Efeitos da Ingestão Concomitante de Propranolol e Álcool
A ingestão concomitante de álcool com propranolol aumenta os níveis plasmáticos de propranolol e potencializa seus efeitos adversos, particularmente hipotensão, bradicardia e depressão do sistema nervoso central, devendo ser evitada ou realizada com extrema cautela. 1
Interação Farmacocinética
A bula da FDA estabelece claramente que o álcool, quando usado concomitantemente com propranolol, pode aumentar os níveis plasmáticos de propranolol 1. Estudos demonstram que:
- A administração aguda de álcool aumenta a área sob a curva (AUC) e a concentração plasmática máxima (CPmax) do propranolol 2
- O etanol diminui a taxa de absorção mas aumenta a biodisponibilidade total do propranolol 2
- O álcool induz o metabolismo hepático quando usado cronicamente, mas na administração aguda concomitante, aumenta a exposição ao propranolol 1, 2
Efeitos Cardiovasculares Potencializados
A combinação produz efeitos cardiovasculares aditivos significativos:
- Hipotensão aditiva: Tanto o álcool quanto o propranolol reduzem a pressão arterial, e seus efeitos são cumulativos, especialmente durante o período noturno 3
- Bradicardia: O propranolol atenua significativamente a taquicardia reflexa induzida pelo álcool, resultando em frequências cardíacas mais baixas 3
- Redução do débito cardíaco: As alterações no débito cardíaco induzidas pelo álcool são significativamente atenuadas pelo propranolol 3
Efeitos no Sistema Nervoso Central
O propranolol, sendo altamente lipofílico, atravessa a barreira hematoencefálica e seus efeitos centrais são potencializados pelo álcool 4:
- Sedação e letargia aumentadas: A combinação pode causar sonolência excessiva e comprometimento cognitivo 5
- Comprometimento da atenção dividida: Estudos demonstram que o propranolol aumenta significativamente os efeitos do etanol na atenção dividida e nas classificações de embriaguez 6
- Alterações eletroencefalográficas: O propranolol potencializa as alterações no EEG induzidas pelo álcool 6
Riscos Metabólicos Graves
A associação com álcool pode ser extremamente perigosa devido a:
- Hipoglicemia severa: A combinação de propranolol com álcool pode ser muito grave, particularmente porque ambos afetam a gliconeogênese e a glicogenólise 7
- Mascaramento dos sintomas: O bloqueio beta-adrenérgico mascara os sinais precoces de hipoglicemia (taquicardia, tremores, sudorese), permitindo que a neuroglicopenemia progrida sem aviso 4
Casos de Intoxicação Grave
Relatos de casos documentam a gravidade desta combinação:
- Uma paciente de 31 anos que ingeriu 3,6g de propranolol com álcool desenvolveu: coma, convulsões, insuficiência respiratória, hipoglicemia, choque circulatório e taquicardia de complexo largo 8
- A concentração sanguínea de etanol foi 2,42 g/L e propranolol 4,21 mg/L, demonstrando toxicidade sinérgica 8
- O tratamento convencional foi pouco eficaz, necessitando emulsão lipídica intravenosa 8
Recomendações Práticas de Manejo
Orientação ao paciente:
- Aconselhar abstinência completa de álcool durante o tratamento com propranolol 1
- Se o consumo de álcool for inevitável, limitar a quantidades mínimas e monitorar sinais de hipotensão e hipoglicemia 3
Monitoramento clínico:
- Avaliar pressão arterial e frequência cardíaca com maior frequência em pacientes que consomem álcool 3
- Verificar glicemia se houver ingestão concomitante, especialmente em jejum ou com ingestão oral reduzida 4, 7
- Observar sinais de letargia excessiva, confusão ou alterações do estado mental 5, 8
Ajustes terapêuticos:
- Considerar redução da dose de propranolol em pacientes com consumo regular de álcool 1
- Em pacientes com histórico de consumo significativo de álcool, considerar beta-bloqueadores menos lipofílicos que não atravessam a barreira hematoencefálica 5
Armadilhas comuns:
- Não subestimar a gravidade da interação mesmo com doses terapêuticas de propranolol e consumo "social" de álcool 2, 3
- Não confiar apenas na ausência de bradicardia como indicador de segurança, pois disritmias atípicas podem ocorrer 8, 7
- Lembrar que o álcool pode induzir o metabolismo do propranolol cronicamente, mas aumenta sua biodisponibilidade na administração aguda 1, 2