Manejo da Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC): Condutas Iniciais e Prescrição no Pronto-Socorro
Avaliação Inicial de Gravidade e Decisão de Internação
A decisão de internar ou tratar ambulatorialmente deve ser baseada em escores de gravidade validados (PSI ou CURB-65) combinados com julgamento clínico. 1
Critérios para Tratamento Ambulatorial
- Pacientes classificados como PSI classe I–III ou CURB-65 0–1 podem ser tratados ambulatorialmente, desde que não apresentem comorbidades instáveis, consigam ingerir medicação oral e tenham suporte domiciliar adequado. 1, 2
- O escore CURB-65 avalia: Confusão mental, Ureia >7 mmol/L (ou >20 mg/dL), Respiratory rate (frequência respiratória) ≥30/min, Blood pressure (pressão arterial) sistólica <90 mmHg ou diastólica ≤60 mmHg, idade ≥65 anos. 1, 3
Critérios para Internação Hospitalar
- CURB-65 ≥2 indica necessidade de internação hospitalar. 1
- PSI classe IV–V requer hospitalização. 1, 2
- Presença de hipotensão (PAS <90 mmHg), hipoxemia (SpO₂ <92% ou PaO₂ <8 kPa), frequência respiratória >30/min, infiltrados multilobares, incapacidade de manter ingesta oral ou alteração do estado mental exigem internação independentemente do escore. 1
Critérios para Admissão em UTI
- Admissão em UTI é obrigatória quando presente UM critério maior (choque séptico necessitando vasopressores OU insuficiência respiratória necessitando ventilação mecânica) OU ≥3 critérios menores. 1, 2
- Critérios menores: confusão mental, frequência respiratória ≥30/min, PAS <90 mmHg, infiltrados multilobares, PaO₂/FiO₂ <250, uremia, leucopenia, trombocitopenia, hipotermia ou necessidade de reposição volêmica agressiva. 1, 2
Investigações Diagnósticas no Pronto-Socorro
Para Pacientes Ambulatoriais
- Radiografia de tórax não é estritamente necessária para pacientes clinicamente estáveis tratados ambulatorialmente, mas quando disponível confirma o diagnóstico e exclui complicações. 1, 4
- Oximetria de pulso deve ser realizada em todos os casos suspeitos; hipoxemia documentada (SpO₂ <92%) exige internação. 1
- Investigações microbiológicas de rotina não são recomendadas; cultura de escarro deve ser considerada apenas para pacientes que não respondem à terapia empírica. 1, 4
Para Pacientes Hospitalizados (Não-UTI)
- Obter hemoculturas (duas amostras de sítios diferentes) e Gram/cultura de escarro ANTES da primeira dose de antibiótico em todos os pacientes hospitalizados para permitir terapia direcionada posterior. 1, 2
- Realizar radiografia de tórax, hemograma completo, ureia, eletrólitos, função hepática e renal, proteína C reativa (quando disponível) e avaliação de oxigenação. 1
- Teste de antígeno urinário para Legionella pneumophila sorogrupo 1 deve ser considerado em PAC grave ou pacientes de UTI. 1, 2
Para Pacientes de UTI
- Além dos exames acima, considerar testes sorológicos pareados para patógenos atípicos, teste de antígeno pneumocócico e investigação para Legionella em todos os pacientes com PAC grave. 1
Prescrição de Antibióticos Empíricos no Pronto-Socorro
Timing Crítico
A primeira dose de antibiótico deve ser administrada IMEDIATAMENTE no pronto-socorro após o diagnóstico; atraso superior a 8 horas aumenta a mortalidade em 30 dias em 20–30%. 1, 2, 4
Pacientes Ambulatoriais – Adultos Previamente Saudáveis (Sem Comorbidades)
Primeira linha: Amoxicilina 1 g VO 3x/dia por 5–7 dias – retém atividade contra 90–95% dos isolados de Streptococcus pneumoniae, incluindo cepas resistentes à penicilina, fornecendo cobertura pneumocócica superior comparada a cefalosporinas orais. 1, 2, 4
