Por Que Dar 30 mL/kg de Volume em Paciente Séptico?
A recomendação de administrar 30 mL/kg de cristaloides nas primeiras 3 horas é baseada no consenso internacional da Surviving Sepsis Campaign, que visa restaurar rapidamente a perfusão tecidual e o volume circulante em pacientes com choque séptico ou hipoperfusão, apesar da evidência de qualidade moderada a baixa que sustenta esta prática. 1
Fundamento Fisiológico
A administração de 30 mL/kg busca corrigir a hipovolemia relativa e absoluta que ocorre na sepse através de:
- Vasodilatação patológica que aumenta a capacitância vascular e reduz o retorno venoso 1
- Extravasamento capilar causado pela resposta inflamatória sistêmica, levando à perda de volume intravascular 1
- Otimização do volume sistólico para melhorar a entrega de oxigênio aos tecidos 2
Evidência das Diretrizes
As diretrizes da Surviving Sepsis Campaign 2016 recomendam especificamente:
- Administrar no mínimo 30 mL/kg de cristaloides nas primeiras 3 horas para pacientes com hipotensão induzida por sepse ou lactato ≥4 mmol/L (recomendação forte, qualidade de evidência moderada) 1
- Usar técnica de desafio volêmico, continuando a administração enquanto houver melhora dos fatores hemodinâmicos 1
- Cristaloides são preferidos como fluido de escolha inicial, com cristaloides balanceados ou salina como opções 1, 3
Controvérsias e Evidências Conflitantes
Evidências Favoráveis:
- Estudo retrospectivo com 1.032 pacientes demonstrou que falhar em atingir 30 mL/kg em 3 horas aumentou as chances de mortalidade (OR 1,52; IC 95% 1,03-2,24), independentemente de comorbidades como insuficiência cardíaca, doença renal terminal ou obesidade 4
- Volumes entre 35-45 mL/kg correlacionaram-se com menor mortalidade, com efeito platô nesta faixa 4
Evidências Questionadoras:
- Estudo prospectivo multicêntrico chinês com 302 pacientes mostrou que o grupo que recebeu >30 mL/kg teve maior mortalidade em 28 dias (48,3%) comparado ao grupo que recebeu 20-30 mL/kg (26,3%) 5
- O volume médio (20-30 mL/kg) foi fator protetor independente (OR 0,507; IC 95% 0,310-0,828) 5
- Estudo japonês com 172 pacientes não encontrou associação entre receber 30 mL/kg em 3 horas e aumento da mortalidade após ajuste por propensity score, mas pacientes que receberam este volume eram mais graves 6
Armadilhas Comuns e Como Evitá-las
Populações de Risco:
Pacientes com as seguintes condições têm menor probabilidade de receber 30 mL/kg, mas a evidência não suporta restrição automática 4:
- Idosos (OR 0,62 para receber 30by3) 4
- Insuficiência cardíaca (OR 0,42) 4
- Doença renal terminal (OR 0,23) 4
- Obesidade (OR 0,18) 4
- Sobrecarga volêmica documentada ao exame físico (OR 0,30) 4
Estratégia Prática:
Administração inicial:
- Iniciar com bolus rápidos de 250-1000 mL de cristaloides balanceados (Ringer Lactato ou Plasmalyte preferidos sobre salina 0,9%) 1, 3
- Reavaliar após cada bolus os parâmetros hemodinâmicos 1, 3
Alvos de ressuscitação:
- Pressão arterial média ≥65 mmHg 1
- Redução do lactato em 20% na primeira hora se elevado 1, 3
- Débito urinário >0,5 mL/kg/h 3
- Melhora da perfusão cutânea, tempo de enchimento capilar, temperatura da pele e estado mental 1, 3
Critérios para interromper fluidos:
- Ausência de melhora da perfusão tecidual após bolus 1
- Desenvolvimento de sinais de sobrecarga volêmica ou edema pulmonar 1, 3
- Estabilização dos parâmetros hemodinâmicos 3
Integração com Vasopressores:
- Iniciar norepinefrina se hipotensão persistir apesar de ressuscitação volêmica adequada, sem esperar completar os 30 mL/kg se o paciente permanecer instável 1, 3
- Norepinefrina é o vasopressor de primeira escolha 1
Abordagem Recomendada
Para pacientes com choque séptico ou lactato ≥4 mmol/L:
- Administrar cristaloides balanceados em bolus de 500-1000 mL rapidamente 1, 3
- Reavaliar após cada bolus (frequência cardíaca, pressão arterial, perfusão, débito urinário) 3
- Continuar até atingir aproximadamente 30 mL/kg nas primeiras 3 horas, mas titular pela resposta clínica e não por volume fixo 1
- Em pacientes com comorbidades cardíacas ou renais, considerar bolus menores (250-500 mL) com reavaliação mais frequente, mas não evitar ressuscitação adequada 4
- Iniciar vasopressor precocemente se hipotensão persistir 3
A recomendação de 30 mL/kg deve ser vista como um ponto de partida orientador, não como meta rígida, com a ressuscitação guiada primariamente pela resposta hemodinâmica e melhora da perfusão tecidual 1, 2, 7.