Abordagem Diagnóstica para Neuropatia com Gene TTR Negativo
Em um paciente com neuropatia de pequenas fibras ou autonômica inexplicada, líquido cefalorraquidiano normal e teste genético TTR negativo, o próximo passo diagnóstico apropriado é realizar biópsia tecidual de um órgão clinicamente afetado com coloração vermelho Congo, seguida de tipagem do amiloide por imunofluorescência ou espectrometria de massa. 1, 2
Raciocínio Diagnóstico Estruturado
1. Exclusão de Amiloidose AL (Prioridade Máxima)
Antes de qualquer outra investigação, você deve excluir amiloidose AL, pois esta condição requer tratamento hematológico urgente e tem prognóstico diferente:
- Realize imunofixação sérica e urinária combinada com ensaio de cadeias leves livres – esta combinação tem >99% de sensibilidade para detectar amiloidose AL 1, 2
- A eletroforese de proteínas plasmáticas isolada é insuficiente; a imunofixação é obrigatória por sua maior sensibilidade 1
- Armadilha crítica: Nunca interprete cintilografia óssea ou outros testes sem primeiro excluir proteína monoclonal, pois a captação cardíaca pode ocorrer tanto em ATTR quanto em AL 2
2. Biópsia Tecidual para Confirmação de Amiloide
Com teste genético TTR negativo e proteínas monoclonais ausentes, a biópsia permanece essencial:
- Obtenha biópsia de um local clinicamente afetado (nervo periférico se neuropatia predominante, gordura abdominal, glândula salivar menor ou medula óssea) 1, 3
- A coloração vermelho Congo com birrefringência sob luz polarizada confirma depósitos amiloides 1
- Armadilha crítica: Biópsias de locais não clinicamente envolvidos têm alta taxa de falso-negativos, especialmente em amiloidose ATTR (sensibilidade de ~15% para ATTRwt em gordura abdominal) 1, 2
- A biópsia de nervo foi diagnóstica em 54 de 65 pacientes (83%) em uma série de casos esporádicos de TTR-FAP 4
- A biópsia de glândula salivar foi diagnóstica em 20 de 30 pacientes (67%) 4
3. Tipagem Obrigatória do Amiloide
Após confirmar depósitos amiloides, a tipagem é absolutamente necessária:
- Utilize imunofluorescência ou espectrometria de massa para identificar o subtipo de amiloide (AL, ATTR, AA ou outros) 1, 2
- A espectrometria de massa é mais precisa que a imunofluorescência e evita erros de rotulagem falsa 4
- Armadilha crítica: Imunomarcação falsa de depósitos amiloides foi uma das principais causas de erro diagnóstico em série de 90 casos 4
4. Reteste Genético TTR em Casos Selecionados
Mesmo com teste genético inicial negativo, considere reteste em situações específicas:
- Sequenciamento TTR deve ser repetido se a biópsia confirmar amiloide ATTR, pois a penetrância de variantes TTR varia entre famílias e algumas mutações podem ser perdidas em testes iniciais 1
- Aproximadamente 150 mutações diferentes do gene TTR foram associadas à amiloidose 1
- História familiar pode estar ausente em até 30% dos casos de ATTRv devido à penetrância variável 1, 5
5. Investigação de Causas Alternativas de Neuropatia
Se a biópsia for negativa para amiloide, investigue outras etiologias:
- Polineuropatia inflamatória desmielinizante crônica (CIDP) – foi o diagnóstico errôneo mais comum em série de 90 casos de TTR-FAP (18 pacientes) 4, 5
- Neuropatia axonal idiopática de progressão rápida 5
- Estenose espinhal lombar 5
- Causas metabólicas: deficiência de vitamina B12, hipotireoidismo, doença renal crônica 6
- Armadilha crítica: Velocidade de condução nervosa diminuída e proteína liquórica aumentada podem mimetizar CIDP, mas em ATTR a neuropatia é tipicamente axonal, não desmielinizante 4
Características Clínicas que Aumentam Suspeita de ATTR Apesar de Gene Negativo
- Neuropatia de pequenas fibras com predomínio de disfunção autonômica grave (hipotensão postural, disfunção gastrointestinal, disfunção erétil, distúrbios esfincterianos) 4, 5
- Perda sensorial dependente do comprimento afetando todas as modalidades sensoriais 4
- Síndrome do túnel do carpo bilateral precedendo a neuropatia por anos 6, 5
- Perda de peso inexplicada 5
- Distúrbios do ritmo cardíaco ou hipertrofia cardíaca 5
- Opacidades vítreas 5
- Progressão rápida (desfecho fatal em 10 anos sem tratamento) 4
Testes Complementares para Caracterização da Neuropatia
- Estudos de condução nervosa e eletromiografia documentam envolvimento de fibras grandes 3, 6
- Biópsia de pele com densidade de fibras nervosas intraepidérmicas confirma neuropatia de pequenas fibras quando estudos de condução são normais 3, 7
- Testes autonômicos (monitoramento de pressão arterial postural, variabilidade da frequência cardíaca, teste sudomotor) 3
- Teste sensorial quantitativo (QST) para avaliar função de pequenas fibras 8
Considerações Sobre ATTRwt (Tipo Selvagem)
Estudos recentes mostram que amiloidose ATTRwt pode apresentar neuropatia mais frequentemente do que se pensava:
- Em coorte mista, 70% dos pacientes com ATTRwt tinham neuropatia de fibras grandes 8
- Mais de 80% dos pacientes com ATTRwt tinham densidade reduzida de fibras nervosas intraepidérmicas na biópsia de pele 8
- Dois pacientes com ATTRwt apresentaram neuropatia pura de pequenas fibras 8
- 44% dos pacientes com ATTRwt exibiram neuropatia sem evidência de outra causa subjacente após revisão de comorbidades relevantes 8
Algoritmo de Decisão Final
- Exclua AL: Imunofixação sérica + urinária + cadeias leves livres
- Se negativo para proteína monoclonal: Biópsia de local clinicamente afetado
- Se amiloide confirmado: Tipagem por espectrometria de massa ou imunofluorescência
- Se ATTR confirmado: Reteste genético TTR (pode revelar variante perdida no primeiro teste)
- Se biópsia negativa mas suspeita alta: Considere biópsia de órgão adicional ou endomiocardiográfica se houver envolvimento cardíaco 1
Armadilha final: A progressão da neuropatia amiloide é mais rápida que a neuropatia diabética e requer diagnóstico e tratamento imediatos 3. Atrasos diagnósticos de 4 anos (intervalo de 1-10 anos) foram comuns em série de casos esporádicos 4, portanto mantenha alto índice de suspeição mesmo com teste genético inicial negativo.