- Alternativa aceitável: Doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por 5–7 dias, oferecendo cobertura de patógenos típicos e atípicos. 1, 2, 4
- Macrolídeos (azitromicina ou claritromicina) devem ser usados APENAS quando a resistência pneumocócica local a macrolídeos for documentada <25%; na maioria das regiões do Brasil e EUA a resistência é 20–30%, tornando monoterapia com macrolídeo insegura como primeira linha. 1, 2, 4
Pacientes Ambulatoriais – Com Comorbidades ou Uso Recente de Antibióticos
Comorbidades incluem: DPOC, diabetes, doença cardíaca/hepática/renal crônica, alcoolismo, neoplasia, asplenia, imunossupressão ou uso de antibióticos nos últimos 90 dias. 1, 2
Opção 1 – Terapia combinada: β-lactâmico (amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 2x/dia, cefpodoxima ou cefuroxima) MAIS macrolídeo (azitromicina 500 mg dia 1, depois 250 mg/dia dias 2–5; ou claritromicina 500 mg 2x/dia) OU doxiciclina 100 mg 2x/dia por 5–7 dias. 1, 2, 4
Opção 2 – Fluoroquinolona respiratória: Levofloxacino 750 mg VO 1x/dia OU moxifloxacino 400 mg VO 1x/dia por 5–7 dias quando β-lactâmicos ou macrolídeos são contraindicados, reconhecendo advertências da FDA sobre eventos adversos graves. 1, 2, 4
Pacientes Hospitalizados (Não-UTI)
Duas opções igualmente eficazes com forte recomendação e evidência de alta qualidade:
β-lactâmico + macrolídeo: Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia MAIS azitromicina 500 mg IV ou VO 1x/dia. 1, 2, 4
Fluoroquinolona respiratória em monoterapia: Levofloxacino 750 mg IV 1x/dia OU moxifloxacino 400 mg IV 1x/dia. 1, 2, 4
Pacientes de UTI (PAC Grave)
Terapia combinada é OBRIGATÓRIA para todos os pacientes de UTI; monoterapia com β-lactâmico está associada a maior mortalidade. 1, 2, 4
Regime preferido: Ceftriaxona 2 g IV 1x/dia (ou cefotaxima 1–2 g IV 8/8h ou ampicilina-sulbactam 3 g IV 6/6h) MAIS azitromicina 500 mg IV 1x/dia OU fluoroquinolona respiratória (levofloxacino 750 mg IV 1x/dia ou moxifloxacino 400 mg IV 1x/dia). 1, 2, 4
- Para pacientes alérgicos à penicilina em UTI: aztreonam 2 g IV 8/8h MAIS fluoroquinolona respiratória. 1, 2
Cobertura para Patógenos Resistentes (Apenas Quando Fatores de Risco Presentes)
Cobertura Antipseudomonas
Adicionar APENAS quando fatores de risco documentados estão presentes:
- Doença pulmonar estrutural (bronquiectasias, fibrose cística)
- Hospitalização recente com antibióticos IV nos últimos 90 dias
- Isolamento respiratório prévio de Pseudomonas aeruginosa
- Exposição crônica ou prolongada a antibióticos de amplo espectro (≥7 dias no último mês) 1, 2, 4
Regime: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6h MAIS ciprofloxacino 400 mg IV 8/8h OU levofloxacino 750 mg IV 1x/dia MAIS aminoglicosídeo (gentamicina ou tobramicina 5–7 mg/kg IV 1x/dia) para cobertura dupla antipseudomonas. 1, 2, 4
Cobertura para MRSA
Adicionar APENAS quando fatores de risco presentes:
- Infecção/colonização prévia por MRSA
- Hospitalização recente com antibióticos IV
- Pneumonia pós-influenza
- Infiltrados cavitários na imagem 1, 2, 4
Regime: Vancomicina 15 mg/kg IV 8–12/12h (alvo de vale 15–20 µg/mL) OU linezolida 600 mg IV 12/12h, adicionado ao regime base de PAC. 1, 2, 4
Duração da Terapia e Transição para Via Oral
Duração Mínima
- Tratar por no mínimo 5 dias E até que o paciente esteja afebril por 48–72h com não mais que um sinal de instabilidade clínica. 1, 2, 4
- Duração típica para PAC não complicada: 5–7 dias. 1, 2, 4
- Estender para 14–21 dias APENAS para Legionella pneumophila, Staphylococcus aureus ou bacilos gram-negativos entéricos. 1, 2, 4
Critérios para Transição IV → Oral
Trocar de IV para oral quando o paciente está:
- Hemodinamicamente estável (PAS ≥90 mmHg, FC ≤100 bpm)
- Clinicamente melhorando
- Afebril por 48–72h
- Frequência respiratória ≤24/min
- SpO₂ ≥90% em ar ambiente
- Capaz de ingerir medicação oral
- Função gastrointestinal normal 1, 2, 4
Tipicamente alcançado no dia 2–3 de hospitalização. 1, 2, 4
Opções de Step-Down Oral
- Amoxicilina 1 g VO 3x/dia MAIS azitromicina 500 mg VO 1x/dia (ou continuar azitromicina sozinha após 2–3 dias de terapia IV). 2, 4
- Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 2x/dia MAIS azitromicina. 2, 4
Armadilhas Críticas a Evitar
- NUNCA usar monoterapia com macrolídeo em pacientes hospitalizados – falha em cobrir patógenos típicos como S. pneumoniae e está associada a falha terapêutica. 1, 2, 4
- NUNCA usar monoterapia com macrolídeo em ambulatório quando resistência pneumocócica local a macrolídeos excede 25% – aumenta risco de bacteremia de escape e falha. 1, 2, 4
- Evitar uso indiscriminado de fluoroquinolonas em PAC ambulatorial não complicada devido a advertências da FDA sobre eventos adversos graves (ruptura de tendão, neuropatia periférica, dissecção aórtica) e preocupações com resistência. 1, 2, 4
- NÃO adicionar agentes antipseudomonas ou anti-MRSA rotineiramente sem fatores de risco documentados – promove resistência sem benefício clínico. 1, 2, 4
- NÃO atrasar administração de antibióticos para aguardar culturas – espécimes devem ser coletados rapidamente, mas terapia não deve ser adiada. 1, 2, 4
Monitoramento e Reavaliação
Pacientes Ambulatoriais
- Revisão clínica obrigatória em 48 horas (ou antes se sintomas piorarem) para avaliar resposta, ingesta oral e aderência. 1, 2, 4
- Indicadores de falha terapêutica que exigem referência hospitalar: sem melhora clínica no dia 2–3, desenvolvimento de desconforto respiratório (FR >30/min, SpO₂ <92%), incapacidade de tolerar antibióticos orais ou novas complicações como derrame pleural. 1, 2, 4
Pacientes Hospitalizados
- Monitorar temperatura, frequência respiratória, pulso, pressão arterial, estado mental e saturação de oxigênio pelo menos 2x/dia para detectar deterioração precoce. 1, 4
- Se sem melhora clínica no dia 2–3: obter radiografia de tórax repetida, marcadores inflamatórios (PCR, leucograma) e espécimes microbiológicos adicionais para avaliar complicações como derrame pleural, empiema ou organismos resistentes. 1, 5, 4
Estratégias de Escalada
- Se falha com monoterapia de amoxicilina: adicionar ou substituir por macrolídeo para cobrir patógenos atípicos. 1, 2, 4
- Se falha com terapia combinada: trocar para fluoroquinolona respiratória. 1, 2, 4
Seguimento e Prevenção
- Seguimento de rotina em 6 semanas para todos os pacientes; radiografia de tórax apenas para aqueles com sintomas persistentes, sinais físicos anormais ou alto risco para malignidade subjacente (fumantes >50 anos). 1, 2, 4
- Oferecer vacina pneumocócica polissacarídica para todos os adultos ≥65 anos e aqueles com condições de alto risco. 1, 2, 4
- Recomendar vacinação anual contra influenza para todos os pacientes. 1, 2, 4
- Fornecer aconselhamento para cessação do tabagismo a todos os fumantes atuais. 1, 2, 4