou edema nas inserções tendíneas da crista ilíaca 2, 3
- A flexão do quadril reproduz a dor ao tensionar as inserções inflamadas do tendão iliopsoas 2, 3
- Dor localizada no tubérculo ilíaco que é extra-articular e não limita significativamente a rotação interna do quadril 2, 3
Avaliação para espondiloartropatia:
- Procure características associadas: dor lombar inflamatória, uveíte, HLA-B27 positivo, história familiar 2, 3
- A entesite em estágio inicial pode ser a primeira manifestação de espondiloartropatia e justifica encaminhamento ao reumatologista 2, 3
Tendinopatia Iliopsoas (Causa Mecânica)
A dor matinal pode resultar de rigidez após imobilização noturna, característica típica de tendinopatias 3. Diferentemente da entesite inflamatória, a rigidez é menos prolongada.
Achados clínicos:
- Dor provocada pela combinação de flexão e rotação externa do quadril indica tensão tendínea 2
- A ultrassonografia confirma o diagnóstico mostrando espessamento do tendão, redução da ecogenicidade e possíveis calcificações 2, 3
Síndrome da Dor da Crista Ilíaca
A êntese do músculo eretor da espinha na crista ilíaca póstero-medial é o substrato anatômico desta síndrome 4. O estudo ultrassonográfico em voluntários saudáveis demonstrou que esta êntese pode ser avaliada em detalhe, permitindo identificar transformações patológicas 4.
Apofisite da Crista Ilíaca (em Adolescentes)
Em adolescentes de 12 a 17 anos, a apofisite da crista ilíaca causa dor anterior, medial ou posterior da pelve e zona lombar, coincidindo com o período de ossificação 5. A dor espontânea é reproduzida pela pressão em zona precisa da crista ilíaca 5. A evolução é constantemente favorável após algumas semanas, necessitando apenas restrição temporária de atividades esportivas 5.
Abordagem Diagnóstica Estruturada
Primeiro passo - Padrão temporal:
- Rigidez matinal >30 minutos → sugere etiologia inflamatória 2, 3
- Rigidez matinal breve → sugere tendinopatia mecânica 3
Segundo passo - Exame físico:
- Palpe a crista ilíaca medial para sensibilidade focal 2
- Teste a flexão do quadril para reproduzir dor 2, 3
- Avalie a rotação interna do quadril (limitação marcada sugere patologia intra-articular, não da crista ilíaca) 2, 3
Terceiro passo - Imagem:
- Radiografias simples excluem patologia óssea mas não visualizam alterações de tecidos moles 2, 3
- Ultrassonografia é útil para confirmar tendinopatia iliopsoas 2, 3
- Considere fontes de dor referida (coluna lombar, articulação sacroilíaca, joelho) quando os achados são equívocos 2, 3
Manejo Terapêutico
Para Entesite Inflamatória (Confirmada ou Altamente Suspeita)
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são terapia adjuvante de primeira linha 2, 3. Medicamentos modificadores da doença (DMARDs) ou agentes biológicos podem ser adicionados conforme a gravidade 2, 3.
O encaminhamento à reumatologia é essencial para manejo abrangente da espondiloartropatia 2, 3.
Para Tendinopatia Mecânica
Repouso relativo com evitação de atividades repetitivas de flexão do quadril é recomendado 2, 3. Um programa estruturado de fisioterapia focando alongamento e fortalecimento dos flexores do quadril e estabilizadores do core deve ser instituído 2, 3. AINEs podem ser usados para alívio sintomático 2, 3.
Armadilhas Comuns
Não atribua a dor a anomalias morfológicas regionais sem excluir entesite ou tendinopatia, pois isso pode levar a indicações cirúrgicas excessivas 5. A atividade da medula óssea pode estar alterada em condições patológicas (como osteonecrose relacionada a corticosteroides ou abuso de álcool) 6, mas a atividade hematopoiética normal nunca causa dor 1